quinta-feira, 21 de março de 2013

Do Sublime


Do Sublime
 
Marco Aurélio Baggio.
 
       Livro de ouro... que faz o elogio do salto ao risco. O gênio contém vigor, valor único, exigência de tensão, energia, determinação. Eis o que torna a obra sublime.
        Trata-se de um dom, de uma graça especial. O poeta é grande pela natureza e pela arte. Physis  e nómos: dom biológico, inato, acoplada à regra, à técnica, à norma.
        É necessário estimular nossos dons naturais para a grandeza. Precisamos de aguilhão para desenvolver nossos potenciais inatos e latentes. Também precisamos de freio, de contensão e de parâmetros para regular e conduzir nossa violência pulsional desembestada.
        A natureza dá leis a si mesma. Ela é autônomos.
        O método define as quantidades e as ordenações. O Káiros é a ocasião oportuna que nasce da visão clínica do artista por sobre o conjunto circunstante de oportunidades. Trata-se da diagnose, do discernimento. Inserir a quantidade na qualidade é um valor.
        15 – Sublime é o que agrada universalmente sempre a todos. Longino possui uma cultura, uma humanitas. Pensamentos elevados -> logos, ratio, nous.
Paixão violenta -> pathós.
        17 O sublime é o eco da grandeza da alma: megalophrosyne. Paradoxo da resposta em silêncio.
        Ennóia é o conceito, pensamento.
        Phrónema designa tanto pensamento quanto sentimento. Três grandes poetas: Homero, Demóstenes e atrás, Platão. Também Tucídides.
        21 O sublime ri das distinções e das categorias que artificialmente estabelecemos.
        22 Lucano descreve a guerra civil presente no mundo interno das pessoas, com todas as angustias humanas que não encontram guarida fora dela.
        Pela idéia da criação judia, deus é onipotente. Para os gregos, deus nada pode criar ex nihilo. Para eles, há coisas por natureza impossíveis. A natureza é autônomos, produz sua própria lei.
        Deve-se constranger o múltiplo disperso em união, em unidade. Articular os membros componentes distintos.
        O escritor cria para o futuro, à partir do enfrentamento desassombrado de seus concorrentes,.
26 O sublime torna-se sublime para todos os homens e para a eternidade.
        É necessário a amplificação (aúxesis) do tema. Sua imitação (mímesis) e sua aparição (phantasia): o imaginário.
        O sublime reside na elevação, na qualidade, na chegada do talento. Sem deuses, sem musas, sem fisiologia.
        É necessário uma exaltação violenta de espírito para rivalizar com os grandes antecessores.
        Pensar é ver, visualizar. Mesmo aquilo que a Phantasia não viu ainda.
        Metáfora possui clareza, concordância, adequação e leve estranheza. Phós: a luz.
        Paradoxo da luz é por em evidência, fazer aparecer, triunfando sobre a sombra que a acompanha.
33 O sublime visa o sobre-humano. Supõe o risco. Xenofonte descreve com acuidade o olho e o corpo humano. É craque em descrever a anatomia humana.
        Se prende à força, à vitalidade do escritor, questão de pnêuma, e de tonos.
        O sublime é a violência que desequilibra, a audácia de expressão que reside próxima ao transe, ao delírio, ao êxtase, e à paixão.
37 Plotino conceituava a arte como “estupor, choque suave, desejo, amor e terror acompanhado de prazer.” Freud manifestou terror ao postar-se diante da estátua de Moisés esculpida por Michelangelo.
O éthos é o caráter, a moralidade.
39 O páthos está para o sublime, assim como o éthos está para o prazeroso.
        O sublime de Longino é uma estética sem ilusão.
 
Do Sublime.
 
        43 O pequeno tratado de Cecílio sobre o sublime, meu caro Postúmio Terenciano apenas mostra o assunto. O sublime é alcançar o ponto mais alto, a eminência do discurso. É o que conduz ao êxtase, lançando ao redor do tempo a rede de sua glória.
        O sublime causa choque, o maravilhoso supera aquele que visa apenas persuadir e a agradar. É um raio que dispersa tudo e concentra a força do orador.
45 É necessário pastorear a grandeza. Precisa de aguilhão mas também de freio.
        Para Demóstenes, o maior bem é a sorte. O segundo, é deliberar bem.
São vícios: Evitar o inchaço; evitar a paixão vazia e fora de propósito ou parentirso. Frieza.
50 O que está na origem de nossos bens também está quase sempre na origem de nossos males.
51 Nenhuma coisa cujo desprezar tenha grandeza é grande, tal como riquezas, honras, distinções, tiranias. Sob o efeito do verdadeiro sublime, nossa alma se eleva e, atingindo soberbos cumes, enche-se de alegria e de exaltação, como se ela mesma tivesse gerado o que ouviu.
52 Grande é o inesquecível e o inapagável.
Sublime é o que agrada sempre e a todos.
52 Cinco fontes do sublime:
1- A aptidão e a adequação da palavra.
2- A paixão violenta criadora de entusiasmo.
3- A fabricação de figuras e de imagens.
4- A expressão da nobreza de idéias e de sentimentos.
5- A composição digna e elevada.
 
