A Morte
O médico como fator
de risco.
Maternidade Odete Valadares.
Marco Aurélio Baggio
A mulher com doença bem definida : hipertensão,
diabetes, distúrbio endócrino, discrasia sanguínea, antecedentes tocoginecológicos,
cardiopatia, nefropatia, etc, engravida.
Configura-se uma gravidez que implica em maiores
riscos de vida para a mãe e para o feto. O obstetra é chamado para acompanhar e
tratar da gestante, assumindo parcela substancial do risco. Ele então se desdobra
em competência, estudando o caso, discutindo -o com outros colegas, atuando
humana e medicamente, da maneira melhor que pode...
Mas uma sensação de perturbadora inquietude lhe
invade. Pensa:
“Será que estou fazendo tudo o que é possível para
preservar a saúde dessa mulher?”
Ele próprio se responde dezenas de vezes que sim!
Mas a
inquietude não sossega .Um diabinho lhe atazana a mente.
O que será isso? De onde vem?
O médico busca os livros e não encontra nada que o
esclareça sobre o que sente.
Num frio dia, a paciente lhe confessa:
-
“Estou com medo de morrer, doutor...”
Súbito, o médico sente que ele também está com medo
de que aquela pessoa morra...o seu caso é grave, a Medicina não é uma pratica
de precisão...
A paciente verbalizou a inquietude do médico.
Ambos estão vivendo o mesmo temor.
Estão juntos portanto, médico e paciente, unidos
pelo mesmo afeto: o temor da morte.
Estão sintônicos, sentindo algo perfeitamente
natural e pertinente à situação clínica concreta.
Ambos estão vivendo um momento privilegiado, solar,
uma verdadeira epifania, que só a
pratica da clinica possibilita.
Esse encontro privilegiado de interação paciente-médico não deve ser negado ou desviado com
evasivas do tipo:
-
Que bobagem, D. Maria...Está tudo bem. Que morte que nada...Vai nascer
um robusto menino de 5 quilos!
Como está sua evacuação?
Negando a intimidade da relação afetiva e partindo
para perguntas “médicas” absolutamente banais, o médico não está ajudando a
paciente e nem está se ajudando.
Mas o médico no caso, tem lá suas cogitações sobre a
morte e está decidido a enfrenta-las.
Entre o medo do tema, que o levaria a fugir e a
curiosidade e o interesse pelo desejo humano, prevaleceram estes últimos.
Ele decide abrir espaço para que a cliente fale
sobre seu medo.
Descobre com espanto, que aquela mulher do leito
onze avaliava bastante bem a gravidade de seu caso; aprecia com gratidão os
esforços da equipe médica em seu beneficio; percebe muito bem as mudanças
desairosas que acontecerão em sua família caso venha a falecer. E surpresa das surpresas, esta mulher fala
sobre a Morte com a sensibilidade e o conhecimento que só se adquire quem a
encara de frente e se dispõe a conviver com ela, como companheira escoteira, ao
lado...
Ela diz que acredita na existência de uma outra vida
além da morte e nesses momentos não teme morrer; mas tem outras horas – a
maioria -, em que acha que só há uma vida, que é esta aqui, que ela está
vivendo. Neste caso, ela sente uma tristeza de morrer, de deixar os filhos, o
marido, os amigos e demais familiares, a própria vida. Nessas horas, que estão
ficando mais frequentes ultimamente, ela sente uma revolta de estar ameaçada e
da raiva surge um desejo de ficar boa, ter o neném e viver. Mas não será aquele viver sem graça de antes
não. Ela tem vontade de procurar aquelas amigas da infância, que nunca mais
viu; experimentar aquelas coisas, no sexo, que ela e ele vivem se propondo. Vai cuidar melhor da saúde. E
tratar de aprender a fazer umas costuras para reforçar o orçamento.
Isto, se a
morte deixar.
Ela sabe agora que não deve ter outro filho e está
decidida a autorizar o médico a adotar medidas contraceptivas definitivas.
O diálogo durou quinze minutos. Atrasou o programa
do médico. Mas ele sai com uma outra impressão, melhor, da cliente analfabeta
do leito onze. Custa a entender o caso seguinte: seu psiquismo ainda está lá,
no lado do leito onze...
Ele precisa conversar mais com aquela mulher. Com
que coragem ela fala sobre sua própria morte...
