quinta-feira, 21 de março de 2013

DOR HUMANA


DOR HUMANA

Marco Aurélio Baggio 

É bem mais fácil fazer carreira mortífera do que viver com dignidade.

Trauma no parto, circuncisão feita sem anestesia, machucados, nada trazem de bom. Lesões e sofrimentos repetitivos comprometem a capacidade de homeostase do organismo.

               

O sofrimento do trauma acarreta, inexoravelmente, o descarrilamento da continuidade de sentido da vida do acometido. Seu funcionamento físico e emocional fica  muito prejudicado.

        O pensamento fixado constantemente no infausto evento traumático está associado a expressivo prejuízo no funcionamento pessoal, com queda do desempenho social e empobrecimento da capacidade de realizar atividades cotidianas.

        O trauma e a maldade infligida e sofrida, fica incrustada na dimensão inconsciente do psiquismo da pessoa e reverbera por toda a endogeneidade do sujeito, rebaixando sua vitalidade.

               

O ser humano é um animal delicado, sensível e frágil. Detesta ser exposto ao desamparo, é sensível à rejeição, não tolera ser traído ou enganado. Injúrias e ataques à sua integridade física e desprezo para com a sua pessoa detonam sua autoestima.

                Sofrer não serve para nada. Tudo ao contrario do que, doloríficamente, pregam certas convicções. Sofrer cerceia  a eficiência pessoal de existir. É constatável que o sofrimento encontra-se inserido na natureza humana. Masoquistas adoram ver (e fazer) a própria caveira.

Mas sempre nutrimos a esperança de seu alívio e a esperança é um prazer.

        Ainda o melhor antídoto preventivo ao sofrimento é conseguir dar um sentido à própria vida.

       

        Viver dói. Viver machuca, envelhece e adoece.

Viver cansa: desgasta as reservas endógenas de vitalidade.

        Amar sem ser correspondido dói.

Ser abandonado por pessoa querida é doloroso.

Ser rejeitado dói por demais. Não ter seus méritos reconhecidos é lancinante. Adoecer é lesão de lesa-majestade ao narcisismo da pessoa.

Com o tempo, cartilagens, tendões, músculos, o corpo todo dói. Feridas e machucados aparentemente cicatrizados , voltam a doer. Traumas e microtraumas, as famosas descortesias sofridas no cotidiano, voltam a cobrar seu preço em sofrimento.

Existir por longo tempo, dói. A outra opção, que remédio!,  é desexistir...

        Paga-se um preço em dor pelo desespero doido doído de se ser quem se é. Igualmente, sofre-se a dor de não saber quem se é.

        Também, constatar ter ficado para trás, superado em tanta coisa, por essa avassaladora avalanche de novidades e de tecnologias, colocando o indivíduo como um inepto inútil old fashioned, ultrapassado, um animal em exclusão.

        O câncer dói. O infarto. O esmagamento nos carros nas estradas brasileiras. A artrite reumatóide, a fibromialgia dói demais e por tempo demais.

Por fim, o sofrimento assusta inutilmente o ser humano.

O que mais dói é meter-se na lama de não ser o que se quis...

Já que a dor da gente ( não ) sai nos jornais...

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