sexta-feira, 15 de março de 2013

A dimensão paranoide no psiquismo do Capitão Simone Simonini


A dimensão paranoide no psiquismo do
Capitão Simone Simonini

 
Marco Aurélio Baggio

 

Uma criança criada por um avô monarquista católico, amigo dos jesuítas, saudoso do antigo regime, é colocado na expectativa de conviver melhor com um pai heróico revolucionário republicano que quer ver a Itália tornar-se uma nação integrada. É induzido a ter medo dos judeus que esfolam os pobres europeus cristãos. A vida lhe parece confusa e lhe mete medo.

Somos ignorantes do que de fato desejamos. Cada pessoa foge de si mesma. Como não há como escapar de si, acabam tendo que engolir quem odeiam. Isso me adoece. Essa feridas  da vida se alimentam do medo da morte.

Simonini arruinado após a morte do avô, descobre em si habilidades e pendores caligráficos, tornando-se capaz de produzir à perfeição falsos autênticos documentos notariais irreprocháveis. Seus serviços são solicitados por herdeiros de má-fé e não escapam a argúcia dos homens dos “Serviços”.

Como hábil falsário, torna-se espião e mensageiro, metido nas peripécias dos carbonários italianos de Garibaldi na conquista da Sicília.

Como o Demiurgo, diligencia para fazer tudo certo e tudo dá errado mas acaba dando resultados incorretos valiosos.

Aprende a cumprir ordens, a cobrar caro por seus trabalhos e, sobretudo, aprende que só pode e só deve contar consigo mesmo. Narcisista, solipcista, desenvolve aversão a tudo e a todos, movido por fontes endógenas candentes de ódio que o instruem ao longo das vicissitudes de sua existência.

Simonini se tornou cada vez mais incapaz  de alimentar sentimentos diferentes de um sombrio amor a si mesmo. p.97

 Ama a boa comida. E o dinheiro que aprende a acumular para alcançar uma renda afluente.

O ódio é o único principal motor da vida.

Deve-se odiar tudo a que se está obrigado a conviver neste mundo cuja realidade é detestável. O ódio induz a pessoa suspeitar da maldade implícita nas atitudes das pessoas e da ruindade que permeia os aparentemente inocentes e brilhantes fatos da vida. A suspicácia mantém o sujeito em alerta permanente, pronto para se defender dos insultos do cotidiano. Ele logo percebe que precisa assumir uma cota de poder, o mais elevado possível, para se manter desfilando entre os outros, elefantes grandes que podem, num átimo, esmaga-lo se sambar errado.

Vivendo com ódio, Simonini percebe o quanto leva uma vida mesquinha, desgraciosa, desimportante. Tem que mostrar serviço para obter algum valor. Sabe que vive no extrato baixo da pirâmide social e isso é irremediável.

Seu relativo fracasso e sua frustração pela desimportância de sua pessoa funcionam em seu psiquismo como um caldeirão de magma candente que busca explicitação. Explode em projeção, lançando lava jorrante sobre alguém. Os homens sempre se lançaram trucidando animais caçados para aliviar suas fomes e suas incompletudes. Quem? O bode da hora, que transita, inocente e trêfego, diante do olhar alça de mira do invejoso. O bode possui atributos de vida em fluência, que falta ao odiento invejoso. É ele, o alvo, o mal, o malvado a ser vitimado e sacrificado.

O meu mal se deve a abundancia exuberante do bem ostentado pelo bode. Ele deve expiar sua culpa por ser dotado de tanta vida que a mim falta. Preciso conte-lo, ataca-lo, mata-lo e, em solução final, extermina-lo e à sua raça. Só assim sossego. Só assim vou me sentir ressarcido desse incomodo corroente que estraga minhas entranhas.

Ainda que depois, bem sucedido em minha empreitada devastadora, logo depois, vou sentir a falta dele. É quando constato que o ódio enche minha vida. Sem objeto a quem inocular o veneno do meu ódio, me sinto desbarrigado, esvaziado, fraco, desmotivado.

O objeto que eu identifico como meu mal me preenche, me dá identidade e me sinto preenchido com a divina missão que me dá a asserção de que necessito para eu ser mais eu: um notório protagonista que faz entretecer a trama dos acontecimentos históricos. Não sou só um babaca baba ovo qualquer. Também participo e faço suceder a cadeia dos eventos.

