quarta-feira, 20 de março de 2013

ANAMORFISMO NA CULTURA OCIDENTAL


ANAMORFISMO NA CULTURA OCIDENTAL


 

Marco Aurélio Baggio


 

         A pós-modernidade nos trouxe o desencanto para com as lógicas de imanência. Lógicas ou místicas de imanência são valiosas e tentadoras ofertas de participação do homem nas coisas do mundo.

O imanente baseia-se em coisas e objetos e até mesmo em idéias e conceitos que servem de base para a ação do sujeito.

Imanente é coisa ou objeto igual a si mesmo. É a coisa em si. Substantiva. Trata-se da qualidade da essência de algo.

         As lógicas ou místicas de imanência contrapõem-se às lógicas e às místicas de transcendência, que se referem a esferas abstratas e etéreas.

         A proposta das imanências é valiosa e enriquecedora. A falha que termina acometendo todas elas provém de uma duplicidade: a proposta imanente é propalada como mais poderosa e mais abarcante do que, de fato, é. Primeira falha. Segunda falha: tudo que é imanente funciona bem até certo ponto. Além desse ponto, o imanente esgota sua capacidade de abrangência, perde capacidade resolutiva, mostra seu limite e se torna insatisfatório e ineficaz.

Assim, o existencialismo explica aspectos notáveis da condição humana, mas dista de ser uma concepção abrangente de toda a problemática do homem.

         A globalização propõe vantagens que só se efetivam para os países ricos e pouco populosos.

         A ciência e sua derivada – a tecnologia – avançam por campos e veios que se lhe apresentam propícios. Nenhuma das duas tem maiores compromissos com o bem-estar e com o futuro da humanidade.

         A razão iluminista provou-se perfurada, tal qual um cartão magnético de holerite, pelo acaso, pelas paixões, pela vontade forte de homens descomedidos e pela demoníaca loucura que influi em tudo. O homem não é um ser meramente racional. Antes, é um animal mal-comportado e que disso extrai especiais prazeres. Espanta-nos a descoberta de que em  nosso código genético  apenas 1,5% de outros gens nos distinguem dos chimpanzés.

         O mistério ainda prevalece, umbroso e soturno, sobre questões magnas, tais como: por que a vida? O que há além da morte? Existem a divindade e os seres extraterrestres?

         Nossa existência acontece entre dicotomias, contradições, ambigüidades. Muita coisa é absolutamente excêntrica. Tudo o que acontece envolvendo nossas ações acarreta conseqüências imprevistas, freqüentemente gerando efeitos nocivos, que se esparramam sobre nós.

         O efeito estufa, a erosão da camada de ozônio, a poluição de lagos, rios e mares, o desmatamento das florestas tropicais, o desastre no mar de Aral, a degradação da vida urbana são alguns exemplos de que ações inspiradas no progresso e em bons propósitos iniciais acarretam efeitos devastadores.

         A humanidade tem demonstrado, até aqui, que é uma jovem raça sem juízo.

         A experiência demonstrou a insuficiência conceitual da racionalidade. A ampliação do poderio de nossa consciência sobre as coisas e sobre o mundo não tem sido o bastante para nos demover de crenças antiquadas. Mantemos opiniões e convicções insustentáveis frente às evidências. Tem sido escassa a capacidade de os seres humanos pensarem com juízo e conseqüência, indo desde a raiz das questões até suas finalidades últimas.

         Partimos de uma cultura que erigiu mitos como formidáveis construções para explicar e consolar-nos dos grandes traumas humanos. Daí, extrapolamos para a construção de um mundo supra-humano, cheio de deuses e de seres decaídos.

         Erigiu-se uma cultura teocêntrica e metafísica, baseada em contos proféticos, mantida por dogmas, sob o influxo da fé, que é um tipo muito difundido de curare, veneno que paralisa a capacidade de o fiel vir a pensar pensamentos próprios.

         A transição da vida humana governada por astros e por deuses para a percepção de o homem ser o agente fundamental e exclusivo de sua trajetória na Terra, dentro de um marco regulatório laico e secular, não se completou ainda a contento.

