Acrasia
ou a fraqueza da vontade.
Marco Aurélio Baggio
A mente humana é dividida e compartimentada. Cada
compartimento pode funcionar acoplado com os demais, síntono e holonarquicamente.
No entanto, a cisão no psiquismo gera condutas alteradas, espantosas,
frequentemente prejudiciais ao sujeito.
A divisão do
psiquismo em sub-sistemas permite que eventualmente, uma parte da mente ocupe o
lugar de comandante em chefe da conduta da pessoa. Isso determina o afloramento
de comportamentos com ares inusitados, como se a pessoa passasse a ser
colonizada por invasores até então estranhos à sua trajetória de vida. É como
se a pessoa se tornasse alienada da personalidade anterior, sendo possuída por
outras atitudes e posturas, desde então lesivas e contraproducentes a ela.
Uma parcela
inconsciente assume-se como o próprio autor da nova ação, como sendo um ator
escondido que tem desejos, motivos, intenções, propósitos, ações e ordenamentos
próprios. Sendo assim, este componente parcial do psiquismo é, eventualmente,
capaz de alcançar suas finalidades com argúcia, inteligência, habilidade e
consistência até superiores às da própria prévia pessoa.
Para entender
sintomas esquisitos, irracionais, tais como fobias, atos falhos, sonhos,
obsessões, delírios, vícios e atos delinqüentes, é necessário utilizar-se de
conceitos mecânicos, fisicalistas; conceitos acerca do endógeno; linguagem
antropomórfica, uso da mitologia, e conceitos psicanalíticos metapsicológicos.
Ai, cria-se uma confusão dos diabos. O que dá vezo à crítica de falta de rigor
científico. Para alguns, essa mistura de conceitos e de métodos carece de
credibilidade. No entanto é assim que se faz relatos históricos críveis. Isso
porque, para fenômenos estúrdios e complexos, há que se utilizar de ferramentas
psíquicas variadas. Senão vejamos:
Causa de ação é algo que pode ser
testado experimentalmente. Deriva de postura científica proveniente da física.
Mais particularmente, da mecânica dos corpos sólidos. Mais ainda, causa comparece no jogo das bolas de
bilhar como máxima expressão de causalidade.
A razão obedece a tomada de atitude
consciente da pessoa, ao dar seu acordo à linha de conduta proposta e
empreendida.
Um psiquismo
partido e compartilhado possibilita o surgimento de diferenças que, logo evolui
para dissensões. A seguir, surgem conflitos intrapsíquicos. Assim se explica a guerra civil interna que
vigora, tão frequentemente, no mundo interno do sujeito.
Guerras são
imperiosidades impositivas impertinentes, nas quais os agentes belicosos lançam
mão de tudo para impor sua razão sobre os outros.
Guerra gera
angústia, prejuízo, dor e devastação. Todos perdem muito e sempre. Apenas
aquele que pode mais chorará menos. Guerra intrapsíquica empobrece, amesquinha
e desvitaliza seu portador.
Na guerra, a
potência até então hegemônica vê esvair-se seu poderio. No conflito
intrapsíquico, o Eu consciente perde
logo sua prerrogativa de ser o máximo coalizador da vida psíquica. Deixa de ser
o Eu, o ego pontífice, hábil
articulador dos diasparagmáticos componentes da psique.
A dimensão
inconsciente no psiquismo humano é muitas coisas simultaneamente.
1- É caldeirão
de instintos animais.
2- É caldeirão
de pulsões eróticas e agressivas.
3- É repositório
de paixões brutais e irracionais.
4- É sopa de
letras onde se coze uma articulação em linguagem.
5- É agente
substantivado capaz de operações sub-reptícias autônomas.
6- É local onde
se arregimenta o torto, o torvo, o errado, o avesso, o doido e o louco.
7- É base do
ímpeto da vitalidade onde gera gã e força de fazer suceder / acontecer fatos.
8- É
comparsaria de conspiradores que se comprazem em sabotar e fazer falir os bons
propósitos do sujeito decente.
9- É puro campo
onde medra a sordidez e a maldade humana.
10- É fonte
estuante dos melhores eflúvios da bondade humana.
É na dimensão
do inconsciente do psiquismo humano onde medra a Acrasia. A fraqueza da vontade consciente. Acrasia como condição de
quem, apesar de saber o melhor a ser feito, faz outra coisa, quase sempre
diferente, pior, autodeletéria. Acrasia é desregramento, intemperança,
qualidade de atitude do sujeito sem força para se impor. Acrasia é falta de
comando próprio.
O campo das
ocorrências naturais, físicas, tais como as intempéries e os cataclismos da
natureza, são considerados a-racionais.
Já os
acontecimentos irracionais pertencem
ao campo da razão, com suas falhas, seus erros e desvios.
