sexta-feira, 15 de março de 2013

A INSPIRAÇÃO COMO CONTEÚDO DA PROSA E DA POESIA


A INSPIRAÇÃO COMO CONTEÚDO DA PROSA  E DA POESIA

 

Marco Aurélio Baggio*


 

         A inspiração brota de dentro do escritor. Escreve-se por necessidade pessoal de dar expressão lingüística a conteúdos absorvidos com antecedência, que, engravidando o escritor, exigem, a certo momento, vir à luz. A forma de expressão – prosa: conto, crônica, romance, relato – ou poesia: clássica ou meramente anárquica – é de livre escolha do escrevinhador. A Gaia Ciência – a poesia – é a exposição de seu próprio eu a julgamento e escrutínio alheios.

         A inspiração decorre da digestão e do processamento de todo material aferente, adredemente internalizado pelo psiquismo absorvente e sensível, que lhe dá um tratamento especial, resultando em uma formulação literária inovadora, emocionante e pessoal.

         O autor cria seu depoimento e o assume. Burila a forma de expressão, aprofunda o tema, publica o texto, recebe críticas e elogios e depois parte para outra produção.

         Escrever é  brinquedo de gente séria, vício de pessoa adulta. Quem começa a escrever simplesmente não pode mais parar de fazê-lo. Isso porque há uma inspiração que ocorre súbita, imperiosa, fazendo com que o escritor largue tudo – as comezinhas coisas todas de seu cotidiano – para deixar-se possuir pelo estro de escrevinhar. Uma idéia surge, brilha, impõe-se. O papel a aceita. O autor esforça-se por confeitá-la com outras idéias correlatas. Para isso, ele pesquisa seus livros de referência – os dicionários da cultura -, que são a pedreira de onde extrai boa matéria-prima para alargar a confecção do tema. Pronto: um poema ou um texto em prosa se fazem. A partir de então, é só acrescentar algo pessoal, ilustrar com casuística, estabelecer novos raciocínios instigantes, e o texto estará pronto. Depois, é só deixá-lo envelhecer na cave-gaveta, acondicionado em barril de carvalho. De quando em vez, é lido, corrigido, melhorado, acrescido, cortado, relido e revisado. Um dia, a vaidade fala mais alto que a pudicícia, e o texto é enviado ao editor para que o publique em uma de suas notáveis máquinas de divulgação. Os textos viram artigos. Estes dão origem a livros. Os livros nos motivam a participar de Encontros e Congressos. Em tais eventos, exercitamos o nobre hábito do convívio civilizado. Assim, estabelecemos padrões decentes de desfrute de amável amizade. Essa tem sido a motivação e a inspiração das instituições literárias.

         Na antigüidade clássica, conferia-se a poíesis – capacidade de escrita criativa – aos influxos provenientes das Musas, sobretudo de Érato, a poesia romântica, e a Calíope, a poesia épica.

         Alguns atribuíam a inspiração a uma revelação proveniente diretamente de uma divindade – um deus. A Bíblia e o Alcorão foram assim escritos.

         Hoje sabemos que a inspiração provém dos fundos imos mais profundos da pessoa dotada de algo inefável a que chamamos talento.

         O talento do escritor deriva da colheita e seleção de dados que faz. Com isso, o autor dá vezo à sua capacidade de imaginarização, tornando-se um iludido nefelibata. Em seguida, deixa livre curso ao ímpeto que o arrebata, de compor, produzir – poein -, fazer, criar.

         Ao longo desse processo sincrético, o escritor imprime a marca de sua pessoalidade, criando a autoria. Por vezes, chega a culminar em um estilo.

         Às vezes, a inspiração surge por um dever de ofício, tal como quando se tem de escrever uma comunicação para um congresso, um artigo de encomenda ou fazer um discurso.

         Em certos casos, a inspiração nasce como um raio, uma iluminação, um flash espoucado depois de meses ou anos de cogitação acerca do mistério de alguma coisa. Uma cristalização súbita acontece após vivências sentidas, estudos acurados e perquirição permanente sobre um assunto que nos interessa ou nos fascina.

 

         Sabemos todos – sobretudo aqueles que ousam “cometer” poesias – que a inspiração se impõe como uma necessidade de expressão de afetos ou de vivências subjetivas.

         Certos autores recolhem-se monasticamente, afastando-se das seduções e dos atravessamentos do mundo externo para poderem melhor trabalhar sua obra.

         Outros literatos declaram, como João Guimarães Rosa: A inspiração é uma espécie de transe. Só escrevo atuado, em estado de transe...

         Distam de nossa compreensão – e também de nossa realidade – aqueles que dizem psicografar algo proveniente de entidades que habitam outras esferas, como Chico Xavier.

         Muitas vezes, a inspiração decorre do trabalho cerrado, empenhado, sobre um assunto ao qual enxertamos nosso talento pessoal. Este é o caminho para a produção de obras de maior fôlego.

         Costuma acontecer de a inspiração provir de uma brincadeira, um mero divertimento, uma atividade lúdica, sobretudo em se tratando de poesia. É o que encontramos em vários autores, como Drummond, Bandeira, Paulo Leminski, quando o poeta “brinca” com as palavras, empregando-as de forma inusitada. Ou então recorrem eles a temas cotidianos, prosaicos, dando-lhes uma feição poética. Os exemplos podem começar com Chico Buarque, passando pelo pouco conhecido português Cesário Verde, “o poeta do cotidiano”.

         Escrever é deixar-se possuir por um estado de alumbramento que externaliza conteúdos mentais diferenciados e nobres, oferecendo-os à cultura e à humanidade como tributo e retribuição pessoal – ressarcitória – àquilo tudo que o escritor-autor bem absorveu delas.

         A inspiração vem a qualquer hora. Não importa onde. O que ela impõe é que se dê à luz a esperança de que as coisas e o mundo serão da maneira como deveriam ser.



* Psiquiatra. Psicanalista.  Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.

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