CATULO
E TERÊNCIO
Marco Aurélio Baggio
Encontraram-se de passagem, um pelo outro, no Tip-Top.
-
Catulo?! – disse um. O outro, surpreso, reconheceu pela
voz.
-
Terêncio?!
Um abraço
apertado selou reencontro dos dois
amigos que não se viam havia mais de trinto anos. Tinham sido crianças
pequenas, lá no Carlos Prates.. Tinham sido batizados com nomes romanos, uma
coincidência entre vizinhos. Atravessaram a infância juntos, com a molecada da
Rua Prados, numa época em que o máximo que a vida podia oferecer era um
piquenique com o padre a possibilidade
remota, de um dia, vir a ganhar uma bicicleta.
-
Quê que há com o teu piru?
-
Tá tudo azul!...
Cumprimentaram-se
com essa antiga fórmula que era corrente e comum, lá e então. Catulo formara-se
em medicina, fizera carreira progressisra, era bem conceituado,
especializara-se em oncologia, essas coisas esquisitas.
Terêncio
fora para o mundo dos negócios, arrojado, empreendedor, soubera acumular
patrimônio na época do “Brasil Grande”. Há anos fazia lobbies em Brasília. As famílas davam, remotamente, notícias de um
para o outro.
-
Que tem feito? – perguntou um.
E o
outro:
-
Negócios ruins... clientela escassa... essa crise que não
acaba...
Sabiam
que logo o papo iria descambar para o esporte da preferência nacional: queixumes
e lamúrias.
Terêncio,
sagaz, propôs:
-
Olha, nosso tempo é curto. Vamos comemorar contando piadas.
Eu conto uma, você conta outra... que tal?
Catulo
começou:
-
Conhece aquela da galinha poedeira que foi atropelada por
um caminhão? Aos poucos ela se refaz, sacode as penas e exclama:
-
“- Isso é que é macho... Não é como esse galinhos de merda
que andam por aí...”
Terêncio
contou a do português esperto que observava na fila da rodoviária como o
brasileiro comprava passagem.
-
Então o sujeito pediu:
-
“- Por favor, uma
passagem para Aparecida. Ida.” O português não teve dúvidas. Lascou:
-
“- Uma passagem para Aracaju. Ju.”
Catulo
retrucou:
-
Peguntaram ao português se sua mulher era boa de cama.
Ele disse: “-Não sei, uns dizem que sim, outros dizem que não...”
Terêncio
contou aquela do homem que estava finando:
-
Alguém procura uma vela. Casa muito pobre, não tinha. Uma
senhora piedosa deu uma idéia: “- Põe um pouquinho de areia na palma da mão
dele. Depois coloca uma brasa acesa.” Dito e feito. E o moribundo, conformado:
“- Morrendo e aprendendo...”
-
Ah, por falar nisso, tô vindo do laboratório. Eu tinha um
carocinho aqui no pescoço, o médico tirou. Olha o resultado...
Constrangido,
Catulo abriu o envelope e leu: Melanoma.
-
Coisinha à-toa, né não? Sai na urina... Não é importante,
né – perguntou Terêncio.
-
É. Bobaginha... – respondeu Catulo.
E lá se
foi, viçoso e alegre, o Terêncio.
Catulo
saiu pensando na precariedade de tudo, no absurdo da vida, no escândalo da
doença. Sentiu um nó na garganta e, já dentro do carro, desabou a chorar
Depois,
aos poucos, com raiva e com força, veio, revolvida de seus intestinos,
uma força de definição de que não!, continuaria clinicando até o último dia
válido de sua vida. Viu-se como um estranho sacerdote de uma antiga prática que
o religava à condição de desamparo da humanidade. De repente, expletou , de si
ouviu:
-
Vivendo e aprendendo...
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