quinta-feira, 21 de março de 2013

Mulheres Desativadas


Mulheres Desativadas

 Marco Aurélio Baggio

        Ao sair dessa crise de horror em que me tornei pastora evangélica, doei todo meu dinheiro para a igreja universal na explícita esperança de que seria acolhida no redil dos fiéis e que, além disso, estava fazendo um alto investimento nas coisas da casa de deus e, ele, portanto, me entronizaria entre os seus eleitos. Dei com os burros de açúcar nágua. Quebrei a cara. Me desproduzi. Virei uma louca tonta, delirante e incerta descrente. Iludida e enganada. Você, sei lá como, me tirou dessa loucura. Te agradeço. Mas te cobro. E agora? Quem sou eu? Uma banana, uma porcaria de esposa desativada, de filha ingrata, de mãe desempregada e desnecessária, de ex-funcionária que não deu certo ou que não teve continuidade em uma dúzia de atividades. Tudo era pouco para mim. Sai pelo mundo buscando a grandeza, o êxito, em busca daquela parte que eu supunