quarta-feira, 20 de março de 2013

ARTE E SAÚDE


ARTE  E  SAÚDE


 


Marco Aurélio Baggio*


 

 

    A arte é longa, a vida é breve. (Hipócrates)

                                            Sabei  que  o segredo  das  artes  é corrigir

                                        a  natureza. (Voltaire)
             Toda arte é perfeitamente inútil. (Oscar Wilde)
A arte é uma mentira que revela uma verdade. (Picasso)
A saúde é o estado no qual as funções
          necessárias  se cumprem insensivelmente
 ou com prazer.
(Paul Valéry)

 

A arte

 

         Arte é prerrogativa humana de criar o novo, a partir daquilo, comum, de que já se dispõe. Arte se faz pela própria arte. É sua principal intenção. Lembremos o dístico da Metro Goldwin-Meyer: Ars gratia artis. Diz-se que a arte é inútil. De fato, pode ser. Às vezes, é bela, elaborada segundo critérios que agradam à estética. Pode não ser, já que há uma arte feia, suja, agressiva.

         “A beleza é nossa fuga do escuro invólucro de carne que nos aprisiona.” (Camille Paglia)

         A principal função da arte é expressar, de alguma forma plástica qualquer, prerrogativas, possibilidades e conteúdos humanos. Nesse particular, costuma ser uma das realizações mais importantes do ser humano. Em outro sentido, a arte cumpre papel “antipirante”. De pura harmonização psíquica. Equalizadora e moduladora de afetos até então desconcordados. Quem se expressa tem menos chance de se deixar perturbar com suas questões internas.

         A arte pode ser bela. Ou útil. Pode granjear dinheiro. Ou acarretar prestígio. Tende a realizar a natural vertente narcísica do artista. Também pode ser o inverso disso tudo. O artista recebe, em vida, opróbrio, crítica e incompreensão. Sua expressão é dilacerante e torturada. Sua arte é antiestética, dá prejuízo e, muitas vezes, é um projeto inútil de vida.

         No entanto, é prerrogativa do artista antecipar o que está por vir, prenunciando tempos novos. Ele adivinha possibilidades que estão em curso, dando-lhes uma visualidade plástica cheia de significação.

         Uma obra de arte pode conter três componentes. Primeiro, ela é inusitada. Nada igual foi feito antes. O artista, portanto, é um inovador. Segundo, ela é instigante. Sua existência provoca impacto emocional e estético nas pessoas que partilham do artefato artístico. Terceiro, ela contém valor. Valor é aquilo que acresce o humano. É diferencial que, em si, sendo bom, leva-nos a confiar mais em nossa humanidade e a apreciá-la.

         A função da arte é expandir nossa crença em nossas capacidades de criar e inovar. Como tal, a arte consolida o justo orgulho de pertencermos à raça humana.

         Arte é poderoso agente antiestupidicante O artista pode ser um neurótico solitário conflituado – ou coisa pior, não importa -, detendo o dom de ser capaz de produzir uma resultante valiosa, que extrapola de si, como produto cultural artístico. Sua arte pode, muitas vezes, servir de contraponto e de fator de equilíbrio psíquico. Ou não. De qualquer maneira, arte é fator terapêutico significativo na economia psíquica do artista. A arte desperta em nós, seus apreciadores e seus consumidores, sentimentos e fímbrias delicadas, estéticas, que nos enlevam a uma dimensão mais elevada, espiritual.

         O artista é um agente solitário, desempatador. Ele usa a centelha divina da criatividade para se distinguir do comum, do tosco, do rude, rumo a ser outro, um pouco melhor, diferente e acrescentado.

 Nesse diapasão, a arte cumpre o papel de, unindo intuição, ação e gesto, estabelecer sentido e significação à vida e à obra do artista. Este é um operário, um trabalhador contumaz, uma vez que a arte tem por hábito se impor ao sujeito como mandato ético interno, pessoal. Imperioso. Arte implica 5% de inspiração e 95% de trabalho. Trabalho, ensaio, tentativa e erro. Por conseguinte, não existe arte preguiçosa. O artista sabe que tem de se deixar possuir pelo anseio criativo, assim como o médium se deixa incorporar pela persona prevalente, quando em estado de desdobramento de consciência. Às vezes, isso pode ser pesado ou até dilacerante. Nenhum artista se queixa. Mesmo que isso custe sua saúde ou abrevie sua vida. O terrível para o artista é sentir-se esvaziado dessa obrigação.

         A arte é um incluir movimentos perpétuos da natureza, para, em seguida, excluir seus excessos. Arte é sempre um reordenamento ritualístico da realidade.

         A arte é longa, infindável. A vida é curta, breve, passageira. Que importa! É um privilégio passar por esta vida criando um grama que seja de arte. Às vezes, com sorte, a obra de arte produzida pode ser a chave e o passaporte para a transcendência na história e na memória dos pósteros. Vale arriscar e tentar.

 

A saúde


         Saúde é o estado de desfrute ótimo de bem-estar físico, psíquico, social, que permite ao indivíduo uma existência suave, agradável e fecunda.

