Aleijadinho
Marco Aurélio Baggio
Primeiro gênio da raça brasileira.
Viveu entre 76 ou 84
anos, produziu durante 57 anos um total catalogado de 425 obras. Provavelmente
aparecerão dezenas de obras suas ainda desconhecidas e não catalogadas.
Marceneiro.
Entalhador. Escultor. Arquiteto. Pobre,
feio, mulato, infeliz, com a vida cheia de desditas e com o corpo
crescentemente mutilado, viveu trabalhando para se sustentar. Artista em uma
Minas no auge do ciclo do ouro, atravessou a decadência das minas. Presenciou a
Inconfidência Mineira, mantendo-se discriminado e desconhecido pelos ricos,
pelos poderosos e pelos intelectuais inconfidentes. O toreuta foi ignorado por
todos os membros desse movimento da elite branca e rica de Minas. Viveu sua
fase áurea de maturidade artística em plena decadência econômica da colônia.
Foi o artista máximo para as magnificentes obras que, habitualmente, se
encomendam nos períodos de decadência de uma cultura.
Antônio
Francisco Lisboa aprendeu ofício com seu pai, arquiteto português nascido em
Jesus de Odivelas, no Concelho de Loures, no Arcebispado de Lisboa.
Inteligente, soube
aprender modos, técnicas e estilo com os poucos livros de arte e de arquitetura
que aqui chegaram. Eterno aprendiz de si próprio.
Arguto, trabalhador,
agenciou 4 escravos para expandir sua mão de obra. Desenvolveu seu modo próprio
de trabalhar. Criou um estilo conservador, hoje classificado de barroco tardio:
barroco mineiro, cujo chefe de fila e expoente máximo foi o próprio
Aleijadinho. Aprendeu fazendo. E fazendo, o fez muito e vário. Exemplo único de
mulato pobre vivendo em país escravocrata, cujo gênio interior possibilitou a
criação de uma obra que iguala, nos trópicos, à de Bernini, na Itália. Primeiro
gênio brasileiro, precursor de outro
genial mulato, pobre, feio, baixo e epiléptico que o sucedeu no tempo: José
Maria Machado de Assis.
Gênio não pede para nascer. Gênio não se
encomenda. Gênio acontece. Aparece. Aflora. Aperfeiçoa-se por si, e de si e
expande para o mundo, e se doa para os pósteros.
Nos ocos fundos do
sertão dos Cataguás, surgiu o ouro, vilão motor da cobiça que motiva a avidez
dos homens a fazer mais de si e por si, e assim, cometem façanhas. As 900
toneladas de ouro bateadas nas datas frias dos córregos ou nas grupiaras das
encostas das serras, extraídas durante o século dezoito, quatro quintos aqui
ficaram. Só um quinto foi alimentar a dispendiosa corte parasita portuguesa. Só
um quinto, 180 toneladas, atravessou o Atlântico e o Canal da Mancha para
financiar a Revolução Industrial inglesa.
O ouro das Minas gerou
este abstruso esplendoroso inusitado patrimônio sem par no mundo, que são as
nossas nove Vilas do Ouro. Gerou o germe da nacionalidade brasileira e
instituiu o anseio pela liberdade, que são as duas pedras de toque do Brasil. E
já pelo fim do ciclo, riqueza assimilada e consolidada, prosperou a mania de
construir igrejas em profusão e suntuosidade. Os aventureiros do século dezoito
eram homens de crendice e de fé. Ansiavam pela proteção do deus e dos santos
que cultuavam. Depois de construir sobrados, mobiliá-los, adquirir faianças e
piano, roupas de seda e alguma prataria, não havia o que fazer com o dinheiro
que sobrava. Há uma regra econômica: Quanto maior a decadência, mais a riqueza
é acumulada na posse de poucos. Outra regra diz que rico necessita exibir o
poderio de sua riqueza. Aleijadinho, com o talento de sua talha e a beleza de
seu estilo, recebeu dezenas de encomendas para confeccionar obras de arte em
sua oficina. Contratos foram cumpridos em diferentes lugares pelo interior
desses sertões do ouro, do ferro, do cedro e da esteatita.
Antônio Francisco
Lisboa, homem de seu tempo, soube aproveitar o material e as condições que lhe
estavam disponíveis para criar a excelência de sua arte. Deixou obras primas em
Ouro Preto, em Mariana em São João Del Rey, em Sabará, em Caeté, em Tiradentes
e em Santa Luzia. Entre outros.
Seus doze profetas
hebreus, postados no adro da Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do
Campo, é sua mais primorosa obra. Única brasileira a constar em todo livro
europeu dedicado ao período Barroco.
