sexta-feira, 15 de março de 2013

Acrasia


Acrasia

ou a fraqueza da vontade.

 

Marco Aurélio Baggio

 

         A mente humana é dividida e compartimentada. Cada compartimento pode funcionar acoplado com os demais, síntono e holonarquicamente. No entanto, a cisão no psiquismo gera condutas alteradas, espantosas, frequentemente prejudiciais ao sujeito.

        A divisão do psiquismo em sub-sistemas permite que eventualmente, uma parte da mente ocupe o lugar de comandante em chefe da conduta da pessoa. Isso determina o afloramento de comportamentos com ares inusitados, como se a pessoa passasse a ser colonizada por invasores até então estranhos à sua trajetória de vida. É como se a pessoa se tornasse alienada da personalidade anterior, sendo possuída por outras atitudes e posturas, desde então lesivas e contraproducentes a ela.

        Uma parcela inconsciente assume-se como o próprio autor da nova ação, como sendo um ator escondido que tem desejos, motivos, intenções, propósitos, ações e ordenamentos próprios. Sendo assim, este componente parcial do psiquismo é, eventualmente, capaz de alcançar suas finalidades com argúcia, inteligência, habilidade e consistência até superiores às da própria prévia pessoa.

        Para entender sintomas esquisitos, irracionais, tais como fobias, atos falhos, sonhos, obsessões, delírios, vícios e atos delinqüentes, é necessário utilizar-se de conceitos mecânicos, fisicalistas; conceitos acerca do endógeno; linguagem antropomórfica, uso da mitologia, e conceitos psicanalíticos metapsicológicos. Ai, cria-se uma confusão dos diabos. O que dá vezo à crítica de falta de rigor científico. Para alguns, essa mistura de conceitos e de métodos carece de credibilidade. No entanto é assim que se faz relatos históricos críveis. Isso porque, para fenômenos estúrdios e complexos, há que se utilizar de ferramentas psíquicas variadas. Senão vejamos:

        Causa de ação é algo que pode ser testado experimentalmente. Deriva de postura científica proveniente da física. Mais particularmente, da mecânica dos corpos sólidos. Mais ainda, causa comparece no jogo das bolas de bilhar como máxima expressão de causalidade.

        A razão obedece a tomada de atitude consciente da pessoa, ao dar seu acordo à linha de conduta proposta e empreendida.

        Um psiquismo partido e compartilhado possibilita o surgimento de diferenças que, logo evolui para dissensões. A seguir, surgem conflitos intrapsíquicos. Assim se explica a guerra civil interna que vigora, tão frequentemente, no mundo interno do sujeito.

        Guerras são imperiosidades impositivas impertinentes, nas quais os agentes belicosos lançam mão de tudo para impor sua razão sobre os outros.

        Guerra gera angústia, prejuízo, dor e devastação. Todos perdem muito e sempre. Apenas aquele que pode mais chorará menos. Guerra intrapsíquica empobrece, amesquinha e desvitaliza seu portador.

        Na guerra, a potência até então hegemônica vê esvair-se seu poderio. No conflito intrapsíquico, o Eu consciente perde logo sua prerrogativa de ser o máximo coalizador da vida psíquica. Deixa de ser o Eu, o ego pontífice, hábil articulador dos diasparagmáticos componentes da psique.

        A dimensão inconsciente no psiquismo humano é muitas coisas simultaneamente.

        1- É caldeirão de instintos animais.

        2- É caldeirão de pulsões eróticas e agressivas.

        3- É repositório de paixões brutais e irracionais.

        4- É sopa de letras onde se coze uma articulação em linguagem.

        5- É agente substantivado capaz de operações sub-reptícias autônomas.

        6- É local onde se arregimenta o torto, o torvo, o errado, o avesso, o doido e o louco.

        7- É base do ímpeto da vitalidade onde gera gã e força de fazer suceder / acontecer fatos.

        8- É comparsaria de conspiradores que se comprazem em sabotar e fazer falir os bons propósitos do sujeito decente.

        9- É puro campo onde medra a sordidez e a maldade humana.

        10- É fonte estuante dos melhores eflúvios da bondade humana.

        É na dimensão do inconsciente do psiquismo humano onde medra a Acrasia. A fraqueza da vontade consciente. Acrasia como condição de quem, apesar de saber o melhor a ser feito, faz outra coisa, quase sempre diferente, pior, autodeletéria. Acrasia é desregramento, intemperança, qualidade de atitude do sujeito sem força para se impor. Acrasia é falta de comando próprio.

        O campo das ocorrências naturais, físicas, tais como as intempéries e os cataclismos da natureza, são considerados a-racionais.

        Já os acontecimentos irracionais pertencem ao campo da razão, com suas falhas, seus erros e desvios.

