sexta-feira, 15 de março de 2013

A Morte


A Morte 


 O médico como fator de risco.
Maternidade Odete Valadares.

 

Marco Aurélio Baggio

 

 

        A mulher com doença bem definida : hipertensão, diabetes, distúrbio endócrino, discrasia sanguínea, antecedentes tocoginecológicos, cardiopatia, nefropatia, etc, engravida.

Configura-se uma gravidez que implica em maiores riscos de vida para a mãe e para o feto. O obstetra é chamado para acompanhar e tratar da gestante, assumindo parcela substancial do risco. Ele então se desdobra em competência, estudando o caso, discutindo -o com outros colegas, atuando humana e medicamente, da maneira melhor que pode...

Mas uma sensação de perturbadora inquietude lhe invade. Pensa:

“Será que estou fazendo tudo o que é possível para preservar a saúde dessa mulher?”

Ele próprio se responde dezenas de vezes que sim!

 Mas a inquietude não sossega .Um diabinho lhe atazana a mente.

O que será isso? De onde vem?

O médico busca os livros e não encontra nada que o esclareça sobre o que sente.

Num frio dia, a paciente lhe confessa:

-         “Estou com medo de morrer, doutor...”

Súbito, o médico sente que ele também está com medo de que aquela pessoa morra...o seu caso é grave, a Medicina não é uma pratica de precisão...

A paciente verbalizou a inquietude do médico.

Ambos estão vivendo o mesmo temor.

Estão juntos portanto, médico e paciente, unidos pelo mesmo afeto: o temor da morte.

Estão sintônicos, sentindo algo perfeitamente natural e pertinente à situação clínica concreta.

Ambos estão vivendo um momento privilegiado, solar, uma verdadeira epifania,  que só a pratica da clinica possibilita.

Esse encontro privilegiado  de interação paciente-médico não deve ser negado ou desviado com evasivas do tipo:

-         Que bobagem, D. Maria...Está tudo bem. Que morte que nada...Vai nascer um robusto menino de 5 quilos!

Como está sua evacuação?

Negando a intimidade da relação afetiva e partindo para perguntas “médicas” absolutamente banais, o médico não está ajudando a paciente e nem está se ajudando.

Mas o médico no caso, tem lá suas cogitações sobre a morte e está decidido a enfrenta-las.

Entre o medo do tema, que o levaria a fugir e a curiosidade e o interesse pelo desejo humano, prevaleceram estes últimos.

Ele decide abrir espaço para que a cliente fale sobre seu medo.

Descobre com espanto, que aquela mulher do leito onze avaliava bastante bem a gravidade de seu caso; aprecia com gratidão os esforços da equipe médica em seu beneficio; percebe muito bem as mudanças desairosas que acontecerão em sua família caso venha a falecer.  E surpresa das surpresas, esta mulher fala sobre a Morte com a sensibilidade e o conhecimento que só se adquire quem a encara de frente e se dispõe a conviver com ela, como companheira escoteira, ao lado...

Ela diz que acredita na existência de uma outra vida além da morte e nesses momentos não teme morrer; mas tem outras horas – a maioria -, em que acha que só há uma vida, que é esta aqui, que ela está vivendo. Neste caso, ela sente uma tristeza de morrer, de deixar os filhos, o marido, os amigos e demais familiares, a própria vida. Nessas horas, que estão ficando mais frequentes ultimamente, ela sente uma revolta de estar ameaçada e da raiva surge um desejo de ficar boa, ter o neném e viver. Mas  não será aquele viver sem graça de antes não. Ela tem vontade de procurar aquelas amigas da infância, que nunca mais viu; experimentar aquelas coisas, no sexo, que ela e ele vivem se  propondo. Vai cuidar melhor da saúde. E tratar de aprender a fazer umas costuras para reforçar o orçamento.

 Isto, se a morte deixar.

Ela sabe agora que não deve ter outro filho e está decidida a autorizar o médico a adotar medidas contraceptivas definitivas.

O diálogo durou quinze minutos. Atrasou o programa do médico. Mas ele sai com uma outra impressão, melhor, da cliente analfabeta do leito onze. Custa a entender o caso seguinte: seu psiquismo ainda está lá, no lado do leito onze...

Ele precisa conversar mais com aquela mulher. Com que coragem ela fala sobre sua própria morte...