Márcio Jardim, em
definitivo estudo, descreve cinco fases bem delineadas na progressão da
excelência na obra do grande artista mineiro. E estabelece, com rigor, 27
estilemas que tipificam e dão expertise
e chancela do Aleijadinho a uma obra.
Biógrafos e médicos
analisam e discutem a natureza das doenças que o aleijou. Lepra tuberculóide?
Porfiria cutânea tardia? Acidente de trabalho, com queda e fraturas mal consolidadas?
O certo é que Antônio
Francisco Lisboa, a partir de 1777, foi acometido de doença crônica insidiosa,
dolorosa, deformante, não contagiosa e não demencial. Em 1812, sofreu acidente
vascular cerebral que, absolutamente, o incapacitou até sua morte, ocorrida
dois anos depois.
Dotado de excelente vigor congênito, o
toreuta mulato estropiado, ainda assim teve vida longa. Sofreu dores e deformidades durante 37 anos.
Apesar disso, seu período mais rico, mais sublime, foram os últimos anos de sua
vida. Trabalhou até aos 74 anos.
Exceto os dois últimos
anos, nos quais jazeu cego, indignado e abandonado em cima de três tábuas,
entregue aos cuidados de sua generosa nora Joana Lopes. Faleceu em 18 de
novembro de 1814.
Há homens que fazem
guerra. Outros espargem ignorâncias. Tantos vivem para cometer maldades. Há
homens que criam... E ao criar, dão vazão cada vez mais ao seu talento, até que
este se ilumina com o brilho da genialidade. Assim, uma obra humana de
excelência atravessa os séculos, enriquecendo o patrimônio artístico,
histórico, cultural de um povo. Aqui, em Ouro Preto, viveu e se criou esse
gênio mulato, nosso primeiro e maior artista.
Esta Casa dos Contos
possui obras com a marca estilística provenientes das mãos deformadas de
Antônio Francisco Lisboa.
E não apenas: esta
Casa dos Contos, construída pelo contratador João Rodrigues de Macedo, foi
contemporânea da forja do quinto do ouro para Sua Majestade, deus a tinha.
Presenciou também a Inconfidência Mineira. Serviu de prisão aos Inconfidentes.
Aqui; em suas dependências, amanheceu morto no dia 4 de julho de 1789, o
inconfidente árcade Cláudio Manoel da Costa. De alguma forma, assassinado. Por
si ou por outrem...
Poeta lírico,
intelectual, culto e brilhante, nos deixou primores literários como seu poema Vila Rica, composto de dez cantos.
A Arcádia de Minas
Gerais, pelos seus fundadores em 1973, houve por bem escolher o nome de Cláudio
Manoel da Costa como seu patrono. Agora, em novembro de 2009, nossa diretoria
houve por bem confeccionar a Medalha Cláudio Manoel da Costa que será uma
galardão ostentado pelos Árcades e por outras pessoas gradas, em nossas
solenidades.
Ouro Preto, nossa
admirável sempre capital, hoje administrada por este homem de cultura que é o
Prefeito Ângelo Osvaldo de Araújo Santos, promove com brilho, a 32º Semana do
Aleijadinho, mostrando para o Brasil e para o mundo o acervo que nos legou este
homem de gênio. Como Presidente da Arcádia de Minas Gerais, sinto-me em
sintonia com tal comemoração. E como Presidente Emérito do Instituto Histórico
e Geográfico de Minas Gerais, agradeço o convite do árcade Eugênio Ferraz para
participar deste evento cultural magnificente. Como Aleijadinho, sou também um
constante aprendiz.
Nos últimos anos do
século galante – o século XVIII -, num país escravocrata perdido do outro lado
do Atlântico, um pobre bastardo mestiço, filho de escrava africana e de pais
português, produz esta obra sublime, a última efígie (aparição) válida da
civilização do Ocidente, evocada pela mão e pela vontade férrea de um homem
quase ignorado pelos grandes de seu tempo. Antônio Francisco Lisboa, aquele a
quem a vida encheu de desditas, mas que transcendeu em glórias perenes.
Os doze profetas são o ponto alto da
escultura brasileira. São concepções geniais do Aleijadinho.
O mulato criou os Profetas, imaginou-os,
concebeu-os, através das leituras do antigo testamento. Imprimiu neles a
chancela de seu gênio. A um talento excepcional, somaram-se dedicação
concernida, concentração na tarefa, crescimento em habilidade mediante
exercício diuturno, acrescidos de inteligência posta a serviço da obra, dando
seqüenciamento em trabalhos de marcenaria, de talha, de escultura, de
engenharia e de arquitetura. Tudo isso coroado em fecho de abóboda, em pedra de
toque, pela vontade de fazer, de criar e de transcender.
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