sexta-feira, 15 de março de 2013

A VIOLÊNCIA E SUAS RAÍZES PSICANALÍTICAS


A VIOLÊNCIA E SUAS RAÍZES PSICANALÍTICAS         

 Marco Aurélio Baggio

 

 

         Sonhei que estava diante de uma mansão sombria. De lá, morcegos voavam. Seres estranhos, que eu logo identifiquei com demônios, me acenavam sedutoramente. – Venha cá, Marco Aurélio, que vamos mostrar-lhe a casa por dentro. Você vai conhecer muita coisa interessante. E nós vamos ensinar-lhe uma porção de coisas.

 

         Fiquei com medo. Cabreiro, disse que não, que não! Ia-me afastando. Continuavam convidando-me, com insistência e suavidade. Permaneci a certa distância prudente, mas a curiosidade prevaleceu. Parei e voltei. Percebi melhor aqueles seres deformados, tais como gárgulas de catedrais góticas européias. Estavam escoltados por cães portentosos. Alguma coisa de estranho e de maligno evolvia daqueles diabos. Suas atitudes captativas e suas vozes moduladas hipnoticamente me perturbavam. Fiquei dividido e conturbado. Sabia que não iria, não estava preparado, não tinha coragem ainda.

 

-         Não quero ir não!

 

- Venha – insistiam. - Olhe  só quanta coisa boa existe aqui. Tudo parece confuso, perigoso, mas é só aparência ruim. Se você vier, poderá pôr a ordem que quiser nas coisas todas. Nós somos demônios poderosos, mas estamos condenados ao arreveso, à balbúrdia, à pura pulsão, como gostam de  dizer seus psicanalistas. Você é ser humano, muito fraquinho e pouco criador. Mas tem aquilo que nós não temos: a razão, a capacidade de pôr as coisas em uma seqüência lógica, ordenada, construtiva. Precisamos desse atributo seu. Nós só sabemos perturbar, estorvar, desmontar. Venha, venha...

 

-         Não vou... Não quero ir... Arranjem outra pessoa pra quebrar seu galho.

 

-         Que pena!... Se você vier, poderá ficar imenso, grande, poderoso. Só você pode nos ajudar a dar conta desta casa. Você é inteligente, sabe o lugar de cada objeto, para que é que serve, como funciona, sabe fazer as coisas produzirem. Venha! Nós não somos capazes disso... Nós só sabemos       semear confusão e mexer continuamente aquilo que está condensado.

 

-         Não... Não adianta me tentarem, seus capetas! Não quero saber o que há dentro dessa casa não. Tenho medo.. Tchau!

 

-         Marco Aurélio, Marco Aurélio, não nos abandone! Precisamos de sua capacidade de reflexão para pôr ordem naquilo que fazemos. Sem você, estamos condenados a mutuamente nos atazanar e a nos infernizar... Vivemos numa cirando louca, improdutiva. Diabólica...

 

-         Não, não insistam, seus capetões. Talvez outro dia...

 

···

 

         O que há dentro da casa do corpo do ser humano? Que demônios, morcegos e cães são esses que o habitam? Como é que, da carne, provém a relação em nível convivencial?

 

         De que é composto o inferus, o soturno e o subterrâneo do ser humano? Como é o seu inferno? O que é que ele tem que nem ele mesmo quer saber? Foge, evita, arreda de si.

 

         Os gregos conceberam o daimon como uma energia, uma iluminação interior, uma espécie de sopro divino presente no homem.

 

         Bem antes deles, os mesopotâmios criaram a noção de espíritos maus, que operavam próximo do homem ou dentro dele, causando doenças e trazendo desgraças. Aqueles males da vida que não constituíam grandes catástrofes naturais eram atribuídos à má influência dos demônios. UTUKKU.

