AUTO-ACONCHEGO
Marco Aurélio Baggio
“As pessoas me
chamam de excêntrico, esquisito, sistemático. Ainda fico incomodado com isso.
O desejo de ser
como os outros todos é muito forte em mim ainda. Acontece que, aos 46 anos,
estou constatando que sou um sujeito que não gosta de freqüentar ambientes
sociais, comemorações, festas e badalações. Prefiro ficar sozinho comigo mesmo,
envolvido com minhas coisas. Depois de um dia intenso de trabalho, recolho-me
ao meu apartamento, ligo um som, preparo meu alimento, pego um livro para ler e
fico envolvido com meus pensamentos.
Gosto é disso:
de ficar ruminando e remoendo meus afetos, numa elucubração longa, suave e
ressarcidora. Isso me faz bem. Depois de meses de trabalho, o que quero é ir
para minhas terras, lá no tugúrio onde nasci, e ficar vendo o capim crescer, os
pássaros a voar e a cantar, o ciclo do dia e da noite, o gado a pastar, o
córrego a murmurejar. Eu ali, dono de tudo, cuidando sem pressa e sem cuidados.
Sorvendo, vivendo síntono com aquele ritmo pachorrento das coisas naturais da
minha infância, que me fazem tão bem. Às vezes, chego lá “açulerado”, puto,
aflito, querendo fazer e tomar providências, mexer nisso, inovar naquilo e, aos
poucos, vou me abrandando, entrando no clima, me acalmando. Comigo é assim.
Na minha casa,
lá na roça, sinto que entro num estado plácido, que chamo de
auto-aconchego. Eu próprio me torno
conchegativo a mim mesmo. É como se eu fosse capaz de, órfão de pai e de mãe,
me colocar no meu próprio colo e me acalentar e me ninar, suave e
compassivamente.
Essa capacidade
de me auto-envolver me traz uma paz que serena meus bravios demônios
interiores. Não sei se é certo, mas, se não for, foda-se. O fato é que, em vez
de tomar Lexotan, consigo mergulhar em um estado de auto tranqüilização, no
qual posso desfrutar da intimidade com as minhas vivências todas, repassando-as
e degustando-as como se fossem jabuticabas, uma a uma.
É dessa maneira
que pratico uma verdadeira retirada do mundo. Escapo para um mundo onde não há
desavenças, decepções, más surpresas, confusões, sustos e sobressaltos. Um
mundo onde estou a salvo de traições, de desenganos e de aborrecimentos.
Portanto, me
sinto uma pessoa privilegiada, porque não vivo ameaçado pela pantera da solidão
do abandono. Sei bem o que é isso, porque perdi minha mãe muito cedo. Não sinto
a solidão que corrói e apavora: eu sou um bom companheiro de mim mesmo. Nem
preciso invocar deus: comigo estou na minha senda.
Amigos mais
ousados às vezes me criticam, dizendo que sou muito narcisista, exclusivista e,
até, egoísta. Não sei não. Mas acho que tenho mais é que ser eu mesmo. Por que
não? Foi assim que me formei, me constitui e virei gente. Preciso me refletir
sobre o espelho de minhas próprias águas para me abastecer de mim mesmo.
Você pode achar
que sou um misantropo. Longe disso. Convivo bem com as pessoas, tenho amigos,
parentes, conhecidos. Como médico, cada vez mais me compadeço do paciente. Cada
vez mais tenho paciência para lidar com o ser humano doente e seus familiares
impertinentes.
Também não sou
misógino. Gosto das mulheres e as curto, trato-as bem e “o pessoal” não tem
reclamado... Apenas não consigo me fascinar e me fazer arrebatar o suficiente
para vir a propor casamento a alguma.
Que fazer? Casar
só por casar? Casar para desfazer a pecha de solteirão empedernido? Casar só
porque toda mulher foi socializada para ter no casamento seu supremo objetivo
de vida? Ou então, casar porque estou ficado passado em idade? Não. Pelo menos,
ainda não. Não tenho de realizar o sonho delas ou a expectativa de outros.
Procuro, muito modestamente, sustentar os meus pequeninos sonhos. E isso já me
custa. Me basta.
Veja você:
diferentemente de anos atrás, quando vivia angustiado, metido em guerra
permanente com as pessoas e contra o mundo, época em que me considerava um
capiau do mato, grosseiro e agressivo, um sujeito briguento, de estopim curto,
hoje consigo me situar bem mais pra
cima. Sou um homem urbano muito decente e prestativo, que mantém fortes raízes
interioranas. Sou capaz de me manter inteiro, estável, equilibrado, sem me
alterar muito. Sei que, sempre que o mundo ruge e a barra pesa, posso enfrentar
e gastar meu cabedal. Porque depois eu volto para o meu auto-aconchego.
Hoje tenho a confiança e a certeza de que sou capaz de
entrar de novo em minha concha e nela me reabastecer de mim mesmo, numa ótima,
sem prejudicar ninguém nem depender de alguém.
Se sou um homem
feliz? Sim e não. Mas, também, para quê? Não foi você quem disse que a
felicidade não está ao alcance dos seres humanos?
O que sei é que,
de noite, na cama, embalo e acalento meus demônios. Apascento-os, neutralizo-os
e os torno humanizados. E, de dia, após os embates desencontrados do cotidiano,
sou capaz de me tranqüilizar quando me ponho no colo e me torno
auto-aconchegativo.
É o que me
basta...”
Nenhum comentário:
Postar um comentário