ANAMORFISMO
NA CULTURA OCIDENTAL
Marco
Aurélio Baggio
A
pós-modernidade nos trouxe o desencanto para com as lógicas de imanência.
Lógicas ou místicas de imanência são valiosas e tentadoras ofertas de
participação do homem nas coisas do mundo.
O imanente baseia-se em coisas e
objetos e até mesmo em idéias e conceitos que servem de base para a ação do
sujeito.
Imanente é coisa ou objeto igual a
si mesmo. É a coisa em si. Substantiva. Trata-se da qualidade da essência de
algo.
As lógicas ou
místicas de imanência contrapõem-se às lógicas e às místicas de transcendência,
que se referem a esferas abstratas e etéreas.
A proposta das
imanências é valiosa e enriquecedora. A falha que termina acometendo todas elas
provém de uma duplicidade: a proposta imanente é propalada como mais poderosa e
mais abarcante do que, de fato, é. Primeira falha. Segunda falha: tudo que é
imanente funciona bem até certo ponto. Além desse ponto, o imanente esgota sua
capacidade de abrangência, perde capacidade resolutiva, mostra seu limite e se
torna insatisfatório e ineficaz.
Assim, o existencialismo explica
aspectos notáveis da condição humana, mas dista de ser uma concepção abrangente
de toda a problemática do homem.
A globalização
propõe vantagens que só se efetivam para os países ricos e pouco populosos.
A ciência e
sua derivada – a tecnologia – avançam por campos e veios que se lhe apresentam
propícios. Nenhuma das duas tem maiores compromissos com o bem-estar e com o
futuro da humanidade.
A razão iluminista
provou-se perfurada, tal qual um cartão magnético de holerite, pelo acaso,
pelas paixões, pela vontade forte de homens descomedidos e pela demoníaca
loucura que influi em tudo. O homem não é um ser meramente racional. Antes, é
um animal mal-comportado e que disso extrai especiais prazeres. Espanta-nos a
descoberta de que em nosso código
genético apenas 1,5% de outros gens nos
distinguem dos chimpanzés.
O mistério
ainda prevalece, umbroso e soturno, sobre questões magnas, tais como: por que a
vida? O que há além da morte? Existem a divindade e os seres extraterrestres?
Nossa
existência acontece entre dicotomias, contradições, ambigüidades. Muita coisa é
absolutamente excêntrica. Tudo o que acontece envolvendo nossas ações acarreta
conseqüências imprevistas, freqüentemente gerando efeitos nocivos, que se
esparramam sobre nós.
O efeito
estufa, a erosão da camada de ozônio, a poluição de lagos, rios e mares, o
desmatamento das florestas tropicais, o desastre no mar de Aral, a degradação
da vida urbana são alguns exemplos de que ações inspiradas no progresso e em
bons propósitos iniciais acarretam efeitos devastadores.
A humanidade
tem demonstrado, até aqui, que é uma jovem raça sem juízo.
A experiência
demonstrou a insuficiência conceitual da racionalidade. A ampliação do poderio
de nossa consciência sobre as coisas e sobre o mundo não tem sido o bastante
para nos demover de crenças antiquadas. Mantemos opiniões e convicções
insustentáveis frente às evidências. Tem sido escassa a capacidade de os seres
humanos pensarem com juízo e conseqüência, indo desde a raiz das questões até
suas finalidades últimas.
Partimos de
uma cultura que erigiu mitos como formidáveis construções para explicar e
consolar-nos dos grandes traumas humanos. Daí, extrapolamos para a construção
de um mundo supra-humano, cheio de deuses e de seres decaídos.
Erigiu-se uma
cultura teocêntrica e metafísica, baseada em contos proféticos, mantida por
dogmas, sob o influxo da fé, que é um tipo muito difundido de curare, veneno
que paralisa a capacidade de o fiel vir a pensar pensamentos próprios.
A transição da
vida humana governada por astros e por deuses para a percepção de o homem ser o
agente fundamental e exclusivo de sua trajetória na Terra, dentro de um marco
regulatório laico e secular, não se completou ainda a contento.
