sexta-feira, 15 de março de 2013

A Potência de Existir


Mescolando pela segunda vez Michel Onfray e
Marco Aurélio Baggio, agora baseados no livro
 A Potência de Existir
São Paulo: Martins Fontes, 2010.
Michel Onfray

 

Marco Aurélio Baggio

 

Pulsão bovarística – sonhar com grandezas, delicias e idealidades românticas da vida e não vive-la realmente.

Ninguém se recupera de um dia ter sido rejeitado pela mãe.

Infancias postas sob o signo da negatividade.

 O abandonado torna-se abandonador.

Não se escapa de uma prisão não murada.

Excele- do verbo excelir.

 

Onde e quando o espaço para usufruir calmamente de um pouco de si?

O mundo dos vivos é um inferno.

Selvageria das hordas movidas pelo cérebro reptiliano.

Só crescemos oferecendo o gesto de paz necessário àqueles que soltaram os cachorros contra nós: a magnanimidade é uma virtude de adulto. Que eu não disponho!

Informado sobre a enorme potência das paixões tristes, quero a cultura e a expansão dessa “potência de existir”, seguindo a feliz fórmula de Espinosa, encastoada em sua Ética.

De livro a livro, reproduzem-se os mitos...

A filosofia não nasceu no século. VII a.C. com os Pré-socraticos. Existia antes em povos antecessores: sumérios, hititas, babilônios, hindus, persas, chineses..

Não surgiu dos gregos brancos. A democracia só existiu em Atenas. E não em toda a Grécia.

A nossa é uma civilização marcada há 2000 anos por uma visão cristã.

A historiografia dominante procede de um a priori platônico em virtude do qual o que procede do sensível é uma ficção. A única realidade é invisível, etérea, intangível. A verdade das Iidéias, excelência do mundo inteligível, beleza do conceito.

 Whitehead brinca: a tradição filosófica na Europa consiste numa sucessão de notas acrescentadas ao texto de Platão.

Vigora o principio cristico,celebrando a religião da Idéia e do idealismo. Sócrates, Platão e São Paulo E nos Pais da Igreja. E nos idealistas alemães..

A filosofia idealista, eis a religião revelada da Razão ocidental. Dualismo, alma imaterial. Reencarnação, desconsideração do corpo, o ódio à vida, o repudio às pulsões, o gosto pelo ideal ascético, a salvação após trespasse da carne ou a danação post-mortem dos pitagóricos, dos platônicos, dos cristãos convivem às mil maravilhas.

Mais tarde, o idealismo alemão iniciado por Kant e magnificado por Hegel: arrogante, suficiente, pretensioso, nacionalista.

 

Momento platônico.

Tempo cristão > – Descartes.

Idealismo alemão. Kant, Hegel e outros.

 

 Michel Onfray leciona na Universidade Popular de Caen.

 

Platão quis queimar a obra em auto de fé de Demócrito.

Hegel desqualificava os cínicos.

Epícuro desqualificado: um porco, o filosofo do Jardim.

Atacam a ataraxia e o atomismo.

O que incomodava os Pais de Igreja era o fato de que Epícuro ensinava que se devia  querer a felicidade na Terra, aqui e agora. A imanência , o real, a matéria, a vida, o vivo, tudo o que celebra a pulsão de vida. Preferia modestas proposições filosóficas viáveis a construções conceituais sublimes, postas em um mundo inalcançável e inabitável, criado como uma ficção para os tolos e crianças.

O projeto de Epícuro: O puro prazer de existir...a carne, o corpo, a felicidade, a alegria. Construir soluções com o mundo e com os homens efetivos.

Pascal diz que o EU é odioso. E utiliza 753 vezes a palavra EU em seus pensamentos.

O EU possui um estatuto singular: o de aprender o mundo a fim de penetrar alguns de seus segredos. O Hápax existencial deriva de um pensamento que provém da interação entre uma carne subjetiva que diz EU e o mundo que a contém. Surge do corpo, sobe da carne e provém das entranhas. Em algum momento ocorre – o não sei quê – o insight, a iluminação súbita, a vivência redentora e integradora das contradições e das tensões acumuladas no corpo e no psiquismo do filósofo. Seu Hápax existencial. Relâmpago que ilumina e configura o destino em potência ao se efetivar.

 

A decodificação de uma egodicéia.

  Corpo do artista tope de linha destinado ao conhecimento pelos abismos – Michaux.

É possível e desejável uma egodicéia, proveniente de um inconsciente vitalista, energético, imaterialista, histórico.

