Um
psiquiatra avalia os oito pilares da cultura ocidental
MARCO AURELIO BAGGIO
O autor reflete sobre a importância das oito colunas de sustentação do
conjunto da civilização ocidental. O mito, o místico e a filosofia constituem o
tripé proveniente da Antiguidade. A ciência, a economia capitalista e a
política ampliam o escopo da cultura. A ética e a estética impõem-se como o
fecho da abóbada, a pedra de toque e o coroamento que, a um só tempo, articulam
os demais componentes, normatizam-nos e lhes dão encaminhamento e sentido
prospectivo.
A cultura
O homem é um animal inacabado.
Incomodado com suas necessidades expostas em quase constante falta, o ser
humano procura meios e modos de suprir suas carências. Como animal gregário,
convivente e sagaz, o homem produz uma segunda natureza. Natureza cultural.
Aquilo que vem a se tornar natural, próprio, em cada cultura humana.
Cultura é o complexo imbricado de crenças, conhecimentos, costumes,
modos de produção, artes, linguagem, leis, moral, padrões de relações de
convívio, instituições, aptidões e riquezas, serviços e folclore, sentimentos e
festas, que constituem o modo de vida –
seja de um povo ou seja de uma
sociedade.
Só o homem interessa. A única ação nobre
que há na vida de todos nós é educar, é conduzir por boas sendas outros seres
humanos mais jovens.
Cultura ocidental é o lugar do
progresso: melhores alimentos; melhores objetos de conforto; melhor aplicação
da justiça; maiores prazeres; maiores oportunidades.
A maior característica constitutiva da cultura
no Ocidente é a prevalência da liberdade do sujeito. Liberdade concebida como
autonomia, ou seja, como a capacidade do indivíduo de poder estabelecer normas
para si mesmo. Do usufruto da liberdade
pessoal decorre o valor da responsabilidade do indivíduo perante seus atos e
por suas opções.
Os pilares da cultura ocidental
O primeiro pilar que se ergue para sustentar a cultura ocidental é o mito.
A mitologia é uma coleção de criações imaginárias e de explicações fantasiosas
acerca dos formidáveis fenômenos repetitivos que acontecem na natureza e na
vida humana.
O segundo pilar da cultura é constituído
pelo místico. Diante da constatação da precariedade da vida e da
fragilidade da condição humana, as comunidades primitivas sofrem as agruras de
seu desamparo em um mundo que lhes é sempre indiferente, passaram a conceber
poderosos seres supra-humanos, gigantes, titãs, deuses.
O terceiro pilar da cultura é a
filosofia.
Homens ociosos deram de colocar sua razão a emitir juízos, utilizando a
lógica. Foi na Grécia, que notáveis cogitadores sobre a existência e a condição
do homem, amantes do conhecimento, tornaram-se amigos da sabedoria: filósofos.
A ciência constitui o quarto pilar da civilização
ocidental. Ela é a mais visível e a mais confiável coluna de sustentação do
estamento ocidental.
Ciência e sua acólita, a tecnologia, mudaram radicalmente, para
melhor, nosso modo cotidiano de vida. Ela constitui um sistema de conhecimento desenvolvido com o objetivo de organizar
a realidade à nossa volta. A principal razão para a credibilidade e o sucesso
obtidos pela ciência se deve ao fato de que esta tem um mecanismo de correção
de erros embutido em seu próprio âmago.
O quinto pilar da cultura ocidental é a economia. É ela a deusa
ascendente responsável pela abundância de recursos colocados à disposição da
sociedade. A atividade econômica é a fonte de criação da riqueza em toda
sociedade. Surgiu assim o sistema
do capital – o capitalismo – como o mais formidável sistema de criação e de
expansão da riqueza que já houve na história da humanidade.
O sexto pilar que sustenta a cultura
ocidental é a política. Ela é a arte, a ciência e a prática de governar
uma comunidade ou uma nação. É também a argamassa, o cimento que permite juntar
os múltiplos componentes – frequentemente díspares e conflitantes –, que
possibilitam organizar a sociedade.
O sétimo pilar da civilização ocidental é constituído pela ética.
Esta é fruto do intelecto humano quando este se imiscui no âmago das coisas
para inteligi-las, tornando-as scire, discernidas. Conhecidas.
Conhecimento acarreta psiquização, cujo
produto imediato é a expansão da consciência. Esta, por sua vez, instrui a mais
elevada prerrogativa humana, que é o espírito, o qual contribui para
estabelecer uma visão acurada e abrangente das todas circunstâncias da vida
humana.
O oitavo pilar é a estética.
Trata-se da nobre e sublime capacidade humana de apurar o belo. O belo é aquilo
que agrada e deleita o espírito, esse coalizador máximo dos bons atributos
humanos.
Um pugilo de Homens Bons precisa
ajuizar as dispersivas e muitas vezes deletérias atividades egoístas de povos,
de nações e de corporações.
Este nosso pequeno planeta precisa, urgentemente, de erigir um grande
referente humano, um Governo Global capaz de administrá-lo ecológica e
eticamente. Dessa maneira, poderemos aspirar
viver sob os eflúvios da estética.
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