quarta-feira, 20 de março de 2013

Aleijadinho


Aleijadinho

Marco Aurélio Baggio

 

            Primeiro gênio da raça brasileira.

            Viveu entre 76 ou 84 anos, produziu durante 57 anos um total catalogado de 425 obras. Provavelmente aparecerão dezenas de obras suas ainda desconhecidas e não catalogadas.

            Marceneiro. Entalhador. Escultor. Arquiteto.  Pobre, feio, mulato, infeliz, com a vida cheia de desditas e com o corpo crescentemente mutilado, viveu trabalhando para se sustentar. Artista em uma Minas no auge do ciclo do ouro, atravessou a decadência das minas. Presenciou a Inconfidência Mineira, mantendo-se discriminado e desconhecido pelos ricos, pelos poderosos e pelos intelectuais inconfidentes. O toreuta foi ignorado por todos os membros desse movimento da elite branca e rica de Minas. Viveu sua fase áurea de maturidade artística em plena decadência econômica da colônia. Foi o artista máximo para as magnificentes obras que, habitualmente, se encomendam nos períodos de decadência de uma cultura.

            Antônio Francisco Lisboa aprendeu ofício com seu pai, arquiteto português nascido em Jesus de Odivelas, no Concelho de Loures, no Arcebispado de Lisboa.

            Inteligente, soube aprender modos, técnicas e estilo com os poucos livros de arte e de arquitetura que aqui chegaram. Eterno aprendiz de si próprio.

            Arguto, trabalhador, agenciou 4 escravos para expandir sua mão de obra. Desenvolveu seu modo próprio de trabalhar. Criou um estilo conservador, hoje classificado de barroco tardio: barroco mineiro, cujo chefe de fila e expoente máximo foi o próprio Aleijadinho. Aprendeu fazendo. E fazendo, o fez muito e vário. Exemplo único de mulato pobre vivendo em país escravocrata, cujo gênio interior possibilitou a criação de uma obra que iguala, nos trópicos, à de Bernini, na Itália. Primeiro gênio brasileiro, precursor  de outro genial mulato, pobre, feio, baixo e epiléptico que o sucedeu no tempo: José Maria Machado de Assis.

Gênio não pede para nascer. Gênio não se encomenda. Gênio acontece. Aparece. Aflora. Aperfeiçoa-se por si, e de si e expande para o mundo, e se doa para os pósteros.

            Nos ocos fundos do sertão dos Cataguás, surgiu o ouro, vilão motor da cobiça que motiva a avidez dos homens a fazer mais de si e por si, e assim, cometem façanhas. As 900 toneladas de ouro bateadas nas datas frias dos córregos ou nas grupiaras das encostas das serras, extraídas durante o século dezoito, quatro quintos aqui ficaram. Só um quinto foi alimentar a dispendiosa corte parasita portuguesa. Só um quinto, 180 toneladas, atravessou o Atlântico e o Canal da Mancha para financiar a Revolução Industrial inglesa.

            O ouro das Minas gerou este abstruso esplendoroso inusitado patrimônio sem par no mundo, que são as nossas nove Vilas do Ouro. Gerou o germe da nacionalidade brasileira e instituiu o anseio pela liberdade, que são as duas pedras de toque do Brasil. E já pelo fim do ciclo, riqueza assimilada e consolidada, prosperou a mania de construir igrejas em profusão e suntuosidade. Os aventureiros do século dezoito eram homens de crendice e de fé. Ansiavam pela proteção do deus e dos santos que cultuavam. Depois de construir sobrados, mobiliá-los, adquirir faianças e piano, roupas de seda e alguma prataria, não havia o que fazer com o dinheiro que sobrava. Há uma regra econômica: Quanto maior a decadência, mais a riqueza é acumulada na posse de poucos. Outra regra diz que rico necessita exibir o poderio de sua riqueza. Aleijadinho, com o talento de sua talha e a beleza de seu estilo, recebeu dezenas de encomendas para confeccionar obras de arte em sua oficina. Contratos foram cumpridos em diferentes lugares pelo interior desses sertões do ouro, do ferro, do cedro e da esteatita.

            Antônio Francisco Lisboa, homem de seu tempo, soube aproveitar o material e as condições que lhe estavam disponíveis para criar a excelência de sua arte. Deixou obras primas em Ouro Preto, em Mariana em São João Del Rey, em Sabará, em Caeté, em Tiradentes e em Santa Luzia. Entre outros.

            Seus doze profetas hebreus, postados no adro da Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo, é sua mais primorosa obra. Única brasileira a constar em todo livro europeu dedicado ao período Barroco.