Dias depois, para sua surpresa, os exames laboratoriais
apresentam índices bem melhores. E a cliente está mais animada, mais leve, mais
viva.
Ele pensa: “- Que estranho...isto não está nos
livros...”
Nos tratados de Medicina, raramente o humano está retratado...
A dor da gente não sai no papel.
O Médico
como Fator de Risco
Na
assistência à gravidez de alto risco, o médico, ele mesmo muitas vezes, aumenta
o risco, seja por inexperiência, seja por incompetência profissional, seja mais
frequentemente, por atitudes que adota e que se revelam estimuladoras da
patologia, isto é, são procedimentos introgênicos.
Diante da
paciente grávida, com uma doença grave, o médico se sente perturbado e esta
perturbação merece ser analisada.
Ele pode
se meter a lidar denodadamente com a doença esquecendo totalmente a pessoa da
cliente.
Pode
também tender a assistir cada vez menos a paciente,
abandonando-a
à sua própria sorte.
A
possibilidade da morte encontra o médico despreparado para lidar com essa
tremenda dimensão numinosa.
A morte é a mais fundamental
fonte de angustia em todos nós.
A morte
desperta no médico uma reformulação geral de sua atitude frente a Medicina.
A morte
do cliente desperta nossos medos e o temor de nossa própria morte. Pois todos
nascemos devendo uma morte à natureza. E a alguém, nove meses de aluguel.
A Morte é
uma perda: exige em trabalho delongado de luto para ser superada.
Mas é a
morte que dá sentido à vida.
Freqüentemente
o medico depara-se com dupla atitude: sou médico de alguém que vai morrer e
médico daqueles que vão continuar vivendo.
Como
nós nos defendemos da Morte
1)
Atitude de Olímpica superioridade.
2)
“Isto não é comigo;
é problema do cliente.”
3)
Vamos vencer a morte com os “modernos e avançados recursos
da Medicina”. Atitude de onipotência.
4)
Negamos a morte magicamente: se não falamos sobre ela, ela
não existe.
5)
Condenamos o cliente a ficar em silencio sobre seus
temores.
6)
Colocamos o cliente numa situação de solidão e em abandono
de todo contato afetivo.
7)
O silencio e a mentira destroem a relação humana.
8)
A morte é feia, suja, perturbadora, e deve ser escondida e
enterrada o mais rapidamente possível.
9)
Não temos intimidade com a morte. Com isso, nos privamos do
contato com a companheira da vida.
“Dialogo
Médico”
As
pessoas desejam enfrentar a verdade, no fundo de seu ser. A aceitação da verdade
engendra uma atitude positiva com relação à possibilidade da morte, um colapso
da atitude de resistência teimosa para com ela. O conhecimento de sua situação
real pode revelar nos pacientes recursos cognitivos e espirituais laicos
insuspeitados até agora.. A maioria das pessoas possui mais coragem e
resistência interna de que acreditam ter ou que jamais foram chamadas à
desentranhar.
A pratica
da Medicina é filosofia aplicada.
Toda filosofia é uma reflexão sobre a morte.
Mínimo elenco de nossas mais
básicas ansiedades e terrores,
Mauricio
Abadi.
1) Angustia
de ficar preso dentro de espaço confinado, claustrofobico.
2) Angustia
de ficar disperso, perdido ante o espaço ilimitado, solto no vazio,” fora”.
3) Angustia
ante o cambio, a mudança assoberbante e veloz.
4) Terror
ante a próxima própria morte.
5) A morte pessoal pode ser uma reinfestação,
uma regressão intrauterina, um voltar para dentro da barriga da mamãe? Lógico
que NÃO!
6) A morte é transito, travessia de um mundo
duro, ruim, esse nosso, para outro melhor? Lógico que também NÃO!
7) A morte é loucura? NÃO, loucura é vida, muito
menos radical que a morte.
8) Morte é desintegração do corpo,
dissolução da carcaça, exicio,
trespasse, cessação da vida, da alma, do espírito, do psiquismo em um processo de apoptose irreversível?
É, exatamente! Simples assim... E tão
só. E é por muito tempo...
O que
podemos fazer pelo doente de alto risco?
1) Avaliarmos
e o tratarmos medicamente o melhor possível.
