A VIOLÊNCIA E SUAS RAÍZES PSICANALÍTICAS
Marco Aurélio Baggio
Sonhei que estava diante de uma mansão
sombria. De lá, morcegos voavam. Seres estranhos, que eu logo identifiquei com
demônios, me acenavam sedutoramente. – Venha cá, Marco Aurélio, que vamos
mostrar-lhe a casa por dentro. Você vai conhecer muita coisa interessante. E
nós vamos ensinar-lhe uma porção de coisas.
Fiquei com medo. Cabreiro,
disse que não, que não! Ia-me afastando. Continuavam convidando-me, com
insistência e suavidade. Permaneci a certa distância prudente, mas a
curiosidade prevaleceu. Parei e voltei. Percebi melhor aqueles seres
deformados, tais como gárgulas de catedrais góticas européias. Estavam
escoltados por cães portentosos. Alguma coisa de estranho e de maligno evolvia
daqueles diabos. Suas atitudes captativas e suas vozes moduladas hipnoticamente
me perturbavam. Fiquei dividido e conturbado. Sabia que não iria, não estava
preparado, não tinha coragem ainda.
-
Não quero
ir não!
- Venha – insistiam. - Olhe só quanta coisa boa existe aqui. Tudo parece
confuso, perigoso, mas é só aparência ruim. Se você vier, poderá pôr a ordem
que quiser nas coisas todas. Nós somos demônios poderosos, mas estamos
condenados ao arreveso, à balbúrdia, à pura pulsão, como gostam de dizer seus psicanalistas. Você é ser humano,
muito fraquinho e pouco criador. Mas tem aquilo que nós não temos: a razão, a
capacidade de pôr as coisas em uma seqüência lógica, ordenada, construtiva.
Precisamos desse atributo seu. Nós só sabemos perturbar, estorvar, desmontar.
Venha, venha...
-
Não vou...
Não quero ir... Arranjem outra pessoa pra quebrar seu galho.
-
Que
pena!... Se você vier, poderá ficar imenso, grande, poderoso. Só você pode nos
ajudar a dar conta desta casa. Você é inteligente, sabe o lugar de cada objeto,
para que é que serve, como funciona, sabe fazer as coisas produzirem. Venha!
Nós não somos capazes disso... Nós só sabemos semear confusão e mexer continuamente aquilo que está
condensado.
-
Não... Não
adianta me tentarem, seus capetas! Não quero saber o que há dentro dessa casa
não. Tenho medo.. Tchau!
-
Marco
Aurélio, Marco Aurélio, não nos abandone! Precisamos de sua capacidade de
reflexão para pôr ordem naquilo que fazemos. Sem você, estamos condenados a
mutuamente nos atazanar e a nos infernizar... Vivemos numa cirando louca,
improdutiva. Diabólica...
-
Não, não
insistam, seus capetões. Talvez outro dia...
···
O
que há dentro da casa do corpo do ser humano? Que demônios, morcegos e cães são
esses que o habitam? Como é que, da carne, provém a relação em nível
convivencial?
De que é
composto o inferus, o soturno e o
subterrâneo do ser humano? Como é o seu inferno? O que é que ele tem que nem
ele mesmo quer saber? Foge, evita, arreda de si.
Os
gregos conceberam o daimon como uma
energia, uma iluminação interior, uma espécie de sopro divino presente no
homem.
Bem
antes deles, os mesopotâmios criaram a noção de espíritos maus, que operavam
próximo do homem ou dentro dele, causando doenças e trazendo desgraças. Aqueles
males da vida que não constituíam grandes catástrofes naturais eram atribuídos
à má influência dos demônios. UTUKKU.
