quarta-feira, 20 de março de 2013

ALFA E ÔMEGA


ALFA E ÔMEGA

 

Marco Aurélio Baggio


 

 

Uma criança, para mim, é o inverso de um câncer.


 

 

          Por que se me impôs comparação tão estúrdia?

 

 Como sempre, uma idéia ligeira me passou, e apanhei-a solta, no ar. E a achei boa.

 

         Tenho acompanhado a lenta involução da saúde de um valoroso amigo que passou a sofrer de câncer. Visitá-lo é constatar uma nova perda a cada vez Perceber uma pequena desinstrumentação de habilidade a cada dia.

 

         Desportista, brioso, gozador, combativo, meu amigo, a cada novo dia, apanha a peteca cada vez mais embaixo.

 

         E ele, e eu, e todos nós fazemos o jogo do contente e nos mentimos sobre a boa cor da pele, seu bom apetite para o mingau, seu interesse pelo Jornal Nacional. Como é bela a capacidade humana para se auto-enganar! Ele vai-se desmilingüindo e se apagando, e ninguém vê, ninguém quer ver.

 

         Uma criança, não. Ela é o inverso do câncer. A cada dia, a cada hora, apresenta uma novidade, aprende uma nova palavra, ganha corpo, faz uma nova careta, uma nova gracinha.

 

A todo momento se magnifica com a expansão bela e crescente de novas habilidades que incorpora a seu repertório.

 

Uma criança é a exuberância do milagre da vida, dia a dia dotando-a de maior alcance e de influência à sua pessoinha.

 

Conviver com uma é desfrutar de leveza, alegria e embasbacação.

 

Conviver com o outro é concentrar tristeza, destilar compaixões e exercer a misericórdia humana.

 

Uma é o trinado desbragado de um pintagol. O outro é a contração das pétalas de uma flor vencida pelo decurso de prazo.

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