quarta-feira, 20 de março de 2013

CATULO E TERÊNCIO


CATULO E TERÊNCIO

 

Marco Aurélio Baggio

 

         Encontraram-se de passagem, um pelo outro, no Tip-Top.

 

-         Catulo?! – disse um. O outro, surpreso, reconheceu pela voz.

-         Terêncio?!

 

Um abraço apertado selou  reencontro dos dois amigos que não se viam havia mais de trinto anos. Tinham sido crianças pequenas, lá no Carlos Prates.. Tinham sido batizados com nomes romanos, uma coincidência entre vizinhos. Atravessaram a infância juntos, com a molecada da Rua Prados, numa época em que o máximo que a vida podia oferecer era um piquenique com o padre  a possibilidade remota, de um dia, vir a ganhar uma bicicleta.

 

-         Quê que há com o teu piru?

-         Tá tudo azul!...

 

Cumprimentaram-se com essa antiga fórmula que era corrente e comum, lá e então. Catulo formara-se em medicina, fizera carreira progressisra, era bem conceituado, especializara-se em oncologia, essas coisas esquisitas.

 

Terêncio fora para o mundo dos negócios, arrojado, empreendedor, soubera acumular patrimônio na época do “Brasil Grande”. Há anos fazia lobbies em Brasília. As famílas davam, remotamente, notícias de um para o outro.

 

-         Que tem feito? – perguntou um.

 

E o outro:

 

-         Negócios ruins... clientela escassa... essa crise que não acaba...

 

Sabiam que logo o papo iria descambar para o esporte da preferência nacional: queixumes e lamúrias.

 

Terêncio, sagaz, propôs:

 

-         Olha, nosso tempo é curto. Vamos comemorar contando piadas. Eu conto uma, você conta outra... que tal?

 

Catulo começou:

 

-         Conhece aquela da galinha poedeira que foi atropelada por um caminhão? Aos poucos ela se refaz, sacode as penas e exclama:

-         “- Isso é que é macho... Não é como esse galinhos de merda que andam por aí...”

 

Terêncio contou a do português esperto que observava na fila da rodoviária como o brasileiro comprava passagem.

-         Então o sujeito pediu:

-          “- Por favor, uma passagem para Aparecida. Ida.” O português não teve dúvidas. Lascou:

-         “- Uma passagem para Aracaju. Ju.”

 

Catulo retrucou:

 

-         Peguntaram ao português se sua mulher era boa  de cama.  Ele disse: “-Não sei, uns dizem que sim, outros dizem que não...”

 

Terêncio contou aquela do homem que estava finando:

 

-         Alguém procura uma vela. Casa muito pobre, não tinha. Uma senhora piedosa deu uma idéia: “- Põe um pouquinho de areia na palma da mão dele. Depois coloca uma brasa acesa.” Dito e feito. E o moribundo, conformado: “- Morrendo e aprendendo...”

 

-         Ah, por falar nisso, tô vindo do laboratório. Eu tinha um carocinho aqui no pescoço, o médico tirou. Olha o resultado...

 

Constrangido, Catulo abriu o envelope e leu: Melanoma.

 

-         Coisinha à-toa, né não? Sai na urina... Não é importante, né – perguntou Terêncio.

-         É. Bobaginha... – respondeu Catulo.

 

E lá se foi, viçoso e alegre, o Terêncio.

 

Catulo saiu pensando na precariedade de tudo, no absurdo da vida, no escândalo da doença. Sentiu um nó na garganta e, já dentro do carro, desabou a chorar

 Depois,  aos poucos, com raiva e com força, veio, revolvida de seus intestinos, uma força de definição de que não!, continuaria clinicando até o último dia válido de sua vida. Viu-se como um estranho sacerdote de uma antiga prática que o religava à condição de desamparo da humanidade. De repente, expletou , de si ouviu:

 

-         Vivendo e aprendendo...

 
           Riu gostosamente do bom espírito do amigo condenado...

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