Todos
os povos conceberam demônios para explicar a maldade e a fúria disruptiva que
existe na existência. Espíritos maus invejosos, vingativos, ciumentos,
impiedosos, perseguidores, cruéis, sanguinários e mortíferos precisam ser concebidos e alocados no espaço de concepção externa à pessoa. Dantesca
questão partilhada por todo homem imerso na vida comunitária, é fácil perceber
tratar-se de uma vivência comum, que solicita uma formulação mítica. Crenças e
religiões foram assim propostas. A concepção religiosa acerca do mal e do
desgraçado que pode acometer a todos, a de que uma formulação adequada,
personificada num supra-humano, dotado de avantajado poderio de molestar e
prejudicar os homens é encarada
misticamente por meio de Lúcifer, Demônio, Diabo, Belzebu, Capeta,
Lusbel, Satã, Satanás, Exu. Os 99 nomes do espírito maligno arrolados por
Guimarães Rosa ao longo do Grande
sertão.
Para Freud, o mal provém da dimensão inconsciente
do aparelho psíquico. A energia da
pulsão sexual é a responsável pela forçação de barra que, por vezes, impele o
sujeito para além de suas conveniências, suplantando o habitual controle
egóico, arremetendo-o ao descomedimento e lançando-o na senda da atuação
psicopatológica.
Para
Szondi,12 todos nós temos uma dimensão obscura, sem luz, tosca,
caracterizada por uma carga de más emoções armazenadas, composta de inveja à
vontade do outro, ira derivada do afã de impor-se sobre o semelhante, ânsia
desmedida de notoriedade, vingança implacável diante dos empecilhos que o Outro
nos impõe. Inveja, ambição, vaidade e crueldade, constituem o núcleo do Caim
que habita os internos de cada um de nós, seres humanos. Essa fúria, mal
contida, explode em ictus, em
acessos, em ataques , em paroxismos.
Definitivamente,
o homem não é fácil. O ser humano não é, naturalmente, bondoso. Tem uma
natureza humana própria, dada posta desde sempre. Não podemos ter ilusões.
Lidamos com um animal perigoso.
O ser humano é uma máquina de quebrar
brinquedos, diz Amado Nervo 9:450
O homem é um animal que se devota diariamente a
tornar os outros infelizes, afirma H. L. Mencken. 2:63
Guimarães
Rosa erige toda sua obra no sentido de nos indicar as luzes e as operações
existenciais necessárias para lidar com o lado torvo, mau, arrevesado, de todos
nós. O homem é seus crespos e seus avessos. Ao longo do processo metafísico por
onde percorre Riobaldo, na veredas do Grande Sertão, Rosa se utiliza de noventa
e nove nomes –noventa e nove aparências ou alegorias – do demônio. 10
A
cada hora, a cada momento, o ser humano está tentado a lidar com uma qualidade
nova de medo. Medo é a cárie do psíquico. Medo é anagrama de demo. O tempo
todo, nós, Riobaldos, temos de lidar com as aparições sutis e escabrosas do
diabo – medo, angústia, desamparo – que nos mina, a partir de dentro. Nosso
recurso, ensina Guimarães, é:
-
Vau do
mundo é coragem!
E reforça: - Vau do mundo é a alegria!
Coragem para deter o desembestamento da pulsão agressiva
que quer extinguir-se no combate fatal
final. Alegria para contrapor nossa penosa exposição às forças do Xu, do
Morcegão, do Cramulhão, do Tristonho, e superá-las.
Joãozito
nos ensina que o enfrentamento daquilo, diabólico, que brota, arrevesando tudo,
de nossos internos, portanto, do nível biológico, tem de ser combatido no
próprio campo, na rua do biológico, extraindo coragem, ainda que de intensidade
variável, de dentro das próprias entranhas do atentado. E alegria, alegria de
amor, conforme Quelemém.
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da
gente aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu
Quelemém diz. 10:12
O bruxo da
linguagem sabia também que há um outro nível operativo de eficácia, o nível
intelectivo.
Quem se
sente responsável pela palavra ajuda o homem a vencer o mal. 6:84 E
reforça, mais adiante:
No Sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder.
As duas coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e
sua capacidade de adivinhar. Nada mais.
As forças
biológicas, incontidas, mal canalizadas são o Mal, o Grande Satã. 8
A necessidade biológica é nosso cativeiro, diz
Camille Paglia.
É
ingenuidade desastrosa achar, como Rousseau e os liberais, que o homem é bom,
de uma forma espontânea e natural.
