quarta-feira, 20 de março de 2013

AUTO-ACONCHEGO


AUTO-ACONCHEGO


 

Marco Aurélio Baggio

 

 

       “As pessoas me chamam de excêntrico, esquisito, sistemático. Ainda fico incomodado com isso.

       O desejo de ser como os outros todos é muito forte em mim ainda. Acontece que, aos 46 anos, estou constatando que sou um sujeito que não gosta de freqüentar ambientes sociais, comemorações, festas e badalações. Prefiro ficar sozinho comigo mesmo, envolvido com minhas coisas. Depois de um dia intenso de trabalho, recolho-me ao meu apartamento, ligo um som, preparo meu alimento, pego um livro para ler e fico envolvido com meus pensamentos.

       Gosto é disso: de ficar ruminando e remoendo meus afetos, numa elucubração longa, suave e ressarcidora. Isso me faz bem. Depois de meses de trabalho, o que quero é ir para minhas terras, lá no tugúrio onde nasci, e ficar vendo o capim crescer, os pássaros a voar e a cantar, o ciclo do dia e da noite, o gado a pastar, o córrego a murmurejar. Eu ali, dono de tudo, cuidando sem pressa e sem cuidados. Sorvendo, vivendo síntono com aquele ritmo pachorrento das coisas naturais da minha infância, que me fazem tão bem. Às vezes, chego lá “açulerado”, puto, aflito, querendo fazer e tomar providências, mexer nisso, inovar naquilo e, aos poucos, vou me abrandando, entrando no clima, me acalmando. Comigo é assim.

 

       Na minha casa, lá na roça, sinto que entro num estado plácido, que chamo de auto-aconchego.  Eu próprio me torno conchegativo a mim mesmo. É como se eu fosse capaz de, órfão de pai e de mãe, me colocar no meu próprio colo e me acalentar e me ninar, suave e compassivamente.

 

       Essa capacidade de me auto-envolver me traz uma paz que serena meus bravios demônios interiores. Não sei se é certo, mas, se não for, foda-se. O fato é que, em vez de tomar Lexotan, consigo mergulhar em um estado de auto tranqüilização, no qual posso desfrutar da intimidade com as minhas vivências todas, repassando-as e degustando-as como se fossem jabuticabas, uma a uma.

       É dessa maneira que pratico uma verdadeira retirada do mundo. Escapo para um mundo onde não há desavenças, decepções, más surpresas, confusões, sustos e sobressaltos. Um mundo onde estou a salvo de traições, de desenganos e de aborrecimentos.

       Portanto, me sinto uma pessoa privilegiada, porque não vivo ameaçado pela pantera da solidão do abandono. Sei bem o que é isso, porque perdi minha mãe muito cedo. Não sinto a solidão que corrói e apavora: eu sou um bom companheiro de mim mesmo. Nem preciso invocar deus: comigo estou na minha senda.

       Amigos mais ousados às vezes me criticam, dizendo que sou muito narcisista, exclusivista e, até, egoísta. Não sei não. Mas acho que tenho mais é que ser eu mesmo. Por que não? Foi assim que me formei, me constitui e virei gente. Preciso me refletir sobre o espelho de minhas próprias águas para me abastecer de mim mesmo.

       Você pode achar que sou um misantropo. Longe disso. Convivo bem com as pessoas, tenho amigos, parentes, conhecidos. Como médico, cada vez mais me compadeço do paciente. Cada vez mais tenho paciência para lidar com o ser humano doente e seus familiares impertinentes.

       Também não sou misógino. Gosto das mulheres e as curto, trato-as bem e “o pessoal” não tem reclamado... Apenas não consigo me fascinar e me fazer arrebatar o suficiente para vir a propor casamento a alguma.

       Que fazer? Casar só por casar? Casar para desfazer a pecha de solteirão empedernido? Casar só porque toda mulher foi socializada para ter no casamento seu supremo objetivo de vida? Ou então, casar porque estou ficado passado em idade? Não. Pelo menos, ainda não. Não tenho de realizar o sonho delas ou a expectativa de outros. Procuro, muito modestamente, sustentar os meus pequeninos sonhos. E isso já me custa. Me basta.

       Veja você: diferentemente de anos atrás, quando vivia angustiado, metido em guerra permanente com as pessoas e contra o mundo, época em que me considerava um capiau do mato, grosseiro e agressivo, um sujeito briguento, de estopim curto, hoje  consigo me situar bem mais pra cima. Sou um homem urbano muito decente e prestativo, que mantém fortes raízes interioranas. Sou capaz de me manter inteiro, estável, equilibrado, sem me alterar muito. Sei que, sempre que o mundo ruge e a barra pesa, posso enfrentar e gastar meu cabedal. Porque depois eu volto para o meu auto-aconchego.

Hoje tenho a confiança e a certeza de que sou capaz de entrar de novo em minha concha e nela me reabastecer de mim mesmo, numa ótima, sem prejudicar ninguém nem depender de alguém.

       Se sou um homem feliz? Sim e não. Mas, também, para quê? Não foi você quem disse que a felicidade não está ao alcance dos seres humanos?

       O que sei é que, de noite, na cama, embalo e acalento meus demônios. Apascento-os, neutralizo-os e os torno humanizados. E, de dia, após os embates desencontrados do cotidiano, sou capaz de me tranqüilizar quando me ponho no colo e me torno auto-aconchegativo.

 

       É o que me basta...”

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