Evitar paixões baixas: lamentações, temores, sofrimentos, pensamentos ignóbeis.
O sublime é o eco da grandeza da alma.
Buscar a hipérbole da grandeza, o impulso para o grande salto rumo ao transcendente laico, não divinatório. Zoilo chama os homens de “porquinhos chorosos.”
59 Tornar o discurso sublime é atar as partes que coexistem com a matéria que as constitui, escolhendo sempre os elementos constitutivos essenciais, articulando-os uns com os outros, integrando-se por fim, num só corpo.
64 Platão na República: quando os homens são levados para baixo, ele se matam por causa de seu insaciável desejo.
65 Imitar os grandes escritores e poetas sobem os eflúvios, tornam-se capazes de profetizar grandezas.
        A fonte Homérica fez derivar para si milhares de riachos a partir de Platão.
        Homero é o primeiro, Rivalizar com ele é sadio. Buscar grandeza de expressão e elevação de pensamento. Colocar nosso discurso sob o julgamento de Homero, de Demóstenes, de Tucídides. Buscar a veemência.
68- Eurípedes busca representar na tragédia o delírio e o amor.
71 De duas coisas colocadas juntas, a mais forte atrai sempre a força da outra.
73 “Nenhum homem se alegrará de afligir meu coração.” Êupolis.
75 Interrogar e responder a si mesmo como a um outro torna mais digno de fé e mais sublime.
131 Assíndetos são ausência de ligações entre as palavras. Anáfora é repetição de uma palavra. Epanáfora. Quatro paixões estóicas fundamentais: dor, alegria, temor, desejo.
77 Ordem desordenada. A desordem contém em si, já, certa ordem.
78 Hiperbatos: ordem de pensamentos ou de sentimentos perturbados por paixões violentas. Sabe-se que as paixões são inumeráveis.
81 Assuntos que admitem a jactância, a abundância (Poros) ou a hipérbole ou a paixão. Pendurar sinos por toda parte é coisa de sofista.
85- Perífrase contribui como acessório acompanhamento para o sublime. “Fazeis do esforço o guia de uma vida feliz.” Xenofonte.
86- A escolha dos termos próprios e magníficos atrai e encanta os ouvintes. É a preocupação máxima do literato, pois proporciona grandeza, beleza, belo verniz, peso, força, vigor e um certo brilho aos discursos. Os belos nomes são a luz própria do pensamento.
        São a substancia e os substantivos do discurso.
        O que é familiar inspira já mais confiança.
        Aristóteles e Teofrasto ensinam maneiras de atenuar a ousadia das metáforas: “Por assim dizer”.
                                        “Se alguma forma”.
                                        “Se é preciso falar dessa maneira”.
“Se se deve falar com uma temeridade particularmente excessiva.”
89- Xenofonte pinta pomposamente a anatomia do corpo humano. O prazer dos humanos é a isca do mal e a língua a pedra de toque do gosto.
90- As metáforas são criadoras do sublime.
91- As naturezas superiores são as menos isentas de defeitos uma vez que cometem um pouco de negligência. A memória do erro subsiste sem se apagar, enquanto o belo desaparece rapidamente.
        Os grandes caem por causa de sua própria grandeza.
        Apolônio e Teócrito são perfeitos. Porém menores que Homero, mesmo quando Homero cochila.
94- A natureza não nos fez um ser vil e baixo. Somos contempladores de tudo que se passa e lutadores cheios de ambição; logo ela fez nascer em nosso psiquismo um amor invencível a tudo que é eternamente grande e mais sublime.
95- As intuições atravessam os limites do invólucro. O que se admira é sempre o inesperado.
95- Grandes homens estão longe de ser isentos de erros. No entanto, o sublime os eleva perto de grandeza. Compram seus erros com um único acerto perfeito do sublime.
99- Arranjar as palavras com harmonia para persuadir e agradar aos homens. A harmonia faz uníssono com o sublime.
100 A contribuição de numerosos elementos constitui a grandeza.
105- Não descer á sujeira, á cozinha, às coisas desprezíveis. A natureza escondeu o quanto pode nossas excreções. Xenofonte.
106- A liberdade é apta para nutrir os pensamentos dos grandes espíritos e para enchê-los de esperança. Também para derramar o desejo de rivalidade recípocra e de concorrência pelo primeiro lugar.
107- É próprio do homem censurar sempre o presente. Mas é a guerra (interna) que mantém nossos desejos em tormenta, o que destrói as grandes naturezas.
        Somos todos doentes por não podermos nos fartar.
        O amor ao prazer fazem-nos escravos. É a mais aviltante das doenças.
        A riqueza gera filhos como a cupidez, o orgulho, a luxúria e mais tarde, tiranos inexoráveis, como seja a violência, a ilegalidade e a impudência.
        O homem deve olhar para o alto, buscando renome na posteridade.
        Livres talvez nossas ambições queimariam o mundo inteiro com seus crimes. Por isso, tantos preferem ser comandados a ser livres.
113- Eunápio: Longino é uma biblioteca e uma universidade ambulante.
Hipócrates: a arte é longa, a vida, á curta, a ocasião é aguda.
O saliente é o que sobressai; a eminentia de Plínio.
123 – Mania e pneuma. Loucura e sopro. É o transe da Pitia, o Oráculo do templo de Delfos.
134- O Doríforo de Policleto é o Cânone: Livro e estátua. Contém: relação, proporção, uma vez que a medida áurea é o que é essencial.              

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