A brutalidade
da busca desenfreada do lucro pelo lucro, tornado a principal função do
capitalismo neoliberal globalizado, acarretou a avassaladora desproteção da
humanidade, exposta que ficou às fauces arreganhadas da precariedade de
sustentação de suas vidas. Desamparo abrupto, desorientação e dispersão de
objetivos, busca frenética e insensata de um ordenador, muitas vezes encontrado
na lata de lixo das coisas usadas e já
descartadas, tudo isso concorre para a específica alienação em que as pessoas
hoje vivem.
Na era da
plena liberdade democrática de ir e vir, de escolher e de fazer o que bem lhe
convém, o indivíduo simplesmente não aceita o único caminho que lhe é propício,
o único capaz de lhe dar estofo e sustentação.
Causa espécie,
na pós-modernidade, a descoberta de que os seres humanos são renitentes: tentam
todos os caminhos pervertidos antes de se compenetrar da adequada conduta. A
liberdade é utilizada de forma patológica pela maioria das pessoas, que
envereda por sucessivas trilhas perniciosas e autolesivas, gastando tempo,
energia, recursos, vida enfim. Só bem mais tarde, alguns tomam consciência do
que lhes convém e, dificultosamente, retornam para a prática do bom senso e da
boa conduta.
Na selva de
signos urbanos e internéticos, as pessoas são geralmente incapazes de se situar
proveitosamente. Estiolam-se, ansiosas. Amofinam-se, deprimidas. Pervertem-se e
dispersam seus esforços. Fracassam e anulam-se em seus projetos, em uma vida
não de fato vivida.
A todo
momento, clama-se pela intervenção de um agente poderoso – o Estado, o Governo
–, ao qual ainda se atribui o poder e a obrigação de proteger e de facilitar a
vida das pessoas.
Qual o quê! O
Governo chega tarde, cansado, insuficiente e errático. Constata-se,
dolorosamente, que o Governo não governa. Ou, por outra, as ações de governo
quase nunca são de molde a alcançar e beneficiar a vida do cidadão comum,
exatamente aquele que elegeu o governante.
A conquista do
espaço sideral fracassou. Mostrou-se muito mais difícil do que se pretendia.
Trouxe-nos apenas a informática. Agora, aguardam-se os maravilhosos produtos da
engenharia biogenética, tão midiática e espalhafatosamente prometidos para um
futuro incerto. O clone, o combate a doenças, a vida prolongada além de um
século, as células-tronco, tudo isso são promessas...
A histeria
persiste: quer-se um BOM que existe fora da pessoa e que ela vai obter e pagar
apenas com seu charme...
Somos, antes
de tudo, animais passionais de crença e de querência. Nisso, somos renitentes:
queremos porque queremos o que não tem nem existe. Diante dessa compulsão de
nossa psiquê, a razão contesta, manobra e pouco pode.
Em pleno
século XXI, transparece claramente que o homem é um ser ávido de completude, e esta
só é adquirida mediante uma árdua elaboração de seus componentes disparatados,
coalizados por um cozimento conquistado com muita energia, elevada
persistência, uma pitada de sorte e longo tempo de maturação.
Na pressa e na
inquietude que são características de nossos tempos, ninguém se dispõe a
empreender esse périplo.
Por isso,
poucos se tornam donos e senhores de si mesmos. Poucos assumem a capitania de
suas vidas. Quase todos querem descobrir uma pechincha, fazer um bom negócio,
adquirindo em um saldão a passagem para a inserção em qualquer ônibus, navio ou
avião, que lhes prometa retirá-lo do lugar comum onde estão e carregá-lo para
um lugar paradisíaco qualquer.
Ou, por outra:
todos querem que o diabo os carregue. E ele, o diabo, não cessa de enaltecer,
do homem, a beleza. Continuamente, enfatiza “seus direitos”, insufla seu
orgulho, assopra sua vaidade, açula sua ambição de obter muito mais por muito
menos, espicaça sua curiosidade, e ainda lhe acena com a possibilidade de vir a
tornar-se mais poderoso e mais admirado por seus semelhantes. O diabo é o
senhor da história e desse mundo. Contra
seus embondos, dispomos apenas do antídoto de nossa humana sabedoria.