Não temos
mais o direito de sermos ingênuos e nem de sermos simplistas. A sociedade
corrompe o homem na medida em que é injusta e iníqua, tantas vezes. Mas a
maldade humana – e a violência dela decorrente – não deriva, basicamente, da
inserção do homem no social. Provém, isso sim, do fato de que a condição humana
é precária, transeunte, está em constante confecção, é facilmente resvalável
pelo sórdido e pela corrupção. O homem, sedutível, ouve as cantadas do diabo.
Corruptível, tem na senda do exercício do mal um tentador caminho a percorrer.
Às vezes, esvaziado, ou angustiado, propende à escolha do exercício do mal como
opção vicariante. Luciferina, quando instruída pelo orgulho. Satânica, quando
acicatada pela inveja.
Exagerar
narcisicamente o próprio de sua pessoa, arrogar-se valor superlativo, perder
respeito à integridade do Outro são tentações luciferinas, que arrostam o ser
humano ao pleno exercício do Mal.
Hoje
vivemos em um paraíso de produtos tecnológicos inundantes de nossa cotidianeidade.
Há um conforto afluente para aqueles que souberam captar dinheiro. Há uma
generalizada abundância de alimentos e uma exibição escandalosa de bens de
consumo, que satura de tédio os ricos e instiga a cobiça e reforça o sentimento
de inferioridade dos assalariados.
Por outro
lado, vivemos em um pesadelo moral e social. O mundo apresenta-se como porta de
delegacia de polícia. Tradicionais práticas convivenciais tornaram-se
anacrônicas. Conceitos de conduta ficaram estritos demais para dar conta da
pluralidade poliversa de condutas e de manifestações comportamentais explícitas
dos seres humanos. Cada vez mais homens e mulheres jovens e idosos, sentem-se
com poderio suficiente para experimentar vivências reservadas, até então, para
o rei Salomão, para Luís XIV ou para o Sultão.
Os
direitos cresceram. A conduta amplificou-se. As práticas sociais e
convivenciais tornaram-se, amplamente, não convencionais. No intervalo de sessenta anos, após a Segunda Guerra
Mundial, o mundo mudou e mudou e continua metamorfoseando-se de maneira até
enjoativa, forçando a todos a uma adaptação jamais satisfatória e nunca
concluída.
E sem
consolo.
Antes
acreditávamos que havia um sistema: um comando, um establishment, uma confraria ou uma entidade que, secretamente, dirigia
as coisas, no mundo. Quando não, os cépticos acreditavam que as relações de produção e a luta de classes pilotavam um processo
histórico de natureza evolutiva, para o bem da humanidade. Hoje sabemos que
nada disso opera com eficácia. Muitos desses pretensos comandos nem existem. A
humanidade é governada por coincidências e desencontros, desgraças, escândalos,
cataclismos geológicos, acasos e necessidades. E muito desperdício.
A rigor,
ninguém sabe como a vida e os seres humanos funcionam. Os desígnios são
impalpáveis, invisíveis. Do mercado persa caótico da vida, subitamente brota
uma nova verdade aceita por todos surpreendentemente. Práticas repudiadas, de
repente passam a ser preconizadas. Instituições que pareciam sólidas
dissolvem-se como torrões de açúcar. Nações aparecem, fulguram e desaparecem.
Povos somem de cena. Expressões, modas, músicas, gostos, verdades, griffes surgem do nada. Ninguém sabe de
onde vieram, para que vieram. A Bolsa de Valores sobe e desce. Ninguém
compreende nada. A capacidade de previsão dos cientistas é tão fajuta quanto a
dos adivinhos. Ridícula em 95% dos casos.
Para além
do racional, do consciente, do dado e do fato, os fatores operativos na
etiologia geral da causação das coisas são, quase sempre, uma obscuridade.
A vida vai em ondas, como o mar...