Dias depois, para sua surpresa, os exames laboratoriais apresentam índices bem melhores. E a cliente está mais animada, mais leve, mais viva.

Ele pensa: “- Que estranho...isto não está nos livros...” 

Nos tratados de Medicina, raramente o humano  está retratado...

A dor da gente não sai no papel.

 

O Médico como Fator de Risco

 

Na assistência à gravidez de alto risco, o médico, ele mesmo muitas vezes, aumenta o risco, seja por inexperiência, seja por incompetência profissional, seja mais frequentemente, por atitudes que adota e que se revelam estimuladoras da patologia, isto é, são procedimentos introgênicos.

 

Diante da paciente grávida, com uma doença grave, o médico se sente perturbado e esta perturbação merece ser analisada.

Ele pode se meter a lidar denodadamente com a doença esquecendo totalmente a pessoa da cliente.

Pode também tender a assistir cada vez menos a paciente,

abandonando-a à sua própria sorte.

A possibilidade da morte encontra o médico despreparado para lidar com essa tremenda dimensão numinosa.

A morte é a mais fundamental fonte de angustia em todos nós.

A morte desperta no médico uma reformulação geral de sua atitude frente a Medicina.

A morte do cliente desperta nossos medos e o temor de nossa própria morte. Pois todos nascemos devendo uma morte à natureza. E a alguém, nove meses de aluguel.

A Morte é uma perda: exige em trabalho delongado de luto para ser superada.

Mas é a morte que dá sentido à vida.

Freqüentemente o medico depara-se com dupla atitude: sou médico de alguém que vai morrer e médico daqueles que vão continuar vivendo.

 

Como nós nos defendemos da Morte

 

1)               Atitude de Olímpica superioridade.

2)                “Isto não é comigo; é problema do cliente.”

3)               Vamos vencer a morte com os “modernos e avançados recursos da Medicina”. Atitude de onipotência.

4)               Negamos a morte magicamente: se não falamos sobre ela, ela não existe.

5)               Condenamos o cliente a ficar em silencio sobre seus temores.

6)               Colocamos o cliente numa situação de solidão e em abandono de todo contato afetivo.

7)               O silencio e a mentira destroem a relação humana.

8)               A morte é feia, suja, perturbadora, e deve ser escondida e enterrada o mais rapidamente possível.

9)               Não temos intimidade com a morte. Com isso, nos privamos do contato com a companheira da vida.

 

“Dialogo Médico”

 

As pessoas desejam enfrentar a verdade, no fundo de seu ser. A aceitação da verdade engendra uma atitude positiva com relação à possibilidade da morte, um colapso da atitude de resistência teimosa para com ela. O conhecimento de sua situação real pode revelar nos pacientes recursos cognitivos e espirituais laicos insuspeitados até agora.. A maioria das pessoas possui mais coragem e resistência interna de que acreditam ter ou que jamais foram chamadas à desentranhar.

A pratica da Medicina é  filosofia aplicada. Toda  filosofia  é uma reflexão sobre a morte.

 

Mínimo elenco de nossas mais básicas ansiedades e terrores,

Mauricio Abadi.

 

1)   Angustia de ficar preso dentro de espaço confinado, claustrofobico.

2)   Angustia de ficar disperso, perdido ante o espaço ilimitado, solto no vazio,” fora”.

3)   Angustia ante o cambio, a mudança assoberbante e veloz.

4)   Terror ante a próxima própria morte.

5)    A morte pessoal pode ser uma reinfestação, uma regressão intrauterina, um voltar para dentro da barriga da mamãe? Lógico que NÃO!

6)    A morte é transito, travessia de um mundo duro, ruim, esse nosso, para outro melhor? Lógico que também NÃO!

7)    A morte é loucura? NÃO, loucura é vida, muito menos radical que a morte.

8)    Morte é desintegração do corpo, dissolução  da carcaça, exicio, trespasse, cessação da vida, da alma, do espírito, do psiquismo em  um processo de apoptose irreversível? É,  exatamente! Simples assim... E tão só. E é por muito tempo...

 

 

 

O que podemos fazer pelo doente de alto risco?

 

1)   Avaliarmos e o tratarmos medicamente o melhor possível.

2)   Informar-lhe da gravidade do seu caso, mantendo acesa a chama da esperança de superação da  doença e a recuperação  de sua saúde..

