quinta-feira, 21 de março de 2013

Vidas passadas


Vidas passadas

 

Marco Aurélio Baggio


 

      Pessoas crédulas e tolas vivem professando/propalando suas vidas acontecidas lá pra trás, no passado remoto. Trata-se de bela balela, absoluta mentira por cerrada impossibilidade.

        Um grupelho de picaretas enganadores,  eivados de ilusões e possuídos por certezas mentirosas, criaram uma fabulosa maneira técnica de operar com tais evanescências e  abstrusas mistificações. São tratadores que exploram o rico filão da credulidade humana: os seres humanos adoram acreditar em bobagem. Pagam, felizes, para serem enganados.

        Daí o comando para que, tais como lemingues, embarquem no ômnibus suicida das terapias de vidas passadas. Pois que façam um bom mergulho nas vastidões da ignorância e da obscuridade.

        Eu, de minha parte, entendo por’ Vidas Passadas’ outro acontecimento caviloso.

        Como psiquiatra tratador das vidas presentes das pessoas, tenho me deparado com dezenas de clientes que trazem o relato de suas vivencias, configurando que o cerne e a seiva de suas vidas está postada no seu passado.

        São em geral mulheres, na proporção de 5 para 1 homem.

        Estão entrando na idade madura , entre 45 e 60 anos.

        Então gordas, 5 a 30 quilos acima do peso.

        Há muito estão desacasaladas: abandonadas pelos parceiros, viúvas, desencantadas “com essa raça de homens que não prestam.”

        Todas reclamam dos homens com que conviveram :  ou  foram seduzidas e traídas  ou abandonadas por eles.

        Possuídas por expectativas românticas infantis e adolescentes demais, tiveram seus sonhos defraudados por seus amantes, esposos e amores.

        Todas possuem no recesso sagrado de seu sacrário a bruxuleante chama acesa de, um dia, vir a encontrar-se com aquele homem ideal idealizado, príncipe encantado perfeito, que irá se encantar com seu corpo fenecente, com seus encantos já decadentes e interessar-se, ele príncipe, em atender e saciar todas as suas expectativas românticas infantis. Estas, igualmente guardadas em seu sacrário de ideologia feminina inconsciente.

        “- Ele existe; ele virá; ele é tudo de bom; ele é dez; ele fará de mim a deusa Diana – Vênus que eu, lá no fundo, sou. Basta ele me desencantar, ao me tocar com sua vara mágica.

        Um pênis duro só não serve. Pênis, esses, eu até já tive alguns: não operam mágica. No máximo, grangeiam algum orgasmo. É pouco, muito pouco, mereço bem mais.”

        São mulheres esposas desativadas, desempregadas, aposentadas, com rendas financeiras decrescentes, caminhando para o gradativo e inexorável empobrecimento. Algumas já estão roçando a penúria e a miséria.

        Foram belas, viçosas e cobiçadas. Paqueradas. Hoje não  mais não encontram fãs.

        Mal e mal, algum homem se atreve a querer come-las. Diante de proposta escarrada e explicita, refugam, indignadas. E com isso, perdem uma das ultimas possibilidades de interação amorosa.

        O desencontro é brutal: nessa altura de suas vidas, homem algum quase irá se interessar em preencher o extenso formulário de pré-requisitos que a vetusta senhora exige e espera ser preenchido para conceder vir a abrir as coxas. Desencontro puro. As menininhas gratuitas ou pagas estão ai, pululantes e frementes e oferecentes. A vida e os produtos do capitalismo são cruéis. Há sempre oferta de produtos novos, zero quilômetro, última moda, nova tecnologia. Fiat 147, Fissore, Del Rey, Opala 66 ainda são belos, úteis e funcionam, mas já estão demodeé, old fashioned, fora de moda.

        Na década da encruzilhada da vida, entre os 50 e os 60 anos, a pessoa se flagra esvaziada, desinstrumentada caminhando de banda.

        Perdeu ligações sociais. Perdeu cabedais. O tempo passou e centenas de oportunidades transeuntes passaram e desapareceram  definitivamente para eles.