Só depois,
a posteriori, epimeteicamente, é que
podemos urdir os indícios e, usando o comodismo da lei do comentarista
esportivo, fazemos comentários absolutamente sensacionais e precisos, sobre o
gol já feito. Depois de apurada a eleição, de extraída a seiva, de nascido o
bebê, de imposto o Plano econômico, todos nós somos absolutamente argutos em
descrever a inexorabilidade dos fatos ocorridos. Ninguém previu a queda do Muro
de Berlim. Ninguém ousou supor o desmantelamento do Urso soviético. Ninguém
acreditava, em maio de 94, que o Brasil estivesse entrando em um novo longo
ciclo de dez a quinze anos de oscilação de prosperidade e de crescimento.
Ninguém previu que o desgoverno Lula devastaria o tecido ético da nação brasileira
e se associaria com a pior corja de ditadores estrangeiros
Ninguém prevê as coisas que interessam a todos, e
acerta.
Depois de
acontecidas as coisas, é punga: todo mundo sabia. Somos todos ótimos profetas
daquilo já ocorrido.
A maldade
surge como um mal-estar organísmico que acomete, desde dentro, visceralmente, o
indivíduo. Uma ruindade, um aperto. Uma sensação de solidão, de abandono. Ou um
vazio, uma sensação de queda, de aniquilamento. Um afã de prevalecer, uma ânsia
de ser reconhecido, atendido, amado e respeitado é o que objetiva cada ser
humano.
Essa
maldade, pressentida rapidamente, atinge níveis insuportáveis, dentro do
psiquismo do sujeito.
Ele então
lança para fora, projeta parte candente dessa maldade por sobre o primeiro
objeto externo confiável que se dispuser a receber a depositação de sua
maldade.
A maldade
está, então, alocada no Outro: o Outro é que é mau.
Como eu o
envenenei de ruindade, ele, o Outro, irá querer retaliar. Ele está revidando.
Ele está me perseguindo. Me faz mal. Ele me odeia e quer me destruir! Assim, o
mal depositado no Outro retorna dele, de fora, para dentro do próprio sujeito.
A maldade projetada tende a ser recarregada no próprio psiquismo do sujeito.
Passa a ser reconhecida não mais como própria, mas proveniente do perseguidor
externo. 1
Ninguém está a
cobro da doideira de si e dos outros. 11:50
O bebê humano é passível de experienciar temores. Ele
pode sofrer angústia inominável, angústia de aniquilamento, agonias inefáveis,
na expressão de Mário Pacheco.
O terror
tem de ser ejetado para fora do espaço psíquico da criança. E tem de ser
contido pelo colo da mãe, que sustenta a situação e o bebê. Esse terror tem de
ser por ela – mãe - significado. Assim processado, mediante imersão no seio da
bondade humana, a maldade perde sua vertente de animal contundente, brutal.
Torna-se, gradativamente, maldade comum, humanizada, amolgada, vacinada contra
maiores virulências. Terror-pavor-agonia e solidão são forças perturbadoras,
desagregadoras de vivências no psiquismo – são potenciais verdadeiramente
diabólicos.
Acalentados,
embalados, significados, esses medos primevos tornam-se humanizados.
Civilizados. Sua dotação energética é como que aproveitada não mais no sentido
da furrupa e da dispersão infernal das coisas, mas injeta energia nas
atividades produtivas que são o apanágio do modo processo secundário de
funcionamento psíquico. Aquilo que o sujeito faz, como opção pessoal e como
eleição de destino, no campo da consciência, precisa dos aportes econômicos da
energia que provém, basicamente, do inferus,
da dimensão endógena – inconsciente - do próprio ser.
O homem é
um ser diabólico, demoníaco, predador da natureza, invejoso da bondade do
irmão, vingativo em relação a pequenos desaforos que o convívio inevitavelmente
impõe a todos nós. É um animal cruel, capaz de assassinar o semelhante – Caim.
Ou de assassinar a si próprio, num ato brutal de autoextermínio.
Tem dentro
de si o germe da atitude Potlatch, de
devastação e de destruição do patrimônio acumulado, por orgulho e exibição de
poderio,
Todos têm
dentro de si um anseio desmesurado de obter proteção por meio de um preposto
poderoso agente externo, que funcione de preferência com as funções-mãe e as
funções-pai, ao longo de toda a vida. Todos querem moleza e preços baixos, ao
longo da travessia existencial.