Uma ação
escoltada pela razão é aquela derivada de deliberação psíquica que gera
intenção que a motiva e a instrui. Nela, há vontade para realizar a ação. Há
uma pulsão erótica tornada desejo que se transforma em interesse pessoal. Este instila
intenção que mobiliza ação para configurar ato e efeito condutual.
É dilacerante o
questionamento do porque o homem tão frequentemente se devota a agir contra
seus interesses e de forma contrária à sua vida. Filósofos, pensadores e
psiquiatras debruçam-se sobre este espantoso absurdo.
Afirmo que o
ser humano não é um animal racional. Por que o mal tantas vezes vigora e
prevalece no desempenho humano? A ponto de poder dizer-se que o homem é o lobo
do homem. E mais: o homem é o maior inimigo de si mesmo.
A acrasia
ocorre quando o sujeito atua de forma adversa aos seus melhores julgamentos. O
sujeito avalia as razões a favor e contra executar determinada ação. Uma vez
julgada qual a melhor ação a ser executada é de se esperar, sempre, que o homem
se diligencie a realizar aquilo que é melhor para si. No comportamento
acrático, o sujeito atua contra aquilo que avalia como sendo mais conveniente
para si. Estabelece outra linha de operação, seja por pressa, por comodismo, ou
para desfrute imediato de prazer. Ou por volúpia de se autodepletar. São os
casos em que o agente age desfavoravelmente ao seu próprio julgamento. Na
conduta irracional, o agente sabe da seqüência das causas que configuram seu
comportamento mas passa a desconhecer a relação lógica, desprezando-a como
despicienda. O sujeito descreve o evento de forma racional mas atua de forma
irracional.
A
irracionalidade é a prevalência de uma até então forma oculta de racionalidade,
operando em certo escaninho ou instância ou sub-sistema da mente. Desta forma,
uma província mental, súbito, faz valer sua querência. Faz prevalecer sua
consistência e sua maneira específica de racionalidade. Embora independente e
divorciada do todo momentâneo da vida psíquica – a consciência vigil -, um
estamento psíquico pode interagir com outro estado mental, sobrepujando-o e
dele se desligando de uma relação de subordinação lógica.
A porção B do aparelho psíquico não leva em
consideração os desejos, as crenças, as expectativas, as suposições, os
conceitos, as atitudes e as conveniências de uma instancia A. As partes psíquicas coexistem e convivem entre si, porém elas perderam
a relação lógica de uma com a outra. O que existe é uma mera relação pobre, causal.
Quando a linha de curso de A
prepondera, exerce-se aquilo que se conceitua como sendo a vontade soberana do sujeito. Já quando o que predomina é a
modificação da vontade por alteração de seu curso de ação, podemos considerá-la
como sendo fraqueza da vontade. Acrasia. Conduta alterada. Acting out. Conduta psicopática, autodeletéria aos supinos interesses do
sujeito. É quando então instala um novo fenômeno psíquico monstruoso, um eigen state. Estado único que
tende a se tornar pesado, estável e dificilmente mobilizável.
Estão cabíveis
no âmbito da intenção (e da intencionalidade), desejos, expectativas, crenças,
emoções, medos, sentimentos, conceitos e vontades. Além de sintomas
psiconeuróticos, atos falhados, sonhos e certas manifestações de arte. Há entre
todas elas conexão lógica entre seu conteúdo e a atitude que, a seguir, elas
causam.
É fecunda a
concepção freudiana de que o aparelho psíquico humano é partido por estruturas
semi-autônomas, operando por relações não-lógicas entre esses componentes. Isso
explica como um pensamento ou um impulso pode causar outro com o qual mantém
uma relação racional. Assim, por sondáveis vicissitudes, cada parte componente
pode despirocar, descarrilhar e passar a agir por conta própria por cima da
conveniência maior da pessoa.
Resumindo: O
psiquismo humano é dividido: id, ego, superego; consciente, pré-consciente,
inconsciente; Ego central, ego antilibidinal – sabotador interno; ego
lidibinal, - pulsão de ligação, libidinal; pulsão de intrusão, agressiva,
destrutiva. Censura. Consciência moral. Princípio do prazer. Princípio da
realidade. Narcisismo. Sentimentos de culpa, de vergonha e de vaidade. Amor e
ódio. Ambição e imposição. Orgulho e necessidade de intrusão sobre a autonomia
do outro.
Estes
componentes estabelecem relações e correlações variadas, compósitas, complexas
entre si. Por vezes, são relações causais dotadas de racionalidade e de lógica.
Outras tantas, são irracionais e não mantém entre si boa coerência lógica.
Um conflito
variegado se estabelece no campo psíquico. Dele deriva sintoma. Freud percebeu
que o sentido e a expressão distorcida de uma intenção irracional está na raiz
do sintoma neurótico.
