A LIBERDADE
O bem maior sobre a face da terra
Marco Aurélio Baggio
Liberdade
é o sentimento de que o sujeito é agente ativo de suas prerrogativas. Ele sente
que tem poder de agir e de se conduzir segundo seu desejo, seu bom senso, de
acordo com seu alvedrio.
A pessoa
livre é aquela que avalia suas circunstâncias, leva em conta suas
determinações, ultrapassa sua inércia, escolhe, implementa seu ato criativo,
avança na expressão de seu valor como ator no cenário deste mundo.
A liberdade é uma aspiração, um alento
sutil que se asperge por sobre a pessoa, dando-lhe a deliciosa sensação
ilusória de que possui um poder de arbítrio livre de condicionantes. Ela
implanta no sujeito a confiança de que ele é idealizador e o executor do que for
preciso para superar suas necessidades.
Liberdade implica a prerrogativa do sujeito de se
orientar rumo à tomada de decisão, seguida pela atitude definitória que comanda
o curso de sua ação, no qual ele comete um feito – o ato livre –, que é uma
verdadeira obra de arte pessoal. O requisito antecessor para assim agir é o
sujeito estar apetrechado de informações que lhe proporcionam amplo
conhecimento de causa.
Dotados de uma natureza vacilante de animais sujeitos a
todo tipo de necessidades e de adoecimentos e, pior ainda, estando condenados a
viver renegando a verruma da consciência de nossa própria morte, ainda assim,
temos de nos responsabilizar moralmente pelas decisões e pelos rumos que
impomos a nossa vida.
Seres de fome, de sexo, de inveja, de cobiça, irascíveis
e querelantes, ávidos de dinheiro, de reconhecimento e de garantia, somos
convidados a negar nossa natureza e empreender escolhas virtuosas e benignas.
Nossa liberdade de escolha é apenas a de nos “espremer
para limonadas”. Estamos condenados a exercer nossa pequena franja de liberdade
ao sabor do bambalango dos fatores operantes endógenos e externos,
extraindo-lhes, sagazmente, uma resultante que nos projeta para além deles.
Temos de escapar espertamente da lei da natureza: ela cria coisas novas,
destruindo as coisas já estabelecidas. Para viver e ir adiante, o homem usa sua
parca liberdade, superando necessidades, contradições, empecilhos e impasses,
escapando para o campo ainda devoluto do novo e do airoso.
É nessa nova posição que ele aufere as benesses dos ares
finos de sua liberdade.
Vivemos em um
mundo em que a grande imprensa tem o eficiente poder de expressão para difundir
uma propaganda mistificadora que transforma o sujeito livre em um leitor, em um
espectador ou em um consumidor.
Em prazo médio, a mídia não sustenta pessoa nenhuma. Trata-se de uma proposta difusa de
dispersão do sujeito de seus interesses, impedindo que esse se empenhe na
construção daquilo que lhe falta: no estabelecimento de sua consistência como
pessoa que se sustenta, do modo que lhe convém. É
necessário e justo acautelar o cidadão para só ceder parcela de sua liberdade,
desde que obtenha um intercâmbio valioso. A rigor, troca-se liberdade por
coisas que são convenientes e sustentadoras.
Por fim, é bom lembrar que a liberdade traz, em si, uma
volúpia de controle. Livre, leve, solto, o cidadão, muitas vezes, busca
restabelecer a relação de subordinação ao outro, para sentir-se seguro.
Explica-se assim o porquê de milhões de pessoas livres se lançarem, espontaneamente,
em redes de captura do sujeito. O fumo, a droga, o jogo, o sexo, a comida, o
vício, a compulsão, as quadrilhas e as seitas religiosas são excelentes
dispositivos que restringem, violenta e definitivamente, a liberdade das
pessoas, desviando suas trajetórias de vida, de maneira inapelável, para um
rótulo: viciado, obeso, bêbado, drogado, fanático, crente, bandido. Agora,
viciado em Internet.
O excesso de liberdade, muitas vezes, desvirtua e
perverte os homens. O Ocidente, no entanto, é lasso e permite que psicopatas
abusem de sua liberdade gerando, pelo excesso, uma ensandecida patologia da
liberdade.
A liberdade não pode dar vezo a que o indivíduo descometa
em suas prerrogativas como sujeito nem exorbite seus desejos, atropelando o
direito dos demais.
Toda liberdade excessiva tem de ser severamente
coibida. Só assim os finozinhos ares da liberdade podem ser aspirados em
plenitude por todos nós.
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