A
liberdade é, talvez, o mais forte anseio de todo ser humano. 1 Tem
sido a conquista máxima empreendida pelo modo de vida no Ocidente. Mas a
observação empírica evidencia que cada pessoa usufrui certo grau de liberdade e
aspira a um certo tanto a mais. Acima de certo limite, a liberdade é cáustica,
enjoativa para cada indivíduo. Vale dizer, as pessoas não assumem o índice de
liberdade possível em suas existências.
Todo mundo
tem dentro de si o anseio de deter um poder capaz de submeter os outros. A
pretensão à onipotência, para poder proteger-se do desamparo interno e para
impor vassalagem aos outros, é um princípio do mal. Funciona como defesa eficaz
contra o desamparo e a depressão, por um lado, mas santifica o acúmulo de
ressentimentos e de mágoas, além de açodar o desejo de vingança.
A vertente
má, diabólica, do ser humano provém de três fontes principais. A primeira é daimônica, pulsional, constitutiva
própria, nem boa nem má: apenas possibilidade de tudo. A segunda deriva da
projeção da primeira sobre as coisas, os objetos e as pessoas, no mundo
externo, tingindo-os de maldade. A seguir, por efeito rebote, o indivíduo
reintrojeta em seu espaço psíquico a maldade projetada, às vezes de forma até
ampliada. Nesse segundo caso, a maldade provém do outro, transmutado em mau,
perseguidor.
A terceira
fonte deriva do imaginário. Sempre que o psiquismo humano é tensionado por
fantasmas – entidades intrapsíquicas compostas de representação enxertada de
pulsão, buscando criar um enredo qualquer – tende a criar seres sobre-humanos,
da ordem de divindades e de demônios. Seres satânicos, espíritos do mal, surgem
assim como entidades concebidas pelos homens e pelos povos, ao longo do tempo –
eixo de sua evolução na Terra. Habitam um outro mundo, aquele da crença, da
ilusão e da fé. Constitui a vertente maligna que as grandes religiões e as
práticas religiosas mais particulares procuram conjurar, mediante procedimentos
apotropaicos, tais como uso de amuletos, emprego de fórmulas conjuratórias,
elaboração de mitos, imposição de ritos, orações, oferenda de sacrifícios
propriatórios e, até, emprego de exorcismos. Para dar conta dessa vertente
abjeta, sórdida, deletéria, maligna, enfim, o indivíduo e o grupo social tem
duas possibilidades. Ou busca aliar-se ao Mal, habilitando-se no exercício de
suas práticas, como no Satanismo, um clássico gesto de identificação com o
agressor. É preferível estar sob a proteção do Diabo a estar sozinho. Antes mal
acompanhado do que só. Quem não tem cão caça como rato: sò e sordidamente. O
ser humano tem horror ao vazio. A alguém, a gente tem de se enturmar. Pois que
seja lá com o diabo que for.
Ou extrai
do bobo do corpo o interno das coragens. Experiencia os acontecimentos da vida,
adquirindo empuxo, testando e incrementando sua hombridade, tornada recurso
para enfrentar o mal que permeia a existência.
Crentes
proclamam que Deus preferiu confeccionar o homem como um ser de travessia, um
ser incompleto, fadado a viver buscando melhor acabamento. Quando passaremos
questionar os inadequados desígnios divinos?
Temos de
aceitar essa nossa condição de fajutice permanente. Aprendendo a extrair daí,
dela, esforço de superação. Ao viver, nós, Riobaldos, cidadãos do sertão do
mundo, a certa altura, pegamo-nos, sem mais nem porquê, apetrechados para
convocar o Demônio para o encontro – Thambos
– no nosso próprio território, nas Veredas Altas. O cristão treme sob o efeito
do Thambos – o espanto metafísico
provocado pela convocação do sagrado.13:314 Assim convocado, o
demônio por si, cidadão, solto, não comparece. Não há. Não existe. Existindo,
porém. Enfrentada pelo valor humano, a maldade diabólica esmorece, desmilingüe,
torna-se um chorrilho, um mijo de Pé Preto, uma titica de pato. A maldade é
apenas um pingado de pimenta que o demo
joga por sobre os homens, para mais espertá-los. Dá tempero.
