ARTE E
SAÚDE
Marco
Aurélio Baggio*
A arte é longa, a vida é breve.
(Hipócrates)
Sabei que o segredo
das artes é corrigir
a natureza.
(Voltaire)
Toda arte é perfeitamente
inútil. (Oscar Wilde)
A arte é uma mentira que
revela uma verdade. (Picasso)
A saúde é o estado no qual as funções
necessárias se cumprem
insensivelmente
ou com prazer.
(Paul Valéry)
A arte
Arte é prerrogativa humana de criar o
novo, a partir daquilo, comum, de que já se dispõe. Arte se faz pela própria
arte. É sua principal intenção. Lembremos o dístico da Metro Goldwin-Meyer: Ars gratia artis. Diz-se que a arte é
inútil. De fato, pode ser. Às vezes, é bela, elaborada segundo critérios que
agradam à estética. Pode não ser, já que há uma arte feia, suja, agressiva.
“A beleza é nossa fuga do escuro
invólucro de carne que nos aprisiona.” (Camille Paglia)
A principal função da arte é expressar,
de alguma forma plástica qualquer, prerrogativas, possibilidades e conteúdos
humanos. Nesse particular, costuma ser uma das realizações mais importantes do
ser humano. Em outro sentido, a arte cumpre papel “antipirante”. De pura
harmonização psíquica. Equalizadora e moduladora de afetos até então
desconcordados. Quem se expressa tem menos chance de se deixar perturbar com
suas questões internas.
A arte pode ser bela. Ou útil. Pode
granjear dinheiro. Ou acarretar prestígio. Tende a realizar a natural vertente
narcísica do artista. Também pode ser o inverso disso tudo. O artista recebe,
em vida, opróbrio, crítica e incompreensão. Sua expressão é dilacerante e
torturada. Sua arte é antiestética, dá prejuízo e, muitas vezes, é um projeto
inútil de vida.
No entanto, é prerrogativa do artista
antecipar o que está por vir, prenunciando tempos novos. Ele adivinha
possibilidades que estão em curso, dando-lhes uma visualidade plástica cheia de
significação.
Uma obra de arte pode conter três
componentes. Primeiro, ela é inusitada. Nada igual foi feito antes. O artista,
portanto, é um inovador. Segundo, ela é instigante. Sua existência provoca
impacto emocional e estético nas pessoas que partilham do artefato artístico.
Terceiro, ela contém valor. Valor é aquilo que acresce o humano. É diferencial
que, em si, sendo bom, leva-nos a confiar mais em nossa humanidade e a
apreciá-la.
A função da arte é expandir nossa
crença em nossas capacidades de criar e inovar. Como tal, a arte consolida o
justo orgulho de pertencermos à raça humana.
Arte é poderoso agente
antiestupidicante O artista pode ser um neurótico solitário conflituado – ou
coisa pior, não importa -, detendo o dom de ser capaz de produzir uma
resultante valiosa, que extrapola de si, como produto cultural artístico. Sua
arte pode, muitas vezes, servir de contraponto e de fator de equilíbrio
psíquico. Ou não. De qualquer maneira, arte é fator terapêutico significativo
na economia psíquica do artista. A arte desperta em nós, seus apreciadores e
seus consumidores, sentimentos e fímbrias delicadas, estéticas, que nos enlevam
a uma dimensão mais elevada, espiritual.
O artista é um agente solitário,
desempatador. Ele usa a centelha divina da criatividade para se distinguir do
comum, do tosco, do rude, rumo a ser outro, um pouco melhor, diferente e
acrescentado.
Nesse diapasão, a
arte cumpre o papel de, unindo intuição, ação e gesto, estabelecer sentido e
significação à vida e à obra do artista. Este é um operário, um trabalhador
contumaz, uma vez que a arte tem por hábito se impor ao sujeito como mandato
ético interno, pessoal. Imperioso. Arte implica 5% de inspiração e 95% de
trabalho. Trabalho, ensaio, tentativa e erro. Por conseguinte, não existe arte
preguiçosa. O artista sabe que tem de se deixar possuir pelo anseio criativo,
assim como o médium se deixa incorporar pela persona prevalente, quando em estado de desdobramento de
consciência. Às vezes, isso pode ser pesado ou até dilacerante. Nenhum artista
se queixa. Mesmo que isso custe sua saúde ou abrevie sua vida. O terrível para
o artista é sentir-se esvaziado dessa obrigação.
A arte é um incluir movimentos perpétuos da natureza, para, em seguida, excluir seus excessos. Arte é sempre um
reordenamento ritualístico da realidade.
A arte é longa, infindável. A vida é
curta, breve, passageira. Que importa! É um privilégio passar por esta vida
criando um grama que seja de arte. Às vezes, com sorte, a obra de arte
produzida pode ser a chave e o passaporte para a transcendência na história e
na memória dos pósteros. Vale arriscar e tentar.
A saúde
Saúde é o estado de desfrute ótimo de
bem-estar físico, psíquico, social, que permite ao indivíduo uma existência
suave, agradável e fecunda.
Também pode ser conceituada como a
ausência de enfermidade ou de doença agindo na biologia da pessoa, isenta que
esta está de ser portadora de um qualquer agente patógeno carcomizador (em
estado de carcomição).
