A INSPIRAÇÃO COMO CONTEÚDO DA PROSA E DA POESIA
Marco
Aurélio Baggio*
A
inspiração brota de dentro do escritor. Escreve-se por necessidade pessoal de
dar expressão lingüística a conteúdos absorvidos com antecedência, que,
engravidando o escritor, exigem, a certo momento, vir à luz. A forma de
expressão – prosa: conto, crônica, romance, relato – ou poesia: clássica ou
meramente anárquica – é de livre escolha do escrevinhador. A Gaia Ciência – a
poesia – é a exposição de seu próprio eu a julgamento e escrutínio alheios.
A
inspiração decorre da digestão e do processamento de todo material aferente,
adredemente internalizado pelo psiquismo absorvente e sensível, que lhe dá um
tratamento especial, resultando em uma formulação literária inovadora,
emocionante e pessoal.
O
autor cria seu depoimento e o assume. Burila a forma de expressão, aprofunda o
tema, publica o texto, recebe críticas e elogios e depois parte para outra
produção.
Escrever
é brinquedo de gente séria, vício de
pessoa adulta. Quem começa a escrever simplesmente não pode mais parar de
fazê-lo. Isso porque há uma inspiração que ocorre súbita, imperiosa, fazendo
com que o escritor largue tudo – as comezinhas coisas todas de seu cotidiano –
para deixar-se possuir pelo estro de escrevinhar. Uma idéia surge, brilha,
impõe-se. O papel a aceita. O autor esforça-se por confeitá-la com outras
idéias correlatas. Para isso, ele pesquisa seus livros de referência – os
dicionários da cultura -, que são a pedreira de onde extrai boa matéria-prima
para alargar a confecção do tema. Pronto: um poema ou um texto em prosa se
fazem. A partir de então, é só acrescentar algo pessoal, ilustrar com
casuística, estabelecer novos raciocínios instigantes, e o texto estará pronto.
Depois, é só deixá-lo envelhecer na cave-gaveta, acondicionado em barril de
carvalho. De quando em vez, é lido, corrigido, melhorado, acrescido, cortado,
relido e revisado. Um dia, a vaidade fala mais alto que a pudicícia, e o texto
é enviado ao editor para que o publique em uma de suas notáveis máquinas de
divulgação. Os textos viram artigos. Estes dão origem a livros. Os livros nos
motivam a participar de Encontros e Congressos. Em tais eventos, exercitamos o
nobre hábito do convívio civilizado. Assim, estabelecemos padrões decentes de
desfrute de amável amizade. Essa tem sido a motivação e a inspiração das
instituições literárias.
Na
antigüidade clássica, conferia-se a poíesis
– capacidade de escrita criativa – aos influxos provenientes das Musas,
sobretudo de Érato, a poesia romântica, e a Calíope, a poesia épica.
Alguns
atribuíam a inspiração a uma revelação proveniente diretamente de uma divindade
– um deus. A Bíblia e o Alcorão foram assim escritos.
Hoje
sabemos que a inspiração provém dos fundos imos mais profundos da pessoa dotada
de algo inefável a que chamamos talento.
O
talento do escritor deriva da colheita e seleção de dados que faz. Com isso, o
autor dá vezo à sua capacidade de imaginarização, tornando-se um iludido
nefelibata. Em seguida, deixa livre curso ao ímpeto que o arrebata, de compor,
produzir – poein -, fazer, criar.
Ao
longo desse processo sincrético, o escritor imprime a marca de sua
pessoalidade, criando a autoria. Por vezes, chega a culminar em um estilo.
Às
vezes, a inspiração surge por um dever de ofício, tal como quando se tem de
escrever uma comunicação para um congresso, um artigo de encomenda ou fazer um
discurso.
Em
certos casos, a inspiração nasce como um raio, uma iluminação, um flash espoucado depois de meses ou anos
de cogitação acerca do mistério de alguma coisa. Uma cristalização súbita
acontece após vivências sentidas, estudos acurados e perquirição permanente
sobre um assunto que nos interessa ou nos fascina.
Sabemos
todos – sobretudo aqueles que ousam “cometer” poesias – que a inspiração se
impõe como uma necessidade de expressão de afetos ou de vivências subjetivas.
Certos
autores recolhem-se monasticamente, afastando-se das seduções e dos
atravessamentos do mundo externo para poderem melhor trabalhar sua obra.
Outros
literatos declaram, como João Guimarães Rosa:
A inspiração é uma espécie de transe. Só escrevo atuado, em estado de transe...
Distam
de nossa compreensão – e também de nossa realidade – aqueles que dizem
psicografar algo proveniente de entidades que habitam outras esferas, como
Chico Xavier.
Muitas
vezes, a inspiração decorre do trabalho cerrado, empenhado, sobre um assunto ao
qual enxertamos nosso talento pessoal. Este é o caminho para a produção de
obras de maior fôlego.
Costuma
acontecer de a inspiração provir de uma brincadeira, um mero divertimento, uma
atividade lúdica, sobretudo em se tratando de poesia. É o que encontramos em
vários autores, como Drummond, Bandeira, Paulo Leminski, quando o poeta
“brinca” com as palavras, empregando-as de forma inusitada. Ou então recorrem eles
a temas cotidianos, prosaicos, dando-lhes uma feição poética. Os exemplos podem
começar com Chico Buarque, passando pelo pouco conhecido português Cesário
Verde, “o poeta do cotidiano”.
Escrever
é deixar-se possuir por um estado de alumbramento que externaliza conteúdos
mentais diferenciados e nobres, oferecendo-os à cultura e à humanidade como
tributo e retribuição pessoal – ressarcitória – àquilo tudo que o
escritor-autor bem absorveu delas.
A
inspiração vem a qualquer hora. Não importa onde. O que ela impõe é que se dê à
luz a esperança de que as coisas e o mundo serão da maneira como deveriam ser.
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