        Se mães, os filhos foram embora. Se funcionarias, a aposentadoria ou o desemprego as empurrara para a marginal da vida social.Se homens, o desemprego estúpido os ronda; a aposentadoria escancara suas fauces de cruel abandono e  crescente desprestigio.

        Os amigos escassearam. Os esportes, o corpo rejeita, cheio de dores e de reumatismos.

        Os livros, são tantos, quais escolher ler?

        Desaprenderam de aprender nos bons livros ou com quem sabe bem do desenrrolar das coisas.

        O bom da vida veio de chuvisco, já passou e a vida se tornou adusta. O pior é que a pessoa perdeu a capacidade de se nortear e de se conduzir.

        Mal percebendo, sem perceber, essas pessoas foram se retirando dos comércios e dos intercâmbios sociais.

        Refugiaram no casulo de seus espaços restritos onde moram, discretissimamente. Já quase mais não saem de casa para encontros e convívios sociais baratos e sempre convidativos. Até que passam a não mais serem convidadas e nem lembradas. Desaparecem do convívio ameno e ressarcidor, silenciosamente.

        Perdem a capacidade de utilizar seu tempo disponível para arquitetar alguma atividade inovadora ou novidadeira. Vivem mergulhados em uma temporalidade presente espessa, repetitiva e sem graça.

        Ao cabo de poucos anos, desenvolvem dois  envenenante atributos. A anedonia, isto é, a perda da capacidade de extrair prazer e alegria do contato com as coisas boas e amenas da vida. Já não acham mais graça em nada, já não curtem coisa alguma. Suas vidas tornou-se uma rotina desgraciosa, quando não também, desinteressante. Não se renovam ao não auferir gosto, satisfação e realização com coisa alguma que, escassamente, fazem.

        O outro veneno é a acrasia, isto é, a perda da capacidade de querer obter as coisas. A deterioração de uma vontade pessoal que perde força e se desmotiva a cada momento não realizado, acarreta uma crescente desmoralização da pessoa perante si mesma. Isso cria um circulo vicioso em espirais  descendentes e decrescentes, cujo resultado é a desconfirmação do sujeito perante o tribunal de sua consciência critica.

        Destituido da vontade que dava força ao suceder, sem gã e sem gana, a pessoa se desproduz enquanto ser voltado em prolepse para realizar-se no arco de suas disponibilidades, logo ali, logo após, em seu futuro imediato luminoso.

        Deixado estiolar a boladeira extratora da garapa de cana que, caída em forno quente do tesão, transforma-se na doce e dura rapadura que sustenta e nutre a vida, a pessoa torna-se desencarnada, desvitalizada, desgraçada: é, meramente, bolotuda.        Em excesso daquilo inútil, de que não se precisa. Resta a ela sonhar com um amor mágico, um deus dadivoso, uma sorte megassenica ou com um raio que a parta... Puras sonhices...

        Os dias se sucedem, as boas intenções ficam alocadas para um futuro cada vez mais distante, postado na remotidão das boas intenções que jamais serão exercidas.

        Os meses escoam, testemunhando o a principio lento mais logo veloz e voraz do escoamento dos cabedais da pessoa.

        A soma dos anos, uns após os outros, se encarrega de, primeiro, determinar a consolidação de um estilo de ser consumptivo e, enfim, condenar a pessoa a viver apenas na rememória de sua vida passada.

Passou que se foi; não volta atrás, não volta mais...

Foi-se o que era doce...

Uma vida se esfoi. Uma pessoa fracassou em sua existência. Por que será  que a pessoa deixou-se deslizar insidiosamente nesse maligno processo de autossabotagem?

 O pior é que, se entre 50 ou 60 anos de idade, em nossos dias, a pessoa receberá mais 20 a 30 anos de vida, nesse estilo desgostoso e passado de vida.

Vidas passadas, situação existencial tão encontrada, hoje, na clinica psiquiátrica, é puro desperdício.
Ninguém merece!...

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