         A brutalidade da busca desenfreada do lucro pelo lucro, tornado a principal função do capitalismo neoliberal globalizado, acarretou a avassaladora desproteção da humanidade, exposta que ficou às fauces arreganhadas da precariedade de sustentação de suas vidas. Desamparo abrupto, desorientação e dispersão de objetivos, busca frenética e insensata de um ordenador, muitas vezes encontrado na lata de lixo das  coisas usadas e já descartadas, tudo isso concorre para a específica alienação em que as pessoas hoje vivem.

         Na era da plena liberdade democrática de ir e vir, de escolher e de fazer o que bem lhe convém, o indivíduo simplesmente não aceita o único caminho que lhe é propício, o único capaz de lhe dar estofo e sustentação.

         Causa espécie, na pós-modernidade, a descoberta de que os seres humanos são renitentes: tentam todos os caminhos pervertidos antes de se compenetrar da adequada conduta. A liberdade é utilizada de forma patológica pela maioria das pessoas, que envereda por sucessivas trilhas perniciosas e autolesivas, gastando tempo, energia, recursos, vida enfim. Só bem mais tarde, alguns tomam consciência do que lhes convém e, dificultosamente, retornam para a prática do bom senso e da boa conduta.

         Na selva de signos urbanos e internéticos, as pessoas são geralmente incapazes de se situar proveitosamente. Estiolam-se, ansiosas. Amofinam-se, deprimidas. Pervertem-se e dispersam seus esforços. Fracassam e anulam-se em seus projetos, em uma vida não de fato vivida.

         A todo momento, clama-se pela intervenção de um agente poderoso – o Estado, o Governo –, ao qual ainda se atribui o poder e a obrigação de proteger e de facilitar a vida  das pessoas.

         Qual o quê! O Governo chega tarde, cansado, insuficiente e errático. Constata-se, dolorosamente, que o Governo não governa. Ou, por outra, as ações de governo quase nunca são de molde a alcançar e beneficiar a vida do cidadão comum, exatamente aquele que elegeu o governante.

         A conquista do espaço sideral fracassou. Mostrou-se muito mais difícil do que se pretendia. Trouxe-nos apenas a informática. Agora, aguardam-se os maravilhosos produtos da engenharia biogenética, tão midiática e espalhafatosamente prometidos para um futuro incerto. O clone, o combate a doenças, a vida prolongada além de um século, as células-tronco, tudo isso são promessas...

         A histeria persiste: quer-se um BOM que existe fora da pessoa e que ela vai obter e pagar apenas com seu charme...

         Somos, antes de tudo, animais passionais de crença e de querência. Nisso, somos renitentes: queremos porque queremos o que não tem nem existe. Diante dessa compulsão de nossa psiquê, a razão contesta, manobra e pouco pode.

         Em pleno século XXI, transparece claramente que o homem é um ser ávido de completude, e esta só é adquirida mediante uma árdua elaboração de seus componentes disparatados, coalizados por um cozimento conquistado com muita energia, elevada persistência, uma pitada de sorte e longo tempo de maturação.

         Na pressa e na inquietude que são características de nossos tempos, ninguém se dispõe a empreender esse périplo.

         Por isso, poucos se tornam donos e senhores de si mesmos. Poucos assumem a capitania de suas vidas. Quase todos querem descobrir uma pechincha, fazer um bom negócio, adquirindo em um saldão a passagem para a inserção em qualquer ônibus, navio ou avião, que lhes prometa retirá-lo do lugar comum onde estão e carregá-lo para um lugar paradisíaco qualquer.

         Ou, por outra: todos querem que o diabo os carregue. E ele, o diabo, não cessa de enaltecer, do homem, a beleza. Continuamente, enfatiza “seus direitos”, insufla seu orgulho, assopra sua vaidade, açula sua ambição de obter muito mais por muito menos, espicaça sua curiosidade, e ainda lhe acena com a possibilidade de vir a tornar-se mais poderoso e mais admirado por seus semelhantes. O diabo é o senhor da história e desse mundo.          Contra seus embondos, dispomos apenas do antídoto de nossa humana sabedoria.