A argúcia de
Freud foi constatar que há relação entre o conflito psíquico e o sintoma
expresso. Antes só entendido como fenômeno psíquico sem sentido, estúrdio e
esquisito, a-racional ou irracional, imotivado e inexplicável, o sintoma passou
a clamar, a dizer de sua origem, de seu motivo de ser, ao portar intenção em
pleno exercício de suas prerrogativas.
Com Freud e a
psicanálise, o sintoma adquiriu todo um léxico. O sintoma de si se diz. O
sintoma é a chaminé de escape dos vapores que pressionam o psiquismo. É válvula
de escape, tal qual a ‘árvore de natal’ que controla a pressão nos poços
petrolíferos. O sintoma dá vazão distorcida e deformada a conteúdos pulsionais
e representacionais por demais desconcordes e tensos. Possui outras
conseqüências menos positivas: o sintoma neurótico mina, sabota a vontade escorreita
do sujeito. O sintoma enfraquece a vontade do Eu.
Há quatro coisas fáceis na vida:
Engordar, gastar dinheiro, dar desculpas e justificar falhas. Racionalizar
motivos de segunda classe para justificar ação que despreza melhor atitude mais
vantajosa é próprio dos fracos de vontade: os acrasicos. Com freqüência, o
homem de vontade débil escolhe assumir conduta de pior classe – autolesiva,
autoprejudicial, autodestrutiva, desconsiderando seu próprio principio de
primeira ordem que o comanda a fazer “o melhor, tendo sido tudo bem ponderado.”
Fazer o pior é melhor para os fracos, para os débeis de espírito flebis.
Agem como se
dissessem: “fiz o possível, fiz alguma coisa, menor, insatisfatória, eu sei,
mas fiz. Algum dia farei inteiro, o melhor, o bacana. Confie em mim, me dê
permissão para eu só ser assim. Um dia, cresço, melhoro, faço direito.”
É irracional
desconsiderar o seu melhor, o seu mais vantajoso e o seu mais conveniente. Um
motivo de classe inferior gera uma racionalização para, falsamente, justificar
uma atitude de segunda classe que, absolutamente, não enriquece o sujeito. Este
agiu sob a égide de uma causa e não de uma razão. Com isso, cortou-se e
perdeu-se a relação lógica com a ação.
O ato irracional,
flébil, de segunda classe, clama para se repetir. Primeiro em hábito, logo a
seguir em compulsão à repetição. Institui-se assim um padrão de conduta de
segunda classe que, absolutamente, não enobrece, antes o contrário, depleta a
autoestima da pessoa. A vontade do sujeito apresenta-se enfraquecida. Adotado
comportamento obsessivo que torna também compulsivo, o Eu se vê compelido a adotar linha de ações contrárias ao seu melhor
julgamento. O Eu torna-se inimigo de si mesmo. Detrator de seu crescimento.
Motivos desprezíveis, secundários e terciários, passam a justificar seu
comportamento.
No sintoma,
encontra-se a raiz genética derivada de desejos inconscientes de se
autoprejudicar, dando vazão ao componente que Fairbairn 2 (e eu) 1 chamamos de sabotador interno. Em
nosso mundo interno existe uma instância sacana, que se compraz em derrubar e
sabotar nossa pessoa. Ela impõe não gostar de si mesmo. Culpar-se. Agredir-se
para não agredir o outro. Minar tendências construtivas. Resistir ativamente ao
crescimento pessoal. Agir de modo a prejudicar seus próprios mais elevados
interesses. Autodelinquir. Auto enganar-se com desculpas esfarrapadas. Vergonha
de engrandecer-se. Recusar querer-se bem.
A acrasia sendo
causa de conduta irracional, carece de lógica e de racionalidade, o que induz a
fraca vontade do sujeito a não buscar a estuância de si próprio.
Acrasia é viver no útero de um eu
apequenado, tímido. É optar por viver com as chagas do João-sem-braço mendigo,
viciado, compelido e miserável. De início, sai mais barato. Depois,
acostuma-se. Mais tarde, não tem volta. Não tem cura. Sai mais caro: custa
tanto quanto o fracasso existencial.
Eu sou, logo sou e, sendo, eu sou
mais eu. Eis o que firma um Eu
forte, racional, lógico, prospectivo, assertivo, de primeira classe.
O mundo, a vida, é dos que tem
vontade forte, desempenada, firme. Viver é temperar o aço do caráter através
dos embates da vida.
Referências.
1-
BAGGIO,
Marco Aurélio. Psicoterapia: técnica, arte
e clínica. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000.
2-
FAIRBAIRN,
W. Ronald D. Estudos psicanalíticos da
personalidade. Rio de Janeiro: Interamericana, 1980.
3-
DAVIDSON, Donald. Davidson, leitor de Freud. In Rev. Mente, cérebro e filosofia. São Paulo: Duetto, 2008, nº10, p.
74/82.
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