         Também pode ser conceituada como a ausência de enfermidade ou de doença agindo na biologia da pessoa, isenta que esta está de ser portadora de um qualquer agente patógeno carcomizador (em estado de carcomição).

         Atribui-se hoje ao cidadão a responsabilidade própria por seu bem-estar, preservando e promovendo os aspectos psicológicos, relacionais, econômicos, sociais e ambientais que possam vir a afetar sua higidez.

         Cada vez mais é nítida a importância das ações conseqüentes de salvaguarda, prevenção e vigilância sanitária por parte dos órgãos encarregados da saúde pública.

         A saúde comunitária é um bem social por todos desejável e a todos constitucionalmente  garantida.

         Houaiss define saúde como um estado de equilíbrio dinâmico entre o indivíduo e seu meio ambiente, o qual garante as características morfogenéticas e funcionais do organismo, dentro de limites homeostáticos  apropriados à etapa particular de seu ciclo desenvolvimental de vida.

         Compete ao Estado por meio de suas agências específicas, prevenir e erradicar aquelas doenças endêmicas - infecto-contagiosas, toxicofílicas, doenças mentais, metabólicas – que perturbam grandemente a vida social, estabelecendo ações e prescrições eficazes para proteger a saúde dos cidadãos, em escala local, nacional ou internacional.

         Salus, salutis é a boa conservação da vida. Já os romanos preconizavam, com Juvenal: “Mente sã em corpo sadio.”

         Saúde é o gostoso estado de desfrute, no qual as funções necessárias se cumprem insensivelmente ou com justo prazer. (Paul Valéry)

         O que importa é saber cavalgar bem sua saúde para poder fazer com ela boas obras.

         “O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos.” (Antonin Artaud)

         Por isso, é mister não submeter seu corpo e sua saúde a provas estúpidas e desnecessárias - saltos altos, cirurgias, sol, esportes radicais, torturas, abusos de toda ordem.

         Em todos nós, há um impulso para emergir das obscuridades e dos enovelados internos, conteúdos expansivos que aspiram a ocupar lugar no concerto de nossa consciência. O encarnado, intricado, quer- se tornar brilho, luz, sol, razão e participação. Consciência. Esse é o princípio do deus egípcio Hórus que, segundo Nise da Silveira, rege toda a aspiração de desenvolvimento psíquico do ser humano.

         O ser humano é um ser condenado à expressão múltipla e diferenciada dos constituintes compósitos de sua endogeneidade.

         A arte - téchné - habilidade, maneira esperta de fazer algo novo de valor estético ou expressivo - é uma das mais eficazes vias de escoamento que dão vazão ao confuso, ao indiferenciado, ao indecidido e ao inefável que comporta o psiquismo humano.

         Por meio da arte, o indivíduo diz aquilo que ainda não tem significação e cujo sentido é realizar o enovelado das fímbrias de sua subjetividade. Junto com a linguagem, a cinésica - a expressão corporal - o relacionamento afetivo e erótico e as relações de trabalho, a arte cumpre a excelsa função de contribuir para o homem vir-a-ser mais.

         Quantas vezes um sujeito que não cabe em si ou nem sabe o  si de si mesmo encontra, nos meandros do que-fazer artístico, o cânon por onde pode vir a recuperar a trajetória de sua própria vida. Assim, se a arte nos diverte, ela também nos supre de realização e nos cura de nossos vacilos ou de nossos desvios.

         A música, vista apenas como manifestação artística do sentimento ao longo dos séculos, é hoje compreendida como forma coadjuvante da terapia. Também assim outras formas de expressão ou de manifestação de um pendor intuitivo da pessoa podem ser desenvolvidas e aproveitadas pelo médico ou terapeuta ao escolher a maneira adequada para o tratamento do paciente.

         Pode-se dizer que a dança é hoje uma terapia a que recorrem muitas pessoas, sobretudo as da chamada terceira idade. Além de ser uma arte, a dança propicia um contato que favorece aqueles que a ela se dedicam.

         As artes manuais, a cerâmica, a pintura, a escultura, permitem um “descanso” do cérebro. Enquanto as mãos trabalham, aliviam-se as tensões acumuladas.

         O ato de escrever, seja um diário, uma poesia, uma narrativa, também produz uma espécie de catarse, que possibilita à pessoa transferir seus problemas para um “outro eu” e dar a solução que achar mais adequada aos problemas desse “eu”, que, no fundo, não é ninguém mais que ela mesma. Com isso, ela se sente mais tranqüila, mais aliviada e em condições de enfrentar a realidade.

         Portanto, é possível dizer que viver é desfrutar da saúde para poder criar em estado de arte permanente.

         Por meio da arte, o homem espaventa seus demônios, exorcizando suas excrescências. Assim, apascenta os monstros que habitam seu mundo interno, por meio de uma catarse fecunda e criativa. Usufruindo de boa saúde, pode então o sujeito existir na integralidade das plenas prerrogativas de sua pessoa.



* Psiquiatra. Psicanalista. Membro da Academia Mineira de Medicina. Membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores – ABRAMES.
 

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