 

         Todos os povos conceberam demônios para explicar a maldade e a fúria disruptiva que existe na existência. Espíritos maus invejosos, vingativos, ciumentos, impiedosos, perseguidores, cruéis, sanguinários e  mortíferos precisam ser concebidos  e alocados no espaço de concepção externa à pessoa. Dantesca questão partilhada por todo homem imerso na vida comunitária, é fácil perceber tratar-se de uma vivência comum, que solicita uma formulação mítica. Crenças e religiões foram assim propostas. A concepção religiosa acerca do mal e do desgraçado que pode acometer a todos, a de que uma formulação adequada, personificada num supra-humano, dotado de avantajado poderio de molestar e prejudicar os homens é encarada  misticamente por meio de Lúcifer, Demônio, Diabo, Belzebu, Capeta, Lusbel, Satã, Satanás, Exu. Os 99 nomes do espírito maligno arrolados por Guimarães Rosa  ao longo do Grande sertão.

 

Para  Freud, o mal provém da dimensão inconsciente do aparelho psíquico. A   energia da pulsão sexual é a responsável pela forçação de barra que, por vezes, impele o sujeito para além de suas conveniências, suplantando o habitual controle egóico, arremetendo-o ao descomedimento e lançando-o na senda da atuação psicopatológica.

 

Para Szondi,12 todos nós temos uma dimensão obscura, sem luz, tosca, caracterizada por uma carga de más emoções armazenadas, composta de inveja à vontade do outro, ira derivada do afã de impor-se sobre o semelhante, ânsia desmedida de notoriedade, vingança implacável diante dos empecilhos que o Outro nos impõe. Inveja, ambição, vaidade e crueldade, constituem o núcleo do Caim que habita os internos de cada um de nós, seres humanos. Essa fúria, mal contida, explode em ictus, em acessos, em ataques , em  paroxismos.

 

         Definitivamente, o homem não é fácil. O ser humano não é, naturalmente, bondoso. Tem uma natureza humana própria, dada posta desde sempre. Não podemos ter ilusões. Lidamos com um animal perigoso.

 

         O ser humano é uma máquina de quebrar brinquedos, diz Amado Nervo 9:450

 

         O homem é um animal que se devota diariamente a tornar os outros infelizes, afirma H. L. Mencken. 2:63

 

 

         Guimarães Rosa erige toda sua obra no sentido de nos indicar as luzes e as operações existenciais necessárias para lidar com o lado torvo, mau, arrevesado, de todos nós. O homem é seus crespos e seus avessos. Ao longo do processo metafísico por onde percorre Riobaldo, na veredas do Grande Sertão, Rosa se utiliza de noventa e nove nomes –noventa e nove aparências ou alegorias – do demônio. 10

 

         A cada hora, a cada momento, o ser humano está tentado a lidar com uma qualidade nova de medo. Medo é a cárie do psíquico. Medo é anagrama de demo. O tempo todo, nós, Riobaldos, temos de lidar com as aparições sutis e escabrosas do diabo – medo, angústia, desamparo – que nos mina, a partir de dentro. Nosso recurso, ensina Guimarães, é:

-         Vau do mundo é coragem!

 

E reforça: - Vau do mundo é a alegria!

 

Coragem para deter o desembestamento da pulsão agressiva que quer extinguir-se no combate fatal  final. Alegria para contrapor nossa penosa exposição às forças do Xu, do Morcegão, do Cramulhão, do Tristonho, e superá-las.

 

Joãozito nos ensina que o enfrentamento daquilo, diabólico, que brota, arrevesando tudo, de nossos internos, portanto, do nível biológico, tem de ser combatido no próprio campo, na rua do biológico, extraindo coragem, ainda que de intensidade variável, de dentro das próprias entranhas do atentado. E alegria, alegria de amor, conforme Quelemém.

 

Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém diz. 10:12

 

O bruxo da linguagem sabia também que há um outro nível operativo de eficácia, o nível intelectivo.

 Quem se sente responsável pela palavra ajuda o homem a vencer o mal. 6:84 E reforça, mais adiante:

 

No Sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder. As duas coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar. Nada mais.

 

As forças biológicas, incontidas, mal canalizadas são o Mal, o   Grande Satã. 8

A necessidade biológica é nosso cativeiro, diz Camille Paglia.

 

É ingenuidade desastrosa achar, como Rousseau e os liberais, que o homem é bom, de uma forma espontânea e natural.