E não o platonismo que oferece o fantasma de um pensamento sem cérebro, de um reflexão sem corpo, de uma meditação sem neurônios, de uma filosofia sem carne, cujo texto paira no éter, sem raízes, idéias puras descidas diretamente do céu para se dirigir a alma sem extensão.

O Jardim de Epícuro é aberto a todos.

Com São Paulo, basta seguir suas cartas que acabou-se a vida filosófica. Ele pensou tudo por todos e para todos. C’est fini!

A teologia mata a filosofia.A teologia é a falsa ciência do deus. Não existe no Tanah nem em outras religiões.

Deus torna-se o único objeto possível de qualquer pensamento. E assim obstrui qualquer novo avanço em conhecimento acerca das coisas do mundo e do homem. Deus é a obturação  fajuta de nossa ignorância.

25- Filósofo deve dar prova de seus ensinamentos com seus comportamentos.

Palavra serve para trocar, comunicar, formular e não para separar.

Não há religião do verbo, da palavra...

Materialismo pragmático de Pierce -  1878.

A maior felicidade possível para o maior número de pessoas. Bentham e J.S.Mill.

Recusar o pensamento nebuloso.

Avançar em direção ao projeto obtendo resultados jubilosos.

Egodicéia é fruto de um utilitarismo pragmático, como epifania da razão.

Chamfort- imperativo categórico:

Frua e faça fruir, sem fazer mal nem a você nem a ninguém.

 

Ironista. Contraponho a teoria platônica do desejo como falta por uma democritiana do excesso que traz o risco do transbordamento.

A palavra Prazer histeriza ou paraliza. 29

Defendo o pensamento totalizante, abarcante, o sistema.

 Sou por uma erótica solar.

 

Epísteme judaica – cristã.

 Hoje, oVirtual parece mais verdadeiro que o real.

Ficção substitui a realidade.

Mundo devoto do presente, desconectado do passado e sem relação com o futuro.

Niilismo se difunde entre duas  civilizações que se descolam e se deslocam no avatar do espaço-tempo da História.

O Baixo Império romano vive entre o fim de uma epísteme pagã e greco-romana com os primeiros tempos de uma epísteme cristã.

Conviviam pléiades de gnosticismos, milenarismos, apocalípticos, o irracional generalizado - o hermetismo, o misticismo,  a  astrologia, a alquimia, a magia, a bruxaria...

Hoje vigora desinteresse pela prática religiosa dominical e pelos gadgets do Vaticano, a par de um  perigo ecológico planetário, de uma mundialização econômica liberal bruta, uma dominação do mercado, acompanhada de uma negação da dignidade e da humanidade da maioria das populações.

No entanto, persistem as lógicas que há 20 séculos impregnam o funcionamento da sociedade européia. Memes. Vírus funestos e daninhos, inoculados cedo, sem autorização,  em nossas até então inocentes crianças.

Deus está longe de ter morrido, mesmo após Leucipo, Nietzsche e Freud.

 Pessoas cultivam o gosto do irracional para responder ao trágico do real.

A laicidade com carimbo de 1905 ainda não se tornou dinâmica, evolutiva, dialética, (charmosa e captativa MAB), numa palavra, pós-moderna. Ainda reservamos e deixamos  ao outro um lugar cardeal:

- Deus ou amor ao próximo;

- O livre-arbítrio preconizado ignora os determinismos da carga genética, da constituição, dos condicionamentos familiares, das cruéis vicissitudes econômicas, sociais, políticas e históricas. Donde a crença  na mentira do LIVRE-ARBITRIO,  que implica atribuir-nos perfeita e plena  responsabilidade pessoal por nossos ensandecidos atos e comedimentos, o que justifica a sanção, seguida de punição por parte do GRANDE OUTRO, esse que se arvora nosso falso criador e nosso dono. Para logo nos acenar com a remissão e a salvação em um outro éden jamais concretizado..

-         Não há poder salvífico na dor, na doença, no sofrimento, no sacrifício,  nem  na morte.

-          – Deus não dá a doença, muito menos a cura.

 

         Vaticano – um Estado de Opereta.

 

         Acontecem transmissões irracionais minudentes, a família, a sociedade e a mídia injetam, inoculam, internalizam a epísteme – os memes – judaicos e cristãos, indecentemente e sem autorização, no corpo inocente e plástico de cada criança, determinando sua progressiva identidade como pessoa e como grupo.

         A descristianização não ganha nas vias de fato, na marra.

Onfray acredita no desmonte teórico e na  reconquista de oxigenadas novidades mais adequadas pelas ( novas e melhores MAB) idéias.

Em todo fim de civilização, pulula o irracional, o pensamento mágico. Quando uma cultura rui, após uma longa desagregação, é sempre em beneficio de efervescências pulsionais instintivas, animais. A ponta nobre cede lugar ao magma das energias primitivas. Após a razão, o insensato prevalece e recrudesce.

 

A Europa foi cristã. Hoje, é  cada vez menos, em face de um espetacular processo de cansaço pelas incongruências contidas nas mentiras cristícolas.

Um ateísmo verdadeiro entroniza as luzes da razão e as clarezas da filosofia ocidental, a partir dos pioneiros abade Meslier, Holbach, La Mettrie. Ateismo pós-cristão.

 

O principio bovarístico afirma que os homens não querem se ver tais como são: limitados em sua duração, escassos em sua potência, incipientes em seu saber, e paucipotentes em seu poder.

Em consequência, eles ficcionam um personagem conceitual (no qual injetam MAB) dotado dos atributos que lhe faltam. Assim, Deus é eterno, imortal, onipotente, onipresente, onisciente, protetor, misericordioso, salvador, etc. Mas também, desde Javeh, ciumento, incontentável, raivoso, mau, castigador, exclusivista, carente de mimos, implacável, indecidido, ambíguo e exigente. (MAB).

Deus é alienação forjada pelos homens segundo o principio da hipóstase de suas próprias impotências, concentradas numa força inumana, adorada como uma essência separada de si. 39

Elaboremos uma moral mais modesta, no entanto, capaz de produzir efeitos reais. Não mais uma ética do herói, do santo, do líder, do star, do campeão, docapitalista, da virgem prolífica, da mãe, da esposa, mas uma ética do sábio.

Modesta mas factível e viável, como preconizam Epicuro e Lucrécio.

 

Uma regra imanente do gozo

 

Enquanto Deus triunfa, a moral é uma subseção da teologia. Deus basta e serve de resposta para tudo. A teologia basta para tudo, mesmo quando glossolálica, falastrônica, verborrágica, e convoluta em suas trampolinagens e volteios explicativos.

O clero dá plantão 24 horas todo dia. E dá pitaco em tudo: perguntou? Eles respondem, discursos avelhantados, prontos a enganar quem se compraz em desfrutar  de não verdades modernas.

A teologia é falsamente a ciência do divino.

 A Revolução Francesa, Marx, Nietzsche, Freud libertam a moral e a política do céu e da teologia.

Milenarismo, o pensamento apocalíptico, o discurso messiânico e profético embebiam as odisséias sociais e socialistas, utópicas e comunistas.

A nojenta guerra de 14-18 sangrou o Ocidente.

A saída foi estética: em 1917 com o anartista Marcel Duchamp  pulverizou 20 séculos de teoria clássica do Belo.

Plotino: cada um deve ser escultor de sua estátua. A priori, o ser é oco, é vazio. A posteriori, ele é o que dele foi feito e o que se fez dele. A obra se constrói. Como o ser. A existência precede a essência.  44

Produzimos um EU, um Ego, uma Subjetividade radical. A epifania de uma soberania inédita: um EU maiúsculo.

Não um gênio, um herói ou um santo. Nem um star.

Escrita de si num modo lógico e operante MAB.

 Somente a força operativa de um EU autoriza o deslanchar de uma moral.

O EU querido, injetado por uma potência, espadana-se no entrejogo constituído no embate com os determinismos: genético, histórico, social, econômico, psíquico, geográfico, sociológico, relacional, ao sabor frutuoso do acaso, e mesmo do intencional. Fatores atuam do exterior ,a interferir e a moldar um Ego que recebe, acolhe, integra, seleciona, elabora selvagemente (impenitentemente), todas as forças vindas do arrevezo e da brutalidade do mundo, descompassado, corrompido e muito criticável.

A assistemática das assistências curativas dançam em torno desses Egos falhos, desses EUS quebrados, identidades inacabadas, seres fracassados em seu projeto perturbado de vir a ser.

Há necessidade de um adestramento neuronal.

Desde Leucipo, contra a ficção deleuziana de um corpo sem órgãos.

O corpo é a grande razão, instruindo pela outra grande razão que é o cérebro. Com Nietzsche.