Por que as
pessoas hesitam tanto em enfrentar a maldade própria de suas naturezas humanas?
Por que é que todos não se reúnem para sofrer e
vencer juntos, de uma vez? 10:235
Ao longo
dos milênios de vida civilizada, os povos e as comunidades aprenderam a
desenvolver dispositivos eficazes para conjurar o mal. A maior dessas práticas
está dada pela criação de interdições à absoluta impossibilidade da ocorrência
de tudo. A instauração da Lei tem sido a garantia maior de manejo da maldade
humana.
Não
matar é a interdição máxima.
Esse
mandato manda parar a propensão humana a exterminar o semelhante e a si mesmo.
Amar a si
mesmo, gostar de si, para criar um patrimônio de auto-estima, de amor, de
autoconfiança, necessário para forjar um repositório de bondade que tampona a
acidez cáustica da maldade é o segundo principal mandato.
Aprendendo
a mamar a bondade do leite materno, o ser humano torna-se menos inquieto, menos
mau.
A bondade
instalada como uma fonte que jorra a partir da interioridade da pessoa entorna
pelas beiradas e sobra, fluindo como amor, como dadivosidade, em direção ao
outro, ao próximo. Amar a si mesmo para poder vir a amar o próximo.
O terceiro
mandato que a cultura inteligentemente criou foi o dispositivo de concentrar a
tendência projetiva do psiquismo humano, colhê-los todos numa concepção
imaginária de um ser captador, que funciona como poderosa referência externa a
todos os indivíduos da cultura. Numa concepção mística, este ser receptador das
intenções e dos anseios é chamado Deus. Numa concepção mais prosaica, laica,
esse receptador é o código de valores e de condutas que, dificultosamente, a
cultura erige, ao longo de séculos, decantando lentamente as melhores práticas
sociais. Tem por nome Lei.
Lei
vigente na cultura. Magno articulador de fluxos, de trocas de possibilidades e
de restrições.
Postula-se
que a interdição ao incesto tenha sido uma dessas magnas Leis estruturantes das
relações convivenciais e sociais das culturas humanas. A imposição de trocas
exogâmicas e de intercâmbio de mercadorias e de valores é outra prática
extremamente eficaz para lidar e reduzir a maldade.
Cada povo
erigiu sua mitologia, necessária para dar caminho às grandes questões da
existência, pois é necessário sempre erguer um mito de origem do povo. É
importante referir-se a ancestrais poderosos e notáveis que deram origem àquele
povo. É preciso estabelecer relações de parentesco para que não haja um elevado
índice de consangüinidade.
É
fundamental estabelecer normas práticas de convívio para que possa fluir a
convivência sem maiores percalços. É preciso criar um sistema de crenças para
dar conta de racionalizar a estupidez da doença, do cataclismo natural e,
sobretudo, é imprescindível desenvolver uma escatologia acerca da morte e do
jamais desistido anseio de vir a viver uma outra vida além da morte.
Demônios
e violência
A maldade é ínclita à condição do
homem.
A maldade provém da inveja ao bem que o
outro exibe e detém.
A inveja é o afeto básico vigorante no
inconsciente.
Designa
a tristeza sentida diante do bem do outro e do desejo imoderado de sua
apropriação, mesmo indevida. 3:566
Da inveja surge a vaidade de se
pretender ser mais do que é. Dela brota a ambição de impor-se desmesuradamente
por sobre o outro.
A inveja
lança o indivíduo na impossibilidade de convívio amistoso com os demais,
condenando-o ao horror da solidão que anseia pelo reconhecimento alheio.
A inveja
dá origem a um furioso drama terrorífico interno.
De noite, na cama, eu faço cafuné nos meus demônios,
para eles se acalmarem – disse um cliente.