3)   Demonstrando ao paciente que estamos juntos dele, intencionados a permanecer  com ele até o fim da doença ou de sua vida.

4)   Acompanha-lo até o derradeiro momento.

5)   Ouvi-lo, deixa-lo falar.Todo doente possui dentro de si uma “ pressão de falar”, de se comunicar.

6)   Estarmos juntos, sem nada dizer, mesmo em silente solidariedade.

7)   A ruptura da barreira do silêncio em si já é terapêutico.

 

“ A Morte é o verme no cerne das pretensões do homem à felicidade”.

 

O medo da morte está atrás de nosso funcionamento normal, afim de o organismo estar rumando para a autoconservação.

No geral, vivendo utilizando o mecanismo neurótico de operação psiquico da REPRESSÃO para afastar, restringir, amortecer o medo de nossa  morte pessoal.

CARUSO: A vivencia da morte em minha consciência ocasiona a necessidade de reparação.

A vivência  da minha morte na consciência do outro.

 

Mecanismos do Morrer:

 

 A morte é a mais importante afecção sexualmente transmitida.

A vida é a única  causa de morte.

Morre-se por citocídio ou necrose celular, por causação externa: tanose. Na maioria dos casos, morre-se por ação da inexorável ceifadeira, que atua por dissolução celular endógena, por apoptose.

 Desde o mais brilhante humanista  materialista da Historia, Titus Caro Lucrécio, sabe-se que o psiquismo humano apaga-se junto com seu espírito, cinco minutos  após o finamento, o óbito.

 

 Nosso espírito é mortal por natureza. A morte não nos oferece fatos, fenômenos ou espetáculos pós-mortem, além-túmulo. Lucrecio denega nossas pretenções à imortalidade ou à ressurreições infindáveis.  

 

Modos de lidar com a insinuação da morte:

 

 Catástrofe do Eu: Mutilação do ser por perda de parte de si. Desespero.

1)               Agressividade – origina a desvalorização do companheiro.

2)               Indiferença.  Pouco se me dá... Que me importa me lá...

3)               Fuga para frente – Mergulha em  atividade frenética, como tico-tico no fubá.. Deslocamento : se morre melhor quando já se tem um substituto, um ersatz, um simulacro da morte.

4)               Ideologização – racionalização. Todos tem sua vez e sua hora para apodrecer...

5)               Vou m’embora, já estou indo, mas não se esqueça de mim...

 

Dez estágios do Morrer. 

A partir de

Elizabeth Kubler- Ross.

 

1)   Negação do brutal  choque acarretado pelo diagnóstico:  “Não, não eu, não pode ser verdade!”  

2)   Raiva – Ira. Indignação.   Por que eu?”

 

3)   Acordo ou chantagem ou barganha.   Se Deus decidiu tirar-me desta terra e não atendeu aos meus apelos irados, ele pode ser mais camarada se eu implorar novamente.. Afinal, aceito viver  mais algum tempo.

4)   Depressão preparatória.   “É, tenho que admitir que estou mesmo rumando para o fim...  Desperdicei muito tempo de minha vida com minudencias e problemas  frente aos quais não dispunha de nenhum poderio para resolver... Agora é tarde...”

5)    Sentimento de vazio e perda.  Mas então a vida é só isso? Essa  bagatela, essa insensatez, essa bobagem?”

6)   Aceitação do inexorável.  

7)    A pessoa exprimiu seu inconformismo, sua ira, sua inveja pelos que permanecerão vivos, sua revolta por aqueles tantos que não terão que enfrentar a morte tão cedo.

8)   Torna-se capaz de  contemplar seu fim próximo com certo grau de  tranquila expectativa.

9)    A dor terminou, os esforços debaldados foram superados : vislumbra-se o descanso final ante a longa jornada... 

10)          O túmulo é o nosso grande nivelador igualitário, comunista.

 

 

O contato consciente dessassombrado com a morte engendra a alegria e o valor da vida.  MAB.

 

E não se engane não, irmão; a única eternidade que nos resta é a eternidade cósmica da matéria inerte. 

Preste atenção, irmão:  já é mais tarde do que parece.

 

 Para terminar, a advertência de Guimarães Rosa:

 

 A morte de cada um já está em edital.

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