ALFA E ÔMEGA
Marco Aurélio Baggio
Uma criança, para mim, é o inverso de um câncer.
Por que se me impôs comparação tão estúrdia?
Como sempre, uma idéia ligeira me passou, e apanhei-a solta, no
ar. E a achei boa.
Tenho acompanhado a lenta involução da
saúde de um valoroso amigo que passou a sofrer de câncer. Visitá-lo é constatar
uma nova perda a cada vez Perceber uma pequena desinstrumentação de habilidade
a cada dia.
Desportista,
brioso, gozador, combativo, meu amigo, a cada novo dia, apanha a peteca cada
vez mais embaixo.
E ele,
e eu, e todos nós fazemos o jogo do contente e nos mentimos sobre a boa cor da
pele, seu bom apetite para o mingau, seu interesse pelo Jornal Nacional. Como é bela a capacidade humana para se
auto-enganar! Ele vai-se desmilingüindo e se apagando, e ninguém vê, ninguém
quer ver.
Uma
criança, não. Ela é o inverso do câncer. A cada dia, a cada hora, apresenta uma
novidade, aprende uma nova palavra, ganha corpo, faz uma nova careta, uma nova
gracinha.
A todo momento se magnifica com a expansão bela e crescente de novas
habilidades que incorpora a seu repertório.
Uma criança é a exuberância
do milagre da vida, dia a dia dotando-a de maior alcance e de influência à sua
pessoinha.
Conviver com uma é desfrutar
de leveza, alegria e embasbacação.
Conviver com o outro é
concentrar tristeza, destilar compaixões e exercer a misericórdia humana.
Uma é o trinado desbragado
de um pintagol. O outro é a contração das pétalas de uma flor vencida pelo
decurso de prazo.
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