Más
emoções armazenadas podem descarregar-se em ira, em ictus, em paroxismos. Afã de impor-se. Ânsia de notoriedade. Os
afetos toscos, diafotos, obscuros do homem: seus crespos e seus avessos.
No
entanto, o demônio é aquele que atravessa no meio, principio dissolutor do bem
posto, é aquele que permite o equilíbrio instável da metamorfose contínua da
vida, ele é o portador das tensões contrárias.
O demônio é a força que me impele a ir adiante, em
direção à espiritualidade do Espírito Santo. O demônio, em última análise, é a
minha possibilidade de alcançar o Espírito Santo,
expressou-se um cliente.
Dotados de
imenso poder sobre as almas brancas, atraem-nas e trituram-nas. São a poesia do
mal.
Deus é
certeza. O diabo é a variedade.
A
permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério da fé.
Deus dá e tira a vida. Mas quem ensina mesmo a viver
é o demônio. (Mário da Silva Brito) 9:261
Como seres
não perfeitos, de meia-confecção, seres de transição como quis a evolução da
espécie, precisamos do demônio de nossa maldade para não nos fecharmos cedo
demais às completudes que estancam nossas possibilidades de vir-a-ser. Corremos
o risco, o tempo todo, de não sabermos lidar com nossa violência. Dela, não
obstante, provém o devir das coisas novas e interessantes para a expansão de
nossa vida.
Direitos humanos
Consideramos estas verdades como evidentes por si
(axiomáticas): que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo seu
criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes direitos estão a vida, a liberdade e a
procura da felicidade. (Jefferson – 1743-1826 – Declaração da Independência
Americana 9:274
Maior
preceito ético provém de Millôr definitivo:
Uma
coisa tenho que dizer de mim próprio: cada vez me dou melhor comigo mesmo. 4.423
A
Metafísica da Qualidade 8:34 afirma
que “Direitos humanos” é o código moral intelecto versus sociedade, decorrente do direito moral do intelecto de se
libertar do controle social. Compõe-se de liberdade de expressão; liberdade de
reunião, de locomoção; julgamento por um júri; habeas corpus; governo por consentimento do povo.
Nosso
grande cativeiro é o da necessidade biológica no qual toda criança nasce. A
sociedade existe primariamente para libertar as pessoas desse cativeiro
biológico. A qualidade biológica é essencial à vida. Necessita de controle
social: o soldado, o policial, a lei, o psiquiatra, o assistente social.
Quando a biologia pulsional disruptiva eclode,
ameaçando dominar e destruir a sociedade, torna-se o próprio Mal, o Grande Satã
da cultura ocidental urbana do século XXI. A fé dos intelectuais do nosso
século de que o homem é basicamente bom, de uma forma espontânea e natural,
tese cara aos neoliberais de hoje, é de uma ingenuidade desastrosa, denuncia
Robert M. Pirsig em Lila. 8:341
O ideal de uma sociedade harmoniosa na qual todo
mundo, sem qualquer coação, coopera de bom grado com todo mundo para o bem
comum de todos é uma ficção que só provoca estragos.
Sem repressão, não há significado e propósito, ensina
Camille Paglia. 7:134 Sem
exigência, não há serviço.
Sem ordem na
base de sustentação, não há liberdade, inovação, criatividade.
Hoje vivemos em um paraíso intelectual e tecnológico
e em um pesadelo moral e social porque o nível intelectual de evolução, em sua
luta para se libertar do social,
ignorou o papel de nível social em manter o nível biológico sob controle.
Padrões intelectuais de funcionamento não podem
controlar diretamente os padrões biológicos das populações.
Entre a biologia humana – com sua violência e sua
tendência criminosa e a sociedade convivente, há um policial com sua arma, um
soldado de atalaia, um psiquiatra modulando pulsões indômitas e um assistente
social manejando possibilidades de encaminhamento biológico socialmente
indicados. Deve-se conter e até destruir padrões biológicos destrutivos.
Vivemos época de lei derrogada, derruída, anacrônica e ineficaz.
