DOR
HUMANA
Marco Aurélio Baggio
É bem mais fácil fazer
carreira mortífera do que viver com dignidade.
Trauma no parto, circuncisão
feita sem anestesia, machucados, nada trazem de bom. Lesões e sofrimentos
repetitivos comprometem a capacidade de homeostase do organismo.
O sofrimento do trauma
acarreta, inexoravelmente, o descarrilamento da continuidade de sentido da vida
do acometido. Seu funcionamento físico e emocional fica muito prejudicado.
O
pensamento fixado constantemente no infausto evento traumático está associado a
expressivo prejuízo no funcionamento pessoal, com queda do desempenho social e
empobrecimento da capacidade de realizar atividades cotidianas.
O
trauma e a maldade infligida e sofrida, fica incrustada na dimensão
inconsciente do psiquismo da pessoa e reverbera por toda a endogeneidade do
sujeito, rebaixando sua vitalidade.
O ser humano é um animal
delicado, sensível e frágil. Detesta ser exposto ao desamparo, é sensível à
rejeição, não tolera ser traído ou enganado. Injúrias e ataques à sua integridade
física e desprezo para com a sua pessoa detonam sua autoestima.
Sofrer não serve para nada. Tudo ao
contrario do que, doloríficamente, pregam certas convicções. Sofrer
cerceia a eficiência pessoal de
existir. É constatável que o sofrimento encontra-se inserido na natureza
humana. Masoquistas adoram ver (e fazer) a própria caveira.
Mas sempre nutrimos a esperança de seu alívio e a
esperança é um prazer.
Ainda o
melhor antídoto preventivo ao sofrimento é conseguir dar um sentido à própria
vida.
Viver
dói. Viver machuca, envelhece e adoece.
Viver cansa: desgasta as
reservas endógenas de vitalidade.
Amar
sem ser correspondido dói.
Ser abandonado por pessoa
querida é doloroso.
Ser rejeitado dói por demais. Não ter seus méritos
reconhecidos é lancinante. Adoecer é lesão de lesa-majestade ao narcisismo da
pessoa.
Com o tempo, cartilagens,
tendões, músculos, o corpo todo dói. Feridas e machucados aparentemente
cicatrizados , voltam a doer. Traumas e microtraumas, as famosas descortesias
sofridas no cotidiano, voltam a cobrar seu preço em sofrimento.
Existir por longo tempo, dói. A outra opção, que
remédio!, é desexistir...
Paga-se
um preço em dor pelo desespero doido doído de se ser quem se é. Igualmente,
sofre-se a dor de não saber quem se é.
Também,
constatar ter ficado para trás, superado em tanta coisa, por essa avassaladora
avalanche de novidades e de tecnologias, colocando o indivíduo como um inepto
inútil old fashioned, ultrapassado, um animal em exclusão.
O
câncer dói. O infarto. O esmagamento nos carros nas estradas brasileiras. A
artrite reumatóide, a fibromialgia dói demais e por tempo demais.
Por fim, o sofrimento
assusta inutilmente o ser humano.
O que mais dói é meter-se na
lama de não ser o que se quis...
Já que a dor da gente ( não
) sai nos jornais...
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