        Uma ação escoltada pela razão é aquela derivada de deliberação psíquica que gera intenção que a motiva e a instrui. Nela, há vontade para realizar a ação. Há uma pulsão erótica tornada desejo que se transforma em interesse pessoal. Este instila intenção que mobiliza ação para configurar ato e efeito condutual.

        É dilacerante o questionamento do porque o homem tão frequentemente se devota a agir contra seus interesses e de forma contrária à sua vida. Filósofos, pensadores e psiquiatras debruçam-se sobre este espantoso absurdo.

        Afirmo que o ser humano não é um animal racional. Por que o mal tantas vezes vigora e prevalece no desempenho humano? A ponto de poder dizer-se que o homem é o lobo do homem. E mais: o homem é o maior inimigo de si mesmo.

        A acrasia ocorre quando o sujeito atua de forma adversa aos seus melhores julgamentos. O sujeito avalia as razões a favor e contra executar determinada ação. Uma vez julgada qual a melhor ação a ser executada é de se esperar, sempre, que o homem se diligencie a realizar aquilo que é melhor para si. No comportamento acrático, o sujeito atua contra aquilo que avalia como sendo mais conveniente para si. Estabelece outra linha de operação, seja por pressa, por comodismo, ou para desfrute imediato de prazer. Ou por volúpia de se autodepletar. São os casos em que o agente age desfavoravelmente ao seu próprio julgamento. Na conduta irracional, o agente sabe da seqüência das causas que configuram seu comportamento mas passa a desconhecer a relação lógica, desprezando-a como despicienda. O sujeito descreve o evento de forma racional mas atua de forma irracional.

        A irracionalidade é a prevalência de uma até então forma oculta de racionalidade, operando em certo escaninho ou instância ou sub-sistema da mente. Desta forma, uma província mental, súbito, faz valer sua querência. Faz prevalecer sua consistência e sua maneira específica de racionalidade. Embora independente e divorciada do todo momentâneo da vida psíquica – a consciência vigil -, um estamento psíquico pode interagir com outro estado mental, sobrepujando-o e dele se desligando de uma relação de subordinação lógica.

        A porção B do aparelho psíquico não leva em consideração os desejos, as crenças, as expectativas, as suposições, os conceitos, as atitudes e as conveniências de uma instancia A. As partes psíquicas coexistem e convivem entre si, porém elas perderam a relação lógica de uma com a outra. O que existe é uma mera relação pobre, causal. Quando a linha de curso de A prepondera, exerce-se aquilo que se conceitua como sendo a vontade soberana do sujeito. Já quando o que predomina é a modificação da vontade por alteração de seu curso de ação, podemos considerá-la como sendo fraqueza da vontade. Acrasia. Conduta alterada. Acting out. Conduta psicopática, autodeletéria aos supinos interesses do sujeito. É quando então instala um novo fenômeno psíquico monstruoso, um eigen state. Estado único que tende a se tornar pesado, estável e dificilmente mobilizável.

        Estão cabíveis no âmbito da intenção (e da intencionalidade), desejos, expectativas, crenças, emoções, medos, sentimentos, conceitos e vontades. Além de sintomas psiconeuróticos, atos falhados, sonhos e certas manifestações de arte. Há entre todas elas conexão lógica entre seu conteúdo e a atitude que, a seguir, elas causam.

        É fecunda a concepção freudiana de que o aparelho psíquico humano é partido por estruturas semi-autônomas, operando por relações não-lógicas entre esses componentes. Isso explica como um pensamento ou um impulso pode causar outro com o qual mantém uma relação racional. Assim, por sondáveis vicissitudes, cada parte componente pode despirocar, descarrilhar e passar a agir por conta própria por cima da conveniência maior da pessoa.

        Resumindo: O psiquismo humano é dividido: id, ego, superego; consciente, pré-consciente, inconsciente; Ego central, ego antilibidinal – sabotador interno; ego lidibinal, - pulsão de ligação, libidinal; pulsão de intrusão, agressiva, destrutiva. Censura. Consciência moral. Princípio do prazer. Princípio da realidade. Narcisismo. Sentimentos de culpa, de vergonha e de vaidade. Amor e ódio. Ambição e imposição. Orgulho e necessidade de intrusão sobre a autonomia do outro.

        Estes componentes estabelecem relações e correlações variadas, compósitas, complexas entre si. Por vezes, são relações causais dotadas de racionalidade e de lógica. Outras tantas, são irracionais e não mantém entre si boa coerência lógica.

        Um conflito variegado se estabelece no campo psíquico. Dele deriva sintoma. Freud percebeu que o sentido e a expressão distorcida de uma intenção irracional está na raiz do sintoma neurótico.