Como conciliar voracidade rapace da ambição desmedida
de lucro – avanço sobre a pecúnia de quem tem menos – ,próprio do núcleo do
capitalismo –, com a expansão do poder aquisitivo de bilhões de seres humanos,
condenados a contemplar as maravilhosas vitrines do lado de fora da loja?
Ulpiano, em 228 d. C. (Digesto I), preconizava modestamente: Os preceitos do direito
são estes: viver honestamente, não ofender a ninguém, dar a cada um o que é
seu. 9:274
Natureza humana
O ser
humano não funciona bem sob ameaça.
O ser
humano não funciona bem em negativo.
O ser
humano não funciona bem em sobressalto, acordado subitamente de madrugada, por
exemplo.
O ser
humano não funciona bem em série. Funciona melhor em paralelo com outros seres
humanos.
Precisamos propor padrões éticos novos, claros e
viáveis. Quais são eles?
A vida é
uma coleção de oportunidades perdidas.
A vida
também pode ser uma máquina de moer carne.
Todos
temos de nos desdobrar, tentar dar conta:
Digladiar com os dois em mim
A
nova Lei prevê e corrige tendências da natureza humana.
A
Lei serve para corrigir e para amenizar a natureza humana.
A
Lei é o organizador da distribuição dos movimentos pulsionais – caminhos
socialmente úteis, dispostos ao longo do tempo.
Lei instrui o cidadão a
desiludir-se de ilusões à-toa, vãs pretensões e de sonhos impossíveis.
Lei são instruções para a
operação da polícia.
Lei é o grande instrumento
de regulação da desestruturação do indivíduo na sua relação com a sociedade. É
a Lei que indica o direito de o indivíduo constituir-se como tal, cidadão de
direito próprio, imerso na legiferação comum à sua comunidade.
Lei indica, aponta,
possibilita, afirma, expande aquilo que é: bom valor social.
Lei coarcta, interdita,
proíbe aquilo que é disruptivo socialmente, censura, reprime, pune aquele que a
infringe.
Lei sanciona e pune a
dimensão biológica criminosa do ser humano.
É dessa forma que, apesar
de tudo, a sociedade funciona e a cultura prevalece.
···
Na semana seguinte, sonhei que entrei na casa. Ali estavam pessoas
familiares. Comiam algo esquisito, pareciam-me salgados recheados de carne
deteriorada. Recusei. Eles comiam, falavam e bebiam. Aos poucos, fui-me
sentindo crescentemente bem de estar na minha, no meio deles.
Não existe o demônio. O que
há é homem humano.
Referências
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Marco Aurélio. O psiquismo humano.
São Paulo: Escuta, 1995.
2. CASTRO,
Ruy. O melhor do mau humor. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989.
3. Catecismo
da Igreja Católica. Petrópolis: Editora Vozes e outras, 1993.
4. FERNANDES,
Millôr. Millôr definitivo: a bíblia
do caos. Porto Alegre: L&PM, 1994.
5. FREUD,
Sigmund. (1930) O mal-estar na
civilização. Edição Standard brasileira de obras psicológicas completas de.
Rio de Janeiro: IMAGO, 1974.
6. GUIMARÃES
ROSA. Eduardo F. João Guimarães Rosa.
(Coletânea organizada por). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: INL, 1983.
(Retificar a colocação)
7. PAGLIA,
Camille. Personas sexuais: arte e
decadência de Nefertite a Emily Dickinson. São Paulo: Companhia das Letras,
1982.
8. PIRSIG,
Robert M. Lila: uma investigação
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9. RÓNAI,
Paulo. Dicionário universal Nova Fronteira de citações. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1985.
10.
ROSA, João Guimarães. Grande
sertão: veredas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970.
11.
____ . Tutaméia.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
12.
Szondi, Luba. Cain y el cainismo en la história universal.
Madri: Editorial Biblioteca Nueva, 1975.
13.
UTÉZA, Francis. JGR:
Metafísica do Grande Sertão. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo,
1994.
Unitermos –
Violência. O Mal. Mudanças de paradigma. Nova ética. Liberdade. Direitos
humanos. Natureza humana. Lei.
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