Tenho poder, poder crescente para intrugir e submeter aquele que escolho como meu contendor adversário. Poderoso, tornou-se absoluto, tirânico. Fraudar e humilhar seres humanos, oh que delicia! É o mais elevado gáudio que se obtém como negação da minha fragilidade e da minha finitude  biológica. O exercício do poder atrabiliário é a mais formidável forma de negar a morte. Não gosto quando a inexorável ceifadeira fica pelas frestas, me espreitando.

O que um paranóico como Simonini quer, é o que todos queremos: embarcar num ônibus, num jumbo cheio de gente que nos arranca do cotidiano comum já sem novidade, e nos transporta para um além distante, cheio de novidades e de excitações, que mobiliza nossa vida de trêfegos transeuntes. Um grêmio? Um partido político? Uma associação cultural? Uma entidade qualquer eivada de tradicional prestígio? Um bando de sequazes, em ultima instancia, também serve.

O que se quer é notoriedade, novidade vivencial, excitação das fimbrias endógenas do ser. Só assim, um como Simonini se sente vibrante, vivo. Estar sob contrato numa empreitada, sobretudo para afligir e prejudicar os outros, é que é o supremo deleite da vida.

A certa altura, por volta já do fim da adolescência, é preciso abdicar de querer ser associado de um Deus bondoso. Esse jamais comparece. E pior, só dá carona em instituições sucedâneas, criadas à imagem e semelhança com as virtudes e as calhordices tão próprias da natureza dos homens.

Se não pode ascender ao sublime como assecla de deus, há que se contentar em meter-se como parafuso perfurando a madeira, e ir metendo-se em uma espiral descendente de fazeção do mal. Se não lhe foi possível ir de baixo para cima, o que lhe é possível é quedar para baixo. O ódio tem que ser expelido. Quem, qual é o inimigo identificado identificável?

Ah, para os cristãos creditados nas armações irrisórias e factuais das escrituras, o mal são os hebreus. Os romanos, tão ou mais culpados pelos avatares de Gólgota, os puniram e os dispersaram em diaspora. Fizeram um serviço completo, bem feito.

Então quem? Ah, os templários. Grande fabula ocidental moderna, os templários são secretos, subterrâneos e poderosíssimos: eles detém as chaves do conhecimento para a manipulação do poder e o domínio do mundo. Eles são o mal e a maldade a ser combatida e extirpada. Mas eles estão há 600 anos de distancia... Um inimigo deve estar presente, ser visível e atuante.

Os jesuítas, combativa exitosa companhia guerreira da Igreja, ardilosos, capciosos, dizem uma coisa, fazem outra, os jesuítas são uma ordem capaz de um bom combate.

Mas os maçons, os pedreiros livres, guilda dos construtores de catedrais, os franco-maçons, com seu segredo quanto ao exercício do poder sobre as massas e sobre o mundo, dotados de dezenas de rituais criteriosamente silenciados: não seriam eles os detentores de poderes maléficos, malignos que devem ser combatidos pelas almas puras, que somos nós, os bons paranoicos?

Mas é o rei por direito divino, quase sempre tão estúpido quanto predador o inimigo identificado.

E o Papa e a Igreja, preguiçosos, omissos, vendendo simonias e indulgências e pregando uma cascata de escrituras em uma falsa ciência que é a teologia? Inimigos explícitos, bem instalados e com exércitos de palafreneiros convictos a seu serviço, se locupletando de cargos e de encargos.

E essa mixórdia de concepções de imanência que pululam como que em geração espontânea, os socialistas, os foueristas, os utópicos, os communards, os marxistas e centenas de ideologias bem intencionadas que, ao fim, propõem, como eu, exterminar todo o resto diferente.

Não sou psicótico esquizofrênico que se enquadra no tratado de Alonso Fernandez.

Não. Não sou.

Sou apenas um pobre meninozinho do destino, desamparado em própria e por que não? deliciosa e constitutiva solidão. Sou um possível ser humano que se viabilizou com um modo de ser suspicaz, fechado, enclausurado em um acendrado castelo de amor a si mesmo.

Não nasci assim. Fui reagindo desconfiado e precavido aos assaltos e aos insultos da vida. Fui me desenvolvendo:  eu o bom – o resto, o mundo, a vida são maus. As circunstancias de vida me provaram que, quase sempre, estou certo em minhas avaliações. Exagero as vezes? Talvez, certamente. Sou possuído por percepções delirantes nas quais absorvo apenas um aspecto do fenômeno e dos acontecimentos?

Não me penitencio. Afinal, conto apenas com meu sistema pessoal precário e incompleto de posicionamento. Tenho que me nortear por mim mesmo.