2) Informar-lhe
da gravidade do seu caso, mantendo acesa a chama da esperança de superação
da doença e a recuperação de sua saúde..
3) Demonstrando
ao paciente que estamos juntos dele, intencionados a permanecer com ele até o fim da doença ou de sua vida.
4) Acompanha-lo
até o derradeiro momento.
5) Ouvi-lo,
deixa-lo falar.Todo doente possui dentro de si uma “ pressão de falar”, de se
comunicar.
6) Estarmos
juntos, sem nada dizer, mesmo em silente solidariedade.
7) A ruptura
da barreira do silêncio em si já é terapêutico.
“ A Morte é o verme no cerne
das pretensões do homem à felicidade”.
O medo da
morte está atrás de nosso funcionamento normal, afim de o organismo estar
rumando para a autoconservação.
No geral,
vivendo utilizando o mecanismo neurótico de operação psiquico da REPRESSÃO para
afastar, restringir, amortecer o medo de nossa
morte pessoal.
CARUSO: A
vivencia da morte em minha consciência ocasiona a necessidade de reparação.
A
vivência da minha morte na consciência
do outro.
Mecanismos
do Morrer:
A morte é a mais importante afecção
sexualmente transmitida.
A vida
é a única causa de morte.
Morre-se
por citocídio ou necrose celular, por causação externa: tanose. Na maioria dos
casos, morre-se por ação da inexorável ceifadeira, que atua por dissolução
celular endógena, por apoptose.
Desde o mais brilhante humanista materialista da Historia, Titus Caro
Lucrécio, sabe-se que o psiquismo humano apaga-se junto com seu espírito, cinco
minutos após o finamento, o óbito.
Nosso espírito é mortal por natureza. A morte
não nos oferece fatos, fenômenos ou espetáculos pós-mortem, além-túmulo.
Lucrecio denega nossas pretenções à imortalidade ou à ressurreições
infindáveis.
Modos
de lidar com a insinuação da morte:
Catástrofe do Eu: Mutilação do ser por perda de
parte de si. Desespero.
1)
Agressividade – origina a desvalorização do companheiro.
2)
Indiferença. Pouco
se me dá... Que me importa me lá...
3)
Fuga para frente – Mergulha em atividade frenética, como tico-tico no fubá.. Deslocamento : se
morre melhor quando já se tem um substituto, um ersatz, um simulacro da
morte.
4)
Ideologização – racionalização. Todos tem sua vez
e sua hora para apodrecer...
5)
Vou m’embora, já estou indo, mas não se esqueça de
mim...
Dez
estágios do Morrer.
A
partir de
Elizabeth Kubler- Ross.
1) Negação
do brutal choque acarretado pelo
diagnóstico: – “Não, não eu, não
pode ser verdade!”
2) Raiva –
Ira. Indignação. ” Por que eu?”
3) Acordo ou
chantagem ou barganha. “ Se Deus
decidiu tirar-me desta terra e não atendeu aos meus apelos irados, ele pode ser
mais camarada se eu implorar novamente.. Afinal, aceito viver mais algum tempo.
4) Depressão
preparatória. “É, tenho que admitir
que estou mesmo rumando para o fim...
Desperdicei muito tempo de minha vida com minudencias e problemas frente aos quais não dispunha de nenhum
poderio para resolver... Agora é tarde...”
5) Sentimento de vazio e perda. “ Mas então a vida é só isso? Essa bagatela, essa insensatez, essa bobagem?”
6) Aceitação
do inexorável.
7) A pessoa exprimiu seu inconformismo, sua ira,
sua inveja pelos que permanecerão vivos, sua revolta por aqueles tantos que não
terão que enfrentar a morte tão cedo.
8) Torna-se
capaz de contemplar seu fim próximo com
certo grau de tranquila expectativa.
9) A dor terminou, os esforços debaldados foram
superados : vislumbra-se o descanso final ante a longa jornada...
10)
O túmulo é o nosso
grande nivelador igualitário, comunista.
O contato consciente dessassombrado com a morte
engendra a alegria e o valor da vida.
MAB.
E não se engane não, irmão; a única eternidade que
nos resta é a eternidade cósmica da matéria inerte.
Preste atenção, irmão: já é mais tarde do que parece.
Para
terminar, a advertência de Guimarães Rosa:
A morte
de cada um já está em edital.
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