            Márcio Jardim, em definitivo estudo, descreve cinco fases bem delineadas na progressão da excelência na obra do grande artista mineiro. E estabelece, com rigor, 27 estilemas que tipificam e dão expertise e chancela do Aleijadinho a uma obra.

            Biógrafos e médicos analisam e discutem a natureza das doenças que o aleijou. Lepra tuberculóide? Porfiria cutânea tardia? Acidente de trabalho, com queda e fraturas mal consolidadas?

            O certo é que Antônio Francisco Lisboa, a partir de 1777, foi acometido de doença crônica insidiosa, dolorosa, deformante, não contagiosa e não demencial. Em 1812, sofreu acidente vascular cerebral que, absolutamente, o incapacitou até sua morte, ocorrida dois anos depois.

Dotado de excelente vigor congênito, o toreuta mulato estropiado, ainda assim teve vida longa.  Sofreu dores e deformidades durante 37 anos. Apesar disso, seu período mais rico, mais sublime, foram os últimos anos de sua vida. Trabalhou até aos 74 anos.

            Exceto os dois últimos anos, nos quais jazeu cego, indignado e abandonado em cima de três tábuas, entregue aos cuidados de sua generosa nora Joana Lopes. Faleceu em 18 de novembro de 1814.

            Há homens que fazem guerra. Outros espargem ignorâncias. Tantos vivem para cometer maldades. Há homens que criam... E ao criar, dão vazão cada vez mais ao seu talento, até que este se ilumina com o brilho da genialidade. Assim, uma obra humana de excelência atravessa os séculos, enriquecendo o patrimônio artístico, histórico, cultural de um povo. Aqui, em Ouro Preto, viveu e se criou esse gênio mulato, nosso primeiro e maior artista.

            Esta Casa dos Contos possui obras com a marca estilística provenientes das mãos deformadas de Antônio Francisco Lisboa.

            E não apenas: esta Casa dos Contos, construída pelo contratador João Rodrigues de Macedo, foi contemporânea da forja do quinto do ouro para Sua Majestade, deus a tinha. Presenciou também a Inconfidência Mineira. Serviu de prisão aos Inconfidentes. Aqui; em suas dependências, amanheceu morto no dia 4 de julho de 1789, o inconfidente árcade Cláudio Manoel da Costa. De alguma forma, assassinado. Por si ou por outrem...

            Poeta lírico, intelectual, culto e brilhante, nos deixou primores literários como seu poema Vila Rica, composto de dez cantos.

            A Arcádia de Minas Gerais, pelos seus fundadores em 1973, houve por bem escolher o nome de Cláudio Manoel da Costa como seu patrono. Agora, em novembro de 2009, nossa diretoria houve por bem confeccionar a Medalha Cláudio Manoel da Costa que será uma galardão ostentado pelos Árcades e por outras pessoas gradas, em nossas solenidades.

            Ouro Preto, nossa admirável sempre capital, hoje administrada por este homem de cultura que é o Prefeito Ângelo Osvaldo de Araújo Santos, promove com brilho, a 32º Semana do Aleijadinho, mostrando para o Brasil e para o mundo o acervo que nos legou este homem de gênio. Como Presidente da Arcádia de Minas Gerais, sinto-me em sintonia com tal comemoração. E como Presidente Emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, agradeço o convite do árcade Eugênio Ferraz para participar deste evento cultural magnificente. Como Aleijadinho, sou também um constante aprendiz.

            Nos últimos anos do século galante – o século XVIII -, num país escravocrata perdido do outro lado do Atlântico, um pobre bastardo mestiço, filho de escrava africana e de pais português, produz esta obra sublime, a última efígie (aparição) válida da civilização do Ocidente, evocada pela mão e pela vontade férrea de um homem quase ignorado pelos grandes de seu tempo. Antônio Francisco Lisboa, aquele a quem a vida encheu de desditas, mas que transcendeu em glórias perenes.

Os doze profetas são o ponto alto da escultura brasileira. São concepções geniais do Aleijadinho.

O mulato criou os Profetas, imaginou-os, concebeu-os, através das leituras do antigo testamento. Imprimiu neles a chancela de seu gênio. A um talento excepcional, somaram-se dedicação concernida, concentração na tarefa, crescimento em habilidade mediante exercício diuturno, acrescidos de inteligência posta a serviço da obra, dando seqüenciamento em trabalhos de marcenaria, de talha, de escultura, de engenharia e de arquitetura. Tudo isso coroado em fecho de abóboda, em pedra de toque, pela vontade de fazer, de criar e de transcender.

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