É mais seguro.

Por que tudo tem que ser correto?

Porque se tem sempre que dizer a verdade?

Convivo com tantos na beleza do influxo social. Mas me acautelo. Me cuido. O outro é tão ardiloso e tão falso como eu. Ontem fiz 69 anos e, para os outros, aparentemente estou muito bem.

Mantive-me vivo. Sobrevivi. Estou integro e muito longe do alemão. Ainda quero participar do jogo social e contribuir com a xispa de meu talento em fazer se possível, coisa boa. O mau vigora só por ausência do BEM. Como todo paranoico, sou um sujeito eivado de bons propósitos.

Porque é que todos não me obedecem?

Recuso-me a ir embora antes de deixar a minha marca, a minha contribuição. Minhas interpretações delirantes dos acontecimentos?

Como vou saber que é delírio se não confio em me referenciar aos outros inconfiaveis?

Se vivo numa fortaleza de vidro transparente, isolado porém atento, de olhos e mãos bem abertos, ostento as marcas de microlesões narcisicas que deformaram o meu caráter e, por conseguinte, meu modo de ser.

Se me tomei autorreferente foi por pura necessidade. Mas não me isolei: parti para o mundo com o objetivo de ser um protagonista imbuído da necessidade de purga-lo das pestes dos homens que o infestam. Sou um empenhado combatente, concernido no tracejo da boa luta. Naturalmente, sou cruel. Faço o que é preciso para vencer. Sou daqueles causadores sempre do desempate.

Vendi a elevado preço meu delírio fantástico, mirando certeiro nos diferentes tipos de compradores possíveis. Para meu beneficio, a maioria absoluta da humanidade não é constituída de psiquiatras competentes para diagnosticar minhas arquiteturas delirantes. Assim, tranquilo mas competente, posso transitar entre as seitas e os partidos, vendendo meu delírio sistematizado de estrutura lógica e acreditável que, falso, é só porque parte de um germe de premissa adulterada, falsa. Quase ninguém percebe o embondo e todos toleram. Ninguém gosta de ser incomodado. Não é fantástico?

 Sou um ser humano delicado e sensível. Detesto ser perturbado. E menos ainda desmerecido, desqualificado, a insinuação, mesmo mínima, de rejeição, sempre foi para mim o pior veneno para a integridade de minha autoconfiança. Certa vez, um psiquiatra me apostrofou com o rótulo de que sou portador de um delírio sensitivo crônico de autorreferência. Ao tentar me explicar, mande-o às favas. Sou um homem do mundo. Sou um ser civilizado. Se tive um lento desenvolvimento de me refugiar no ódio a um mundo execrável e me constitui em suspeita em relação aos meus dessemelhantes, certamente com o passar da idade, já na involução, sou tornei-me um exemplo típico de processo paranoide em andamento tout court.

 

Nada de mais.

Tudo a ver.

Simples assim.

 

Meu humor sempre foi azedo. Sempre vivi esmagado por uma angustia apremiante que me fez vivenciar, desde novo, a insegurança e a incerteza da insatisfação como tônica de minha vida. Precisei me precaver sempre, desconfiando de todos e de tudo.

O sinédrio centenário dos rabinos europeus no Cemitério de Praga a mim ocorreu como uma revelação vinda do alto, como uma bola chutada , que eu como goleiro, a  recolhi. Olhei o mundo e me espantei. Fiz então meu lançamento. Vendi meu delírio roubado de Dumas, de Sue e de Joly e tive comprador certo em Rachkovsky, da Okhrana. Os russos precisam oferecer um inimigo a seus mujiques e também precisam dar-lhes esperanças de melhor futuro.

Os judeus mercadores do dinheiro e da usura, quem melhor se oferece nas estepes como o inimigo identificado, a ser contido com pogrons? Vendi meus alfarrábios falsos delirantes incríveis em 1898. Em 1905, apareceu em São Petesburgo o fabuloso “ Os Protocolos dos sábios de Sião”.

Trinta e cinco anos depois, a paranoia contra os judeus europeus pobres (os judeus ricos se escafederam à tempo) gerou a mixórdia dos 60 milhões de corpos defuntos de povos e raças durante a Segunda Guerra Mundial.

O que os hebreus fizeram com sete ou nove povos palestinos a mando de Javé, segundo a Torah, foi feito a eles como judeus que repetem a sina, no holocausto que impõem , hoje, aos não santos palestinos.
O genocídio é a forma lapidar derivada da dimensão paranoide do psiquismo humano.         

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