Atribui-se hoje ao cidadão a
responsabilidade própria por seu bem-estar, preservando e promovendo os
aspectos psicológicos, relacionais, econômicos, sociais e ambientais que possam
vir a afetar sua higidez.
Cada vez mais é nítida a importância
das ações conseqüentes de salvaguarda, prevenção e vigilância sanitária por
parte dos órgãos encarregados da saúde pública.
A saúde comunitária é um bem social por
todos desejável e a todos constitucionalmente
garantida.
Houaiss define saúde como um estado de equilíbrio dinâmico entre o indivíduo e seu
meio ambiente, o qual garante as características morfogenéticas e funcionais do
organismo, dentro de limites homeostáticos
apropriados à etapa particular de seu ciclo desenvolvimental de vida.
Compete ao Estado por meio de suas
agências específicas, prevenir e erradicar aquelas doenças endêmicas -
infecto-contagiosas, toxicofílicas, doenças mentais, metabólicas – que
perturbam grandemente a vida social, estabelecendo ações e prescrições eficazes
para proteger a saúde dos cidadãos, em escala local, nacional ou internacional.
Salus, salutis é a boa conservação da vida. Já
os romanos preconizavam, com Juvenal: “Mente sã em corpo sadio.”
Saúde é o gostoso estado de desfrute,
no qual as funções necessárias se cumprem insensivelmente ou com justo prazer.
(Paul Valéry)
O que importa é saber cavalgar bem sua
saúde para poder fazer com ela boas obras.
“O ser tem estados inumeráveis e cada
vez mais perigosos.” (Antonin Artaud)
Por isso, é mister não submeter seu
corpo e sua saúde a provas estúpidas e desnecessárias - saltos altos,
cirurgias, sol, esportes radicais, torturas, abusos de toda ordem.
Em todos nós, há um impulso para
emergir das obscuridades e dos enovelados internos, conteúdos expansivos que
aspiram a ocupar lugar no concerto de nossa consciência. O encarnado,
intricado, quer- se tornar brilho, luz, sol, razão e participação. Consciência.
Esse é o princípio do deus egípcio Hórus que, segundo Nise da Silveira, rege
toda a aspiração de desenvolvimento psíquico do ser humano.
O ser humano é um ser condenado à
expressão múltipla e diferenciada dos constituintes compósitos de sua endogeneidade.
A arte - téchné - habilidade, maneira esperta de fazer algo novo de valor
estético ou expressivo - é uma das mais eficazes vias de escoamento que dão
vazão ao confuso, ao indiferenciado, ao indecidido e ao inefável que comporta o
psiquismo humano.
Por meio da arte, o indivíduo diz
aquilo que ainda não tem significação e cujo sentido é realizar o enovelado das
fímbrias de sua subjetividade. Junto com a linguagem, a cinésica - a expressão
corporal - o relacionamento afetivo e erótico e as relações de trabalho, a arte
cumpre a excelsa função de contribuir para o homem vir-a-ser mais.
Quantas vezes um sujeito que não cabe
em si ou nem sabe o si de si mesmo
encontra, nos meandros do que-fazer artístico, o cânon por onde pode vir a
recuperar a trajetória de sua própria vida. Assim, se a arte nos diverte, ela
também nos supre de realização e nos cura de nossos vacilos ou de nossos
desvios.
A música, vista apenas como
manifestação artística do sentimento ao longo dos séculos, é hoje compreendida
como forma coadjuvante da terapia. Também assim outras formas de expressão ou
de manifestação de um pendor intuitivo da pessoa podem ser desenvolvidas e
aproveitadas pelo médico ou terapeuta ao escolher a maneira adequada para o
tratamento do paciente.
Pode-se dizer que a dança é hoje uma
terapia a que recorrem muitas pessoas, sobretudo as da chamada terceira idade.
Além de ser uma arte, a dança propicia um contato que favorece aqueles que a
ela se dedicam.
As artes manuais, a cerâmica, a
pintura, a escultura, permitem um “descanso” do cérebro. Enquanto as mãos
trabalham, aliviam-se as tensões acumuladas.
O ato de escrever, seja um diário, uma
poesia, uma narrativa, também produz uma espécie de catarse, que possibilita à
pessoa transferir seus problemas para um “outro eu” e dar a solução que achar
mais adequada aos problemas desse “eu”, que, no fundo, não é ninguém mais que
ela mesma. Com isso, ela se sente mais tranqüila, mais aliviada e em condições
de enfrentar a realidade.
Portanto, é possível dizer que viver é
desfrutar da saúde para poder criar em estado de arte permanente.
Por meio da arte, o homem espaventa
seus demônios, exorcizando suas excrescências. Assim, apascenta os monstros que
habitam seu mundo interno, por meio de uma catarse fecunda e criativa.
Usufruindo de boa saúde, pode então o sujeito existir na integralidade das
plenas prerrogativas de sua pessoa.
* Psiquiatra. Psicanalista.
Membro da Academia Mineira de Medicina. Membro da Academia Brasileira de
Médicos Escritores – ABRAMES.
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