Diante de tais
ofertas, quem tem o discernimento para seguir sozinho ao descartá-las? São
poucos. Muito poucos, mesmo. A maioria, embarca numa toca qualquer, até bater
com as fuças em seus limites. Aí, já é tarde: estão encurralados pelos novatos
que chegaram depois.
Nos tempos
atuais, espíritos argutos descrêem das metanarrativas, que são o noutro nome
das místicas de imanência, que pululam, oferecidas e pressurosas, a sua volta.
Se formos
prudentes, não devemos acatá-las como sendo nossas circunstâncias. Temos de ser
seletivos e econômicos diante da pletora de mercadorias e de “vantagens” que
nos são oferecidas a todo momento.
Se nosso Eu
está imerso em suas circunstâncias, é preciso cautela para escolher os
componentes que o acompanharão e com ele circunviverão.
Cada um deve fazer a sua
circunstância. Para isso, terá de desenvolver um esperto mecanismo de descarte
daquilo que lhe é incômodo ou inútil.
Mito, profecia, deus, fé, César,
história, terra, militarismo, poder, verdade, liberdade, dinheiro, indústria,
ciência, progresso, técnica, urbanização, revolução, arte, razão, marxismo, psicanálise
e, agora, neoliberalismo, qualidade total, reengenharia, globalização e
consumismo são avanços e propostas válidas apenas no estreito âmbito de sua
atuação. Todos eles se referem a novidades conceituais notáveis, mas não passam
de lugares ou estações ao longo das quais transita a saga da humanidade.
Nenhuma dessas propostas é suficientemente abrangente para abrigar
calorosamente a raça humana. Ao fim e ao cabo, todas e cada uma delas não
passam de um capuz, de uma manga de vidro que se coloca em torno de um lampião:
logo provocam uma deformação, um anamorfismo que desarruma as melhores
expectativas humanas.
– Então, não há saída? A raça
humana não passa de lemingues condenados, de tempos em tempos, a disparar
avassaladoramente rumo ao suicídio e à extinção, mergulhando no mar dos
ensandecidos conflitos mortíferos?
A resposta de que se dispõe é: –
É. Assim tem sido. E não nutro ilusões de que, no futuro, ainda assim o
será!...
Sempre tem havido, entretanto,
também um MAS.
Particularmente, acredito na
evolução da raça humana. De forma tonta, errática, três pra lá, dois pra cá,
hesitante, vacilosa. Ainda assim, cresce, evolui, civiliza-se.
Creio muito também na força da
razão, como uma vela que alumia a imensidão de nossa ignorância. A razão e seu
principal instrumento – a palavra. São os meios de que dispomos para obter
o conhecimento que se encaminha
para transformar-se em saber arguto, que se torna discernimento. Este, por sua
vez, instrui nosso juízo a nos indicar, entre tantos, o melhor caminho a
seguir, no processo de edificação de nossa pessoalidade.
Há saída, sim! Essa é a saída!
Apenas não está, de antemão,
pronta. Tem de ser, laboriosamente, confeccionada sob medida pelo alfaiate em
que cada um tem de se transformar.
Tudo isso nos leva de volta ao
começo da civilização. Sabe-se que a cultura é nossa frágil defesa contra a
barbárie, que é a natureza natural.
A civilização tornou-se
distorcida, deformada, anamórfica. Evoluíram as questões todas das místicas de
imanência – as chamadas metanarrativas pseudo-redentoras. Os fundamentos que
permaneceram nanicos são os códigos de conduta moral que visam ao bom e ao bem,
e o conjunto de normas éticas de atuação e de desempenho humanos, cujo objetivo
é construir o conveniente, o útil e o bondadoso. Sim, foi aí que ficamos para
trás: no campo dos mandatos éticos de qualidade. Disso decorre a profunda
desarmonia em nossas vidas. Solucionar esse desacerto é a tarefa que temos de
realizar.
Sim, porque o Universo nos é frio
e indiferente. A Natureza é disruptiva e caótica. A biologia é a bigorna e o
martelo que nos oprimem. Ninguém está a salvo da precariedade. A finitude é
nosso destino.
O único objetivo de estarmos todos
vivos, metidos em civilização, é sermos bondosos uns com os outros. A bondade é
a melhor coisa que existe.
Vive-se para ser prestante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário