Vidas
passadas
Marco Aurélio Baggio
Pessoas
crédulas e tolas vivem professando/propalando suas vidas acontecidas lá pra
trás, no passado remoto. Trata-se de bela balela, absoluta mentira por cerrada
impossibilidade.
Um
grupelho de picaretas enganadores,
eivados de ilusões e possuídos por certezas mentirosas, criaram uma
fabulosa maneira técnica de operar com tais evanescências e abstrusas mistificações. São tratadores que exploram o rico filão da
credulidade humana: os seres humanos adoram acreditar em bobagem. Pagam,
felizes, para serem enganados.
Daí
o comando para que, tais como lemingues, embarquem no ômnibus suicida
das terapias de vidas passadas. Pois que façam um bom mergulho nas vastidões da
ignorância e da obscuridade.
Eu,
de minha parte, entendo por’ Vidas Passadas’ outro acontecimento caviloso.
Como
psiquiatra tratador das vidas presentes das pessoas, tenho me deparado com
dezenas de clientes que trazem o relato de suas vivencias, configurando que o
cerne e a seiva de suas vidas está postada no seu passado.
São
em geral mulheres, na proporção de 5 para 1 homem.
Estão
entrando na idade madura , entre 45 e 60 anos.
Então
gordas, 5 a 30 quilos acima do peso.
Há
muito estão desacasaladas: abandonadas pelos parceiros, viúvas, desencantadas
“com essa raça de homens que não prestam.”
Todas
reclamam dos homens com que conviveram :
ou foram seduzidas e
traídas ou abandonadas por eles.
Possuídas
por expectativas românticas infantis e adolescentes demais, tiveram seus sonhos
defraudados por seus amantes, esposos e amores.
Todas
possuem no recesso sagrado de seu sacrário a bruxuleante chama acesa de, um
dia, vir a encontrar-se com aquele homem ideal idealizado, príncipe encantado
perfeito, que irá se encantar com seu corpo fenecente, com seus encantos já
decadentes e interessar-se, ele príncipe, em atender e saciar todas as suas
expectativas românticas infantis. Estas, igualmente guardadas em seu sacrário
de ideologia feminina inconsciente.
“-
Ele existe; ele virá; ele é tudo de bom; ele é dez; ele fará de mim a deusa
Diana – Vênus que eu, lá no fundo, sou. Basta ele me desencantar, ao me tocar
com sua vara mágica.
Um
pênis duro só não serve. Pênis, esses, eu até já tive alguns: não operam
mágica. No máximo, grangeiam algum orgasmo. É pouco, muito pouco, mereço bem
mais.”
São
mulheres esposas desativadas, desempregadas, aposentadas, com rendas
financeiras decrescentes, caminhando para o gradativo e inexorável
empobrecimento. Algumas já estão roçando a penúria e a miséria.
Foram
belas, viçosas e cobiçadas. Paqueradas. Hoje não mais não encontram fãs.
Mal
e mal, algum homem se atreve a querer come-las. Diante de proposta escarrada e
explicita, refugam, indignadas. E com isso, perdem uma das ultimas
possibilidades de interação amorosa.
O
desencontro é brutal: nessa altura de suas vidas, homem algum quase irá se
interessar em preencher o extenso formulário de pré-requisitos que a vetusta
senhora exige e espera ser preenchido para conceder vir a abrir as coxas.
Desencontro puro. As menininhas gratuitas ou pagas estão ai, pululantes e
frementes e oferecentes. A vida e os produtos do capitalismo são cruéis. Há
sempre oferta de produtos novos, zero quilômetro, última moda, nova tecnologia.
Fiat 147, Fissore, Del Rey, Opala 66 ainda são belos, úteis e funcionam, mas já
estão demodeé, old fashioned, fora de moda.
Na
década da encruzilhada da vida, entre os 50 e os 60 anos, a pessoa se flagra
esvaziada, desinstrumentada caminhando de banda.
Perdeu
ligações sociais. Perdeu cabedais. O tempo passou e centenas de oportunidades
transeuntes passaram e desapareceram
definitivamente para eles.
Se
mães, os filhos foram embora. Se funcionarias, a aposentadoria ou o desemprego
as empurrara para a marginal da vida social.Se homens, o desemprego estúpido os
ronda; a aposentadoria escancara suas fauces de cruel abandono e crescente desprestigio.
Os
amigos escassearam. Os esportes, o corpo rejeita, cheio de dores e de
reumatismos.
Os
livros, são tantos, quais escolher ler?
Desaprenderam
de aprender nos bons livros ou com quem sabe bem do desenrrolar das coisas.
O
bom da vida veio de chuvisco, já passou e a vida se tornou adusta. O pior é que
a pessoa perdeu a capacidade de se nortear e de se conduzir.
Mal
percebendo, sem perceber, essas pessoas foram se retirando dos comércios e dos
intercâmbios sociais.
Refugiaram
no casulo de seus espaços restritos onde moram, discretissimamente. Já quase
mais não saem de casa para encontros e convívios sociais baratos e sempre
convidativos. Até que passam a não mais serem convidadas e nem lembradas.
Desaparecem do convívio ameno e ressarcidor, silenciosamente.
Perdem
a capacidade de utilizar seu tempo disponível para arquitetar alguma atividade
inovadora ou novidadeira. Vivem mergulhados em uma temporalidade presente
espessa, repetitiva e sem graça.
Ao
cabo de poucos anos, desenvolvem dois
envenenante atributos. A anedonia, isto é, a perda da capacidade de
extrair prazer e alegria do contato com as coisas boas e amenas da vida. Já não
acham mais graça em nada, já não curtem coisa alguma. Suas vidas tornou-se uma
rotina desgraciosa, quando não também, desinteressante. Não se renovam ao não
auferir gosto, satisfação e realização com coisa alguma que, escassamente,
fazem.
O
outro veneno é a acrasia, isto é, a perda da capacidade de querer obter as
coisas. A deterioração de uma vontade pessoal que perde força e se desmotiva a
cada momento não realizado, acarreta uma crescente desmoralização da pessoa
perante si mesma. Isso cria um circulo vicioso em espirais descendentes e decrescentes, cujo resultado
é a desconfirmação do sujeito perante o tribunal de sua consciência critica.
Destituido
da vontade que dava força ao suceder, sem gã e sem gana, a pessoa se desproduz
enquanto ser voltado em prolepse para realizar-se no arco de suas
disponibilidades, logo ali, logo após, em seu futuro imediato luminoso.
Deixado
estiolar a boladeira extratora da garapa de cana que, caída em forno quente do
tesão, transforma-se na doce e dura rapadura que sustenta e nutre a vida, a
pessoa torna-se desencarnada, desvitalizada, desgraçada: é, meramente,
bolotuda. Em excesso daquilo
inútil, de que não se precisa. Resta a ela sonhar com um amor mágico, um deus
dadivoso, uma sorte megassenica ou com um raio que a parta... Puras sonhices...
Os
dias se sucedem, as boas intenções ficam alocadas para um futuro cada vez mais
distante, postado na remotidão das boas intenções que jamais serão exercidas.
Os
meses escoam, testemunhando o a principio lento mais logo veloz e voraz do
escoamento dos cabedais da pessoa.
A
soma dos anos, uns após os outros, se encarrega de, primeiro, determinar a
consolidação de um estilo de ser consumptivo e, enfim, condenar a pessoa a
viver apenas na rememória de sua vida passada.
Passou que
se foi; não volta atrás, não volta mais...
Foi-se o
que era doce...
Uma vida
se esfoi. Uma pessoa fracassou em sua existência. Por que será que a pessoa deixou-se deslizar
insidiosamente nesse maligno processo de autossabotagem?
O pior é que, se entre 50 ou 60 anos de
idade, em nossos dias, a pessoa receberá mais 20 a 30 anos de vida, nesse
estilo desgostoso e passado de vida.
Vidas
passadas, situação existencial tão encontrada, hoje, na clinica psiquiátrica, é
puro desperdício.
Ninguém merece!...
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