A moral se aprende. É uma rede neuronal cabeada, forjada pelos pais, pelos educadores, a família, o meio, a época.47

Interação entre individuo e sociedade: a moral invisível se reinaugura como ética particular, pessoal, temporal e imanente.

É imperativa a construção de um cérebro ético para uma revolução política.

Intersubjetividade pacificada, alegre, feliz. Uma paz psíquica; uma tranquilidade em ser. Relações fáceis com o outro. O refinamento, a polidez, a cortesia, a boa-fé, o respeito à palavra emprenhada; a coerência entre palavras, os fatos e feitos.

Submissão drástica do animal em cada um e o nascimento do humano nos homem.

Evitar e suplantar negatividades: fissuras, fragilidades, rachaduras, incompletudes, partes de sombra, dominação da pulsão de morte, sádica, masoquista, inconscientes, ganhos inteiramente para a destruição ou para a autodestruição.

Deficientes ou delinquentes relacionais. São aqueles todos incapazes decotrair, logo, de manter, qualquer relação ética.  Evita-los com todo esgueiramento de um belo toureiro.

 – Todo psiquismo danificado corrompe o que toca.

O hedonismo busca o prazer e evita o desprazer. Busca uma escultura de si: Eumetria.

Evitar por em risco o núcleo duro da sua identidade.

Não amar quem é detestável.

         O sal da existência é a BONDADE. Amor, afeição, ternura, doçura, prestimosidade, delicadeza, civilidade, cordialidade, polidez, amenidade, gentileza, atenção, cortesia, clemência, dedicação, longanimidade, magnanimidade, prontidão, doação. Essas virtudes criam a excelência – areté – de um vinculo.

A ética é a questão de vida cotidiana, num adejar de borboleta, nas encarnações infinitesimais no tecido fino das relações intimas humanas.

 

Epícuro: não concordar com um prazer aqui que custa um desprazer logo depois. 54

 

Fruição sem consciência -  como nas drogas de curtição – acarreta inexorável ruína da pessoa.

O sofrimento é o mal absoluto.

Há prazer real em ser ético e em praticar a moral, em virtude da solicitação do feixe hedônico dopaminérgico das recompensas na massa cinzenta.

A preocupação com o outro – o núcleo duro de toda a moral – esta implicada na aritmética dos prazeres pessoais.

Moral é a arte minimalista de detalhe: um gesto, um sorriso, um elogio, uma atenção. 55

E não a pregação laica de um filosofo que faz malabarismos com o Bem em si ou com a Virtude  postada num absoluto.

O hábito pressupõe o adestramento neuronal.

 Fora do campo etológico, de comportamento animal. Somente as civilizações fissuradas, submetidas por mais fortes que ela, praticam a impolidez em série.

 

Uma erótica solar  O ideal ascético

 

O corpo esquizofrênico europeu, que se odeia, que salva em si a ficção de uma pretensa alma imaterial e imortal e que termina fruindo da pulsão de morte – Judaica, Pitagórica, Platônica, Cristã, Escolastica, idealista, alemã.

Uma libido que se expressa como miséria sexual, derivada das pulsões mais brutas do cérebro reptiliano. Nenhuma arte do gozo Católica. Mito do desejo como carência e não como busca de completude.

Procura-se o inexistente: o príncipe encantado e obtém-se o desencanto, a decepção e o ressentimento.

Nunca o real suporta a comparação com o ideal.

Eros provém do clinamen das partículas ( a queda, a declinação, o entrecruzamento dos átomos),  preconizadas em intuição pelo filósofo materialista.

Donde a necessidade de uma erótica pós-cristã, solar e atômica.

Onde o bovarismo fala de amor, de alma irmã, de príncipe e de princesa, a razão enxerga um contrato social ou um seguro de vida existencial.

O discurso amoroso mascara a realidade da espécie. A razão dos  feromônios, lei da espécie do mamífero com neocórtex.

Seccionado, encontrando sua metade, o par não terá de perfazer seu amálgama existencial pela produção de um terceiro,  de um quarto...uma ninhada de filhos. MAB

Para ser e durar, a sociedade deve enjaular a potência selvagem e sem lei do desejo em estado nascente. Reduzir a nada a potência do feminino.

Os homens codificam o sexo. Para suprir o libido, o um ungido de Deus determina que o sexo é sujo, que o desejo é culpado, o prazer imundo e a mulher definitivamente tentadora e pecadora.

Ver as elucubrações de Paulo de Tarso em suas Epístolas concedendo o sexo apenas dentro da castidade familiar. A libido enlanguece na repetição e no tédio, tornando o individuo apaixonado libertario e nômade, em sujeito acomodado, a servidão se torna voluntária. Alienado, a vitima acaba por encontrar prazer na renúncia de si.

 

II – Uma libido literária

 

Amor x sexualidade x procriação.

Eros leve.

A relação sexual visa desfrutar o puro presente viver o instante magnificado, esgotar o aqui e agora em sua quintessência. Por uma intersubjetividade leve, doce e terna.

Construir situações eróticas leves , define o primeiro grau de uma arte de amar pós-cristã, digna deste nome.

O puro instante não exclui sua duplicação, sua multiplicação. Constrói-se uma história erótica peça por peça.

 

A máquina solteira.

 

Conserva a prerrogativa e o uso de sua liberdade em vez de:

 

Nada, tudo, nada

quando se coloca no outro tudo de que se quer e se precisa, para um novo padrão de relação

Nada, mais, muito.

 

Só existe a lei da ausência da lei: só existem os casos particulares e a necessidade que tem cada um de construir de acordo com os projetos que convém à sua idiossincrasia. O bovarismo nega a realidade, mas o real mina o edifício conceitual platônico e desfaz a ficção mantida unicamente pela vontade de crer nas histórias das carochinhas.

Escolha pela esterilidade voluntária.

A grade analítica da visão pergunta:

-         Por que fazer filhos?

O adestramento neuronal necessário á construção de um filho não tolera em só mito de desatenção. Exige presença permanente sem trégua.

Você destrói um ser com um silêncio, uma omissão, um suspiro, uma resposta diferida, sem perceber, cansado pela vida cotidiana.

O que quer que você faça, a educação é sempre fracassada. Disse Freud.

Confusão entre a mulher, a mãe, a esposa e a operária no mercado confunde  a cabeça do filho.

 

III – A hospitalidade carnal.

                  As condições lúdicas.

 

O adultério burguês, os intercâmbios tarifados, do inevitável trio clandestino.

A arte combinatória do Eros leve, supõe a diversidade de parceiros. Cada um dá o que tem, o que pode e o que quer disponibilizar. Ciúme, inveja, ressentimento, possessão, desejo de vingança, são demonstrações evidentes da verdade etológica, surgidos da besta-fera reptiliana. Daí a necessária discrição...Por uma libertinagem feminina. A  natureza, faz de seu determinismo biológico, um destino. Sobretudo para com as mulheres, já nos advertia Camille Paglia, em 1992.

 

IV – Uma estética cínica.

 

1 - Bibelôs da teologia negativa são as glossolalias sobre o inefável, o indizível, o incomunicável, o velado e o mistério insondável.

A intenção do artista produz a obra.

A arte contemporânea surgiu após o primeiro pré-feito.

O belo morreu junto com Deus, em sua relação homotética – Belo o Deus tocam seus negócios. Desteologização da arte. Rematerialização do seu objetivo.

Os tempos contemporâneos virtuais e digitais, nanoeletrônicos, conhecem tão somente o puro e simples presente espesso e inconsequente. Na proliferação de possibilidades, o melhor vai de par com o pior, a obra-prima se avizinha da porcaria.     

 

2 – Uma psicopatologia da arte.

 

Modernidade niilista, mercantil e liberal domina o uso de objetos.

Vigarice: qualquer nulidade plástica é legitimada por uma douta citação de Deleuze ou de franceses.

Platão persiste. Religião da mercadoria, com seu clero: galerias, colecionadores, compradores.

A arte provém de um mundo exterior a arte contemporânea serve ce espelho a nossa época desagregada, cindida, corrompida, inconsequente e muito criticável.

 

3 – Uma arte cínica.

 

Hegel chega atrasado para dizer uma tolice: Diógenes só tem anedotas a contar.

O cinismo é uma antiplatonismo, anti-idealista, antiespiritualista, materialista,

Só existe o real e só ele conta, a realidade se reduz á sua materialidade. A ironia, a subversão, a provocação, os modelos ativam o melhor dos métodos. O corpo pagão é o único bem que dispomos a vida é uma festa.

Evitar o Fedon que nega a vida.

A idéia não existe, pois só existe a realidade tangível, sensível, palpável, material e concreta.

Cinosargo. Academia. Pórtico.

A forma não é em fim: ela porta, sustenta, enquadra, revelo o fundo.
Forma que avaliza a celebração da vacuidade, do vazio de conteúdo. 

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