         Diante de tais ofertas, quem tem o discernimento para seguir sozinho ao descartá-las? São poucos. Muito poucos, mesmo. A maioria, embarca numa toca qualquer, até bater com as fuças em seus limites. Aí, já é tarde: estão encurralados pelos novatos que chegaram depois.

         Nos tempos atuais, espíritos argutos descrêem das metanarrativas, que são o noutro nome das místicas de imanência, que pululam, oferecidas e pressurosas, a sua volta.

         Se formos prudentes, não devemos acatá-las como sendo nossas circunstâncias. Temos de ser seletivos e econômicos diante da pletora de mercadorias e de “vantagens” que nos são oferecidas a todo momento.

         Se nosso Eu está imerso em suas circunstâncias, é preciso cautela para escolher os componentes que o acompanharão e com ele circunviverão.

Cada um deve fazer a sua circunstância. Para isso, terá de desenvolver um esperto mecanismo de descarte daquilo que lhe é incômodo ou inútil.

Mito, profecia, deus, fé, César, história, terra, militarismo, poder, verdade, liberdade, dinheiro, indústria, ciência, progresso, técnica, urbanização, revolução, arte, razão, marxismo, psicanálise e, agora, neoliberalismo, qualidade total, reengenharia, globalização e consumismo são avanços e propostas válidas apenas no estreito âmbito de sua atuação. Todos eles se referem a novidades conceituais notáveis, mas não passam de lugares ou estações ao longo das quais transita a saga da humanidade. Nenhuma dessas propostas é suficientemente abrangente para abrigar calorosamente a raça humana. Ao fim e ao cabo, todas e cada uma delas não passam de um capuz, de uma manga de vidro que se coloca em torno de um lampião: logo provocam uma deformação, um anamorfismo que desarruma as melhores expectativas humanas.

– Então, não há saída? A raça humana não passa de lemingues condenados, de tempos em tempos, a disparar avassaladoramente rumo ao suicídio e à extinção, mergulhando no mar dos ensandecidos conflitos mortíferos?

A resposta de que se dispõe é: – É. Assim tem sido. E não nutro ilusões de que, no futuro, ainda assim o será!...

Sempre tem havido, entretanto, também um MAS.

Particularmente, acredito na evolução da raça humana. De forma tonta, errática, três pra lá, dois pra cá, hesitante, vacilosa. Ainda assim, cresce, evolui, civiliza-se.

Creio muito também na força da razão, como uma vela que alumia a imensidão de nossa ignorância. A razão e seu principal instrumento – a palavra. São os meios de que dispomos para obter o      conhecimento que se encaminha para transformar-se em saber arguto, que se torna discernimento. Este, por sua vez, instrui nosso juízo a nos indicar, entre tantos, o melhor caminho a seguir, no processo de edificação de nossa pessoalidade.

Há saída, sim! Essa é a saída!

Apenas não está, de antemão, pronta. Tem de ser, laboriosamente, confeccionada sob medida pelo alfaiate em que cada um tem de se transformar.

Tudo isso nos leva de volta ao começo da civilização. Sabe-se que a cultura é nossa frágil defesa contra a barbárie, que é a natureza natural.

A civilização tornou-se distorcida, deformada, anamórfica. Evoluíram as questões todas das místicas de imanência – as chamadas metanarrativas pseudo-redentoras. Os fundamentos que permaneceram nanicos são os códigos de conduta moral que visam ao bom e ao bem, e o conjunto de normas éticas de atuação e de desempenho humanos, cujo objetivo é construir o conveniente, o útil e o bondadoso. Sim, foi aí que ficamos para trás: no campo dos mandatos éticos de qualidade. Disso decorre a profunda desarmonia em nossas vidas. Solucionar esse desacerto é a tarefa que temos de realizar.

Sim, porque o Universo nos é frio e indiferente. A Natureza é disruptiva e caótica. A biologia é a bigorna e o martelo que nos oprimem. Ninguém está a salvo da precariedade. A finitude é nosso destino.

O único objetivo de estarmos todos vivos, metidos em civilização, é sermos bondosos uns com os outros. A bondade é a melhor coisa que existe.

Vive-se para ser prestante.

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