 

Não temos mais o direito de sermos ingênuos e nem de sermos simplistas. A sociedade corrompe o homem na medida em que é injusta e iníqua, tantas vezes. Mas a maldade humana – e a violência dela decorrente – não deriva, basicamente, da inserção do homem no social. Provém, isso sim, do fato de que a condição humana é precária, transeunte, está em constante confecção, é facilmente resvalável pelo sórdido e pela corrupção. O homem, sedutível, ouve as cantadas do diabo. Corruptível, tem na senda do exercício do mal um tentador caminho a percorrer. Às vezes, esvaziado, ou angustiado, propende à escolha do exercício do mal como opção vicariante. Luciferina, quando instruída pelo orgulho. Satânica, quando acicatada pela inveja.

Exagerar narcisicamente o próprio de sua pessoa, arrogar-se valor superlativo, perder respeito à integridade do Outro são tentações luciferinas, que arrostam o ser humano ao pleno exercício do Mal.

 

Hoje vivemos em um paraíso de produtos tecnológicos inundantes de nossa cotidianeidade. Há um conforto afluente para aqueles que souberam captar dinheiro. Há uma generalizada abundância de alimentos e uma exibição escandalosa de bens de consumo, que satura de tédio os ricos e instiga a cobiça e reforça o sentimento de inferioridade dos assalariados.

 

Por outro lado, vivemos em um pesadelo moral e social. O mundo apresenta-se como porta de delegacia de polícia. Tradicionais práticas convivenciais tornaram-se anacrônicas. Conceitos de conduta ficaram estritos demais para dar conta da pluralidade poliversa de condutas e de manifestações comportamentais explícitas dos seres humanos. Cada vez mais homens e mulheres jovens e idosos, sentem-se com poderio suficiente para experimentar vivências reservadas, até então, para o rei Salomão, para Luís XIV ou para o Sultão.

Os direitos cresceram. A conduta amplificou-se. As práticas sociais e convivenciais tornaram-se, amplamente, não convencionais. No intervalo de  sessenta anos, após a Segunda Guerra Mundial, o mundo mudou e mudou e continua metamorfoseando-se de maneira até enjoativa, forçando a todos a uma adaptação jamais satisfatória e nunca concluída.

E sem consolo.

Antes acreditávamos que havia um sistema: um comando, um establishment, uma confraria ou uma entidade que, secretamente, dirigia as coisas, no mundo. Quando não, os cépticos acreditavam que as relações de produção e a luta de classes pilotavam um processo histórico de natureza evolutiva, para o bem da humanidade. Hoje sabemos que nada disso opera com eficácia. Muitos desses pretensos comandos nem existem. A humanidade é governada por coincidências e desencontros, desgraças, escândalos, cataclismos geológicos, acasos e necessidades. E muito desperdício.

 

A rigor, ninguém sabe como a vida e os seres humanos funcionam. Os desígnios são impalpáveis, invisíveis. Do mercado persa caótico da vida, subitamente brota uma nova verdade aceita por todos surpreendentemente. Práticas repudiadas, de repente passam a ser preconizadas. Instituições que pareciam sólidas dissolvem-se como torrões de açúcar. Nações aparecem, fulguram e desaparecem. Povos somem de cena. Expressões, modas, músicas, gostos, verdades, griffes surgem do nada. Ninguém sabe de onde vieram, para que vieram. A Bolsa de Valores sobe e desce. Ninguém compreende nada. A capacidade de previsão dos cientistas é tão fajuta quanto a dos adivinhos. Ridícula em 95% dos casos.

 

Para além do racional, do consciente, do dado e do fato, os fatores operativos na etiologia geral da causação das coisas são, quase sempre, uma obscuridade.

A vida vai em ondas, como o mar...

Só depois, a posteriori, epimeteicamente, é que podemos urdir os indícios e, usando o comodismo da lei do comentarista esportivo, fazemos comentários absolutamente sensacionais e precisos, sobre o gol já feito. Depois de apurada a eleição, de extraída a seiva, de nascido o bebê, de imposto o Plano econômico, todos nós somos absolutamente argutos em descrever a inexorabilidade dos fatos ocorridos. Ninguém previu a queda do Muro de Berlim. Ninguém ousou supor o desmantelamento do Urso soviético. Ninguém acreditava, em maio de 94, que o Brasil estivesse entrando em um novo longo ciclo de dez a quinze anos de oscilação de prosperidade e de crescimento. Ninguém previu que o desgoverno Lula devastaria o tecido ético da nação brasileira e se associaria com a pior corja de ditadores estrangeiros

Ninguém prevê as coisas que interessam a todos, e acerta.

Depois de acontecidas as coisas, é punga: todo mundo sabia. Somos todos ótimos profetas daquilo já ocorrido.

 

A maldade surge como um mal-estar organísmico que acomete, desde dentro, visceralmente, o indivíduo. Uma ruindade, um aperto. Uma sensação de solidão, de abandono. Ou um vazio, uma sensação de queda, de aniquilamento. Um afã de prevalecer, uma ânsia de ser reconhecido, atendido, amado e respeitado é o que objetiva cada ser humano.

Essa maldade, pressentida rapidamente, atinge níveis insuportáveis, dentro do psiquismo do sujeito.

Ele então lança para fora, projeta parte candente dessa maldade por sobre o primeiro objeto externo confiável que se dispuser a receber a depositação de sua maldade.

A maldade está, então, alocada no Outro: o Outro é que é mau.

Como eu o envenenei de ruindade, ele, o Outro, irá querer retaliar. Ele está revidando. Ele está me perseguindo. Me faz mal. Ele me odeia e quer me destruir! Assim, o mal depositado no Outro retorna dele, de fora, para dentro do próprio sujeito. A maldade projetada tende a ser recarregada no próprio psiquismo do sujeito. Passa a ser reconhecida não mais como própria, mas proveniente do perseguidor externo. 1

Ninguém está a cobro da doideira de si e dos outros. 11:50


 

O bebê humano é passível de experienciar temores. Ele pode sofrer angústia inominável, angústia de aniquilamento, agonias inefáveis, na expressão de Mário Pacheco.

 

O terror tem de ser ejetado para fora do espaço psíquico da criança. E tem de ser contido pelo colo da mãe, que sustenta a situação e o bebê. Esse terror tem de ser por ela – mãe - significado. Assim processado, mediante imersão no seio da bondade humana, a maldade perde sua vertente de animal contundente, brutal. Torna-se, gradativamente, maldade comum, humanizada, amolgada, vacinada contra maiores virulências. Terror-pavor-agonia e solidão são forças perturbadoras, desagregadoras de vivências no psiquismo – são potenciais verdadeiramente diabólicos.

 

Acalentados, embalados, significados, esses medos primevos tornam-se humanizados. Civilizados. Sua dotação energética é como que aproveitada não mais no sentido da furrupa e da dispersão infernal das coisas, mas injeta energia nas atividades produtivas que são o apanágio do modo processo secundário de funcionamento psíquico. Aquilo que o sujeito faz, como opção pessoal e como eleição de destino, no campo da consciência, precisa dos aportes econômicos da energia que provém, basicamente, do inferus, da dimensão endógena – inconsciente - do próprio ser.

 

O homem é um ser diabólico, demoníaco, predador da natureza, invejoso da bondade do irmão, vingativo em relação a pequenos desaforos que o convívio inevitavelmente impõe a todos nós. É um animal cruel, capaz de assassinar o semelhante – Caim. Ou de assassinar a si próprio, num ato brutal de autoextermínio.

 

Tem dentro de si o germe da atitude Potlatch, de devastação e de destruição do patrimônio acumulado, por orgulho e exibição de poderio,

Todos têm dentro de si um anseio desmesurado de obter proteção por meio de um preposto poderoso agente externo, que funcione de preferência com as funções-mãe e as funções-pai, ao longo de toda a vida. Todos querem moleza e preços baixos, ao longo da travessia existencial.

 

A liberdade é, talvez, o mais forte anseio de todo ser humano. 1 Tem sido a conquista máxima empreendida pelo modo de vida no Ocidente. Mas a observação empírica evidencia que cada pessoa usufrui certo grau de liberdade e aspira a um certo tanto a mais. Acima de certo limite, a liberdade é cáustica, enjoativa para cada indivíduo. Vale dizer, as pessoas não assumem o índice de liberdade possível em suas existências.

 

Todo mundo tem dentro de si o anseio de deter um poder capaz de submeter os outros. A pretensão à onipotência, para poder proteger-se do desamparo interno e para impor vassalagem aos outros, é um princípio do mal. Funciona como defesa eficaz contra o desamparo e a depressão, por um lado, mas santifica o acúmulo de ressentimentos e de mágoas, além de açodar o desejo de vingança.

 

A vertente má, diabólica, do ser humano provém de três fontes principais. A primeira é daimônica, pulsional, constitutiva própria, nem boa nem má: apenas possibilidade de tudo. A segunda deriva da projeção da primeira sobre as coisas, os objetos e as pessoas, no mundo externo, tingindo-os de maldade. A seguir, por efeito rebote, o indivíduo reintrojeta em seu espaço psíquico a maldade projetada, às vezes de forma até ampliada. Nesse segundo caso, a maldade provém do outro, transmutado em mau, perseguidor.

 

A terceira fonte deriva do imaginário. Sempre que o psiquismo humano é tensionado por fantasmas – entidades intrapsíquicas compostas de representação enxertada de pulsão, buscando criar um enredo qualquer – tende a criar seres sobre-humanos, da ordem de divindades e de demônios. Seres satânicos, espíritos do mal, surgem assim como entidades concebidas pelos homens e pelos povos, ao longo do tempo – eixo de sua evolução na Terra. Habitam um outro mundo, aquele da crença, da ilusão e da fé. Constitui a vertente maligna que as grandes religiões e as práticas religiosas mais particulares procuram conjurar, mediante procedimentos apotropaicos, tais como uso de amuletos, emprego de fórmulas conjuratórias, elaboração de mitos, imposição de ritos, orações, oferenda de sacrifícios propriatórios e, até, emprego de exorcismos. Para dar conta dessa vertente abjeta, sórdida, deletéria, maligna, enfim, o indivíduo e o grupo social tem duas possibilidades. Ou busca aliar-se ao Mal, habilitando-se no exercício de suas práticas, como no Satanismo, um clássico gesto de identificação com o agressor. É preferível estar sob a proteção do Diabo a estar sozinho. Antes mal acompanhado do que só. Quem não tem cão caça como rato: sò e sordidamente. O ser humano tem horror ao vazio. A alguém, a gente tem de se enturmar. Pois que seja lá com o diabo que for.

 

Ou extrai do bobo do corpo o interno das coragens. Experiencia os acontecimentos da vida, adquirindo empuxo, testando e incrementando sua hombridade, tornada recurso para enfrentar o mal que permeia a existência.

 

Crentes proclamam que Deus preferiu confeccionar o homem como um ser de travessia, um ser incompleto, fadado a viver buscando melhor acabamento. Quando passaremos questionar os inadequados desígnios divinos?

 

Temos de aceitar essa nossa condição de fajutice permanente. Aprendendo a extrair daí, dela, esforço de superação. Ao viver, nós, Riobaldos, cidadãos do sertão do mundo, a certa altura, pegamo-nos, sem mais nem porquê, apetrechados para convocar o Demônio para o encontro – Thambos – no nosso próprio território, nas Veredas Altas. O cristão treme sob o efeito do Thambos – o espanto metafísico provocado pela convocação do sagrado.13:314 Assim convocado, o demônio por si, cidadão, solto, não comparece. Não há. Não existe. Existindo, porém. Enfrentada pelo valor humano, a maldade diabólica esmorece, desmilingüe, torna-se um chorrilho, um mijo de Pé Preto, uma titica de pato. A maldade é apenas um pingado de pimenta que  o demo joga por sobre os homens, para mais espertá-los. Dá tempero.

 

Por que as pessoas hesitam tanto em enfrentar a maldade própria de suas naturezas humanas?

 

Por que é que todos não se reúnem para sofrer e vencer juntos, de uma vez? 10:235

 

Ao longo dos milênios de vida civilizada, os povos e as comunidades aprenderam a desenvolver dispositivos eficazes para conjurar o mal. A maior dessas práticas está dada pela criação de interdições à absoluta impossibilidade da ocorrência de tudo. A instauração da Lei tem sido a garantia maior de manejo da maldade humana.

 Não matar é a interdição máxima.

Esse mandato manda parar a propensão humana a exterminar o semelhante e a si mesmo.

 

Amar a si mesmo, gostar de si, para criar um patrimônio de auto-estima, de amor, de autoconfiança, necessário para forjar um repositório de bondade que tampona a acidez cáustica da maldade é o segundo principal mandato.

Aprendendo a mamar a bondade do leite materno, o ser humano torna-se menos inquieto, menos mau.

A bondade instalada como uma fonte que jorra a partir da interioridade da pessoa entorna pelas beiradas e sobra, fluindo como amor, como dadivosidade, em direção ao outro, ao próximo. Amar a si mesmo para poder vir a amar o próximo.

 

O terceiro mandato que a cultura inteligentemente criou foi o dispositivo de concentrar a tendência projetiva do psiquismo humano, colhê-los todos numa concepção imaginária de um ser captador, que funciona como poderosa referência externa a todos os indivíduos da cultura. Numa concepção mística, este ser receptador das intenções e dos anseios é chamado Deus. Numa concepção mais prosaica, laica, esse receptador é o código de valores e de condutas que, dificultosamente, a cultura erige, ao longo de séculos, decantando lentamente as melhores práticas sociais. Tem por nome Lei.

Lei vigente na cultura. Magno articulador de fluxos, de trocas de possibilidades e de restrições.

 

Postula-se que a interdição ao incesto tenha sido uma dessas magnas Leis estruturantes das relações convivenciais e sociais das culturas humanas. A imposição de trocas exogâmicas e de intercâmbio de mercadorias e de valores é outra prática extremamente eficaz para lidar e reduzir a maldade.

 

Cada povo erigiu sua mitologia, necessária para dar caminho às grandes questões da existência, pois é necessário sempre erguer um mito de origem do povo. É importante referir-se a ancestrais poderosos e notáveis que deram origem àquele povo. É preciso estabelecer relações de parentesco para que não haja um elevado índice de consangüinidade.

É fundamental estabelecer normas práticas de convívio para que possa fluir a convivência sem maiores percalços. É preciso criar um sistema de crenças para dar conta de racionalizar a estupidez da doença, do cataclismo natural e, sobretudo, é imprescindível desenvolver uma escatologia acerca da morte e do jamais desistido anseio de vir a viver uma outra vida além da morte.

 

Demônios e violência


 

         A maldade é ínclita à condição do homem.

         A maldade provém da inveja ao bem que o outro exibe e detém.

 

         A inveja é o afeto básico vigorante no inconsciente.

 

         Designa a tristeza sentida diante do bem do outro e do desejo imoderado de sua apropriação, mesmo indevida. 3:566

 

         Da inveja surge a vaidade de se pretender ser mais do que é. Dela brota a ambição de impor-se desmesuradamente por sobre o outro.

A inveja lança o indivíduo na impossibilidade de convívio amistoso com os demais, condenando-o ao horror da solidão que anseia pelo reconhecimento alheio.

A inveja dá origem a um furioso drama terrorífico interno.

 

De noite, na cama, eu faço cafuné nos meus demônios, para eles se acalmarem – disse um cliente.

Más emoções armazenadas podem descarregar-se em ira, em ictus, em paroxismos. Afã de impor-se. Ânsia de notoriedade. Os afetos toscos, diafotos, obscuros do homem: seus crespos e seus avessos.

No entanto, o demônio é aquele que atravessa no meio, principio dissolutor do bem posto, é aquele que permite o equilíbrio instável da metamorfose contínua da vida, ele é o portador das tensões contrárias.

O demônio é a força que me impele a ir adiante, em direção à espiritualidade do Espírito Santo. O demônio, em última análise, é a minha possibilidade de alcançar o Espírito Santo, expressou-se um cliente.

Dotados de imenso poder sobre as almas brancas, atraem-nas e trituram-nas. São a poesia do mal.

Deus é certeza. O diabo é a variedade.

A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério da fé.

Deus dá e tira a vida. Mas quem ensina mesmo a viver é o demônio. (Mário da Silva Brito) 9:261

Como seres não perfeitos, de meia-confecção, seres de transição como quis a evolução da espécie, precisamos do demônio de nossa maldade para não nos fecharmos cedo demais às completudes que estancam nossas possibilidades de vir-a-ser. Corremos o risco, o tempo todo, de não sabermos lidar com nossa violência. Dela, não obstante, provém o devir das coisas novas e interessantes para a expansão de nossa vida.

 

 

Direitos humanos

 

Consideramos estas verdades como evidentes por si (axiomáticas): que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo seu criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes  direitos estão  a vida, a  liberdade  e  a procura da felicidade. (Jefferson – 1743-1826 – Declaração da Independência Americana 9:274

Maior preceito ético provém de Millôr definitivo:

 Uma coisa tenho que dizer de mim próprio: cada vez me dou melhor comigo mesmo. 4.423

A Metafísica da Qualidade 8:34  afirma que “Direitos humanos” é o código moral intelecto versus sociedade, decorrente do direito moral do intelecto de se libertar do controle social. Compõe-se de liberdade de expressão; liberdade de reunião, de locomoção; julgamento por um júri; habeas corpus; governo por consentimento do povo.

Nosso grande cativeiro é o da necessidade biológica no qual toda criança nasce. A sociedade existe primariamente para libertar as pessoas desse cativeiro biológico. A qualidade biológica é essencial à vida. Necessita de controle social: o soldado, o policial, a lei, o psiquiatra, o assistente social.

 

Quando a biologia pulsional disruptiva eclode, ameaçando dominar e destruir a sociedade, torna-se o próprio Mal, o Grande Satã da cultura ocidental urbana do século XXI. A fé dos intelectuais do nosso século de que o homem é basicamente bom, de uma forma espontânea e natural, tese cara aos neoliberais de hoje, é de uma ingenuidade desastrosa, denuncia Robert M. Pirsig em Lila. 8:341

 

O ideal de uma sociedade harmoniosa na qual todo mundo, sem qualquer coação, coopera de bom grado com todo mundo para o bem comum de todos é uma ficção que só provoca estragos.

 

Sem repressão, não há significado e propósito, ensina Camille Paglia. 7:134    Sem exigência, não há serviço.

Sem ordem  na base de sustentação, não há liberdade, inovação, criatividade.

 

Hoje vivemos em um paraíso intelectual e tecnológico e em um pesadelo moral e social porque o nível intelectual de evolução, em sua luta para se libertar do  social, ignorou o papel de nível social em manter o nível biológico sob controle.

Padrões intelectuais de funcionamento não podem controlar diretamente os padrões biológicos das populações.

 

Entre a biologia humana – com sua violência e sua tendência criminosa e a sociedade convivente, há um policial com sua arma, um soldado de atalaia, um psiquiatra modulando pulsões indômitas e um assistente social manejando possibilidades de encaminhamento biológico socialmente indicados. Deve-se conter e até destruir padrões biológicos destrutivos. Vivemos época de lei derrogada, derruída, anacrônica e ineficaz.

 

Como conciliar voracidade rapace da ambição desmedida de lucro – avanço sobre a pecúnia de quem tem menos – ,próprio do núcleo do capitalismo –, com a expansão do poder aquisitivo de bilhões de seres humanos, condenados a contemplar as maravilhosas vitrines do lado de fora da loja?

Ulpiano, em 228 d. C. (Digesto I), preconizava modestamente: Os preceitos do direito são estes: viver honestamente, não ofender a ninguém, dar a cada um o que é seu. 9:274

 

Natureza humana

 

O ser humano não funciona bem sob ameaça.