        A argúcia de Freud foi constatar que há relação entre o conflito psíquico e o sintoma expresso. Antes só entendido como fenômeno psíquico sem sentido, estúrdio e esquisito, a-racional ou irracional, imotivado e inexplicável, o sintoma passou a clamar, a dizer de sua origem, de seu motivo de ser, ao portar intenção em pleno exercício de suas prerrogativas.

        Com Freud e a psicanálise, o sintoma adquiriu todo um léxico. O sintoma de si se diz. O sintoma é a chaminé de escape dos vapores que pressionam o psiquismo. É válvula de escape, tal qual a ‘árvore de natal’ que controla a pressão nos poços petrolíferos. O sintoma dá vazão distorcida e deformada a conteúdos pulsionais e representacionais por demais desconcordes e tensos. Possui outras conseqüências menos positivas: o sintoma neurótico mina, sabota a vontade escorreita do sujeito. O sintoma enfraquece a vontade do Eu.

Há quatro coisas fáceis na vida: Engordar, gastar dinheiro, dar desculpas e justificar falhas. Racionalizar motivos de segunda classe para justificar ação que despreza melhor atitude mais vantajosa é próprio dos fracos de vontade: os acrasicos. Com freqüência, o homem de vontade débil escolhe assumir conduta de pior classe – autolesiva, autoprejudicial, autodestrutiva, desconsiderando seu próprio principio de primeira ordem que o comanda a fazer “o melhor, tendo sido tudo bem ponderado.” Fazer o pior é melhor para os fracos, para os débeis de espírito flebis.   

        Agem como se dissessem: “fiz o possível, fiz alguma coisa, menor, insatisfatória, eu sei, mas fiz. Algum dia farei inteiro, o melhor, o bacana. Confie em mim, me dê permissão para eu só ser assim. Um dia, cresço, melhoro, faço direito.”

        É irracional desconsiderar o seu melhor, o seu mais vantajoso e o seu mais conveniente. Um motivo de classe inferior gera uma racionalização para, falsamente, justificar uma atitude de segunda classe que, absolutamente, não enriquece o sujeito. Este agiu sob a égide de uma causa e não de uma razão. Com isso, cortou-se e perdeu-se a relação lógica com a ação.

        O ato irracional, flébil, de segunda classe, clama para se repetir. Primeiro em hábito, logo a seguir em compulsão à repetição. Institui-se assim um padrão de conduta de segunda classe que, absolutamente, não enobrece, antes o contrário, depleta a autoestima da pessoa. A vontade do sujeito apresenta-se enfraquecida. Adotado comportamento obsessivo que torna também compulsivo, o Eu se vê compelido a adotar linha de ações contrárias ao seu melhor julgamento. O Eu torna-se inimigo de si mesmo. Detrator de seu crescimento. Motivos desprezíveis, secundários e terciários, passam a justificar seu comportamento.

        No sintoma, encontra-se a raiz genética derivada de desejos inconscientes de se autoprejudicar, dando vazão ao componente que Fairbairn 2 (e eu) 1 chamamos de sabotador interno. Em nosso mundo interno existe uma instância sacana, que se compraz em derrubar e sabotar nossa pessoa. Ela impõe não gostar de si mesmo. Culpar-se. Agredir-se para não agredir o outro. Minar tendências construtivas. Resistir ativamente ao crescimento pessoal. Agir de modo a prejudicar seus próprios mais elevados interesses. Autodelinquir. Auto enganar-se com desculpas esfarrapadas. Vergonha de engrandecer-se. Recusar querer-se bem.

        A acrasia sendo causa de conduta irracional, carece de lógica e de racionalidade, o que induz a fraca vontade do sujeito a não buscar a estuância de si próprio.

Acrasia é viver no útero de um eu apequenado, tímido. É optar por viver com as chagas do João-sem-braço mendigo, viciado, compelido e miserável. De início, sai mais barato. Depois, acostuma-se. Mais tarde, não tem volta. Não tem cura. Sai mais caro: custa tanto quanto o fracasso existencial.

Eu sou, logo sou e, sendo, eu sou mais eu. Eis o que firma um Eu forte, racional, lógico, prospectivo, assertivo, de primeira classe.

O mundo, a vida, é dos que tem vontade forte, desempenada, firme. Viver é temperar o aço do caráter através dos embates da vida.    

  

       

 

Referências.

 

1-       BAGGIO, Marco Aurélio. Psicoterapia: técnica, arte e clínica. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000.

2-       FAIRBAIRN, W. Ronald D. Estudos psicanalíticos da personalidade. Rio de Janeiro: Interamericana, 1980.

3-       DAVIDSON, Donald. Davidson, leitor de Freud. In Rev. Mente, cérebro e filosofia. São Paulo: Duetto, 2008, nº10, p. 74/82.  

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