O ser humano não funciona bem em negativo.

O ser humano não funciona bem em sobressalto, acordado subitamente de madrugada, por exemplo.

O ser humano não funciona bem em série. Funciona melhor em paralelo com outros seres humanos.

 

Precisamos propor padrões éticos novos, claros e viáveis. Quais são eles?

 

A vida é uma coleção de oportunidades perdidas.

A vida também pode ser uma máquina de moer carne.

Todos temos de nos desdobrar, tentar dar conta:

 

Digladiar com os dois em mim

ser o São Jorge do meu dragão *

 

A nova Lei prevê e corrige tendências da natureza humana.

A Lei serve para corrigir e para amenizar a natureza humana.

A Lei é o organizador da distribuição dos movimentos pulsionais – caminhos socialmente úteis, dispostos ao longo do tempo.

Lei instrui o cidadão a desiludir-se de ilusões à-toa, vãs pretensões e de sonhos impossíveis.

Lei são instruções para a operação da polícia.

Lei é o grande instrumento de regulação da desestruturação do indivíduo na sua relação com a sociedade. É a Lei que indica o direito de o indivíduo constituir-se como tal, cidadão de direito próprio, imerso na legiferação comum à sua comunidade.

Lei indica, aponta, possibilita, afirma, expande aquilo que é: bom valor social.

 

Lei coarcta, interdita, proíbe aquilo que é disruptivo socialmente, censura, reprime, pune aquele que a infringe.

Lei sanciona e pune a dimensão biológica criminosa do ser humano.

É dessa forma que, apesar de tudo, a sociedade funciona e a cultura prevalece.

···

 

Na semana seguinte, sonhei que entrei na casa. Ali estavam pessoas familiares. Comiam algo esquisito, pareciam-me salgados recheados de carne deteriorada. Recusei. Eles comiam, falavam e bebiam. Aos poucos, fui-me sentindo crescentemente bem de estar na minha, no meio deles.

 

Não existe o demônio. O que há é homem humano.

 

 

 

Referências

 

1.    BAGGIO, Marco Aurélio. O psiquismo humano. São Paulo: Escuta, 1995.

2.    CASTRO, Ruy. O melhor do mau humor. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

3.    Catecismo da Igreja Católica. Petrópolis: Editora Vozes e outras, 1993.

4.    FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L&PM, 1994.

5.    FREUD, Sigmund. (1930)  O mal-estar na civilização. Edição Standard brasileira de obras psicológicas completas de. Rio de Janeiro: IMAGO, 1974.

6.    GUIMARÃES ROSA. Eduardo F. João Guimarães Rosa. (Coletânea organizada por). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: INL, 1983. (Retificar a colocação)

7.    PAGLIA, Camille. Personas sexuais: arte e decadência de Nefertite a Emily Dickinson. São Paulo: Companhia das Letras, 1982.

8.    PIRSIG, Robert M. Lila: uma investigação sobre a moral. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

9.    RÓNAI, Paulo. Dicionário universal Nova Fronteira de citações. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

10.          ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970.

11.          ____ . Tutaméia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

12.          Szondi, Luba. Cain y el cainismo en la história universal. Madri: Editorial Biblioteca Nueva, 1975.

13.          UTÉZA, Francis. JGR: Metafísica do Grande Sertão. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1994.

 

 

 

Unitermos – Violência. O Mal. Mudanças de paradigma. Nova ética. Liberdade. Direitos humanos. Natureza humana. Lei.

 
Resumo – O autor empreende ampla abordagem psiquiátrica acerca da gênese da maldade humana. Descreve a vertente daimônica, malévola, diabólica, violenta, do ser humano. Põe em evidência a importância das práticas sociais, civilizatórias, como possibilidade de acolhimento, processamento e despacho adequado da violência humana. Mostra que a construção da Lei tem sido o magno instrumento da cultura para fazer face à maldade ínclita à natureza humana.


* “Renascer”. Saint-Saëns- Altay Veloso. CD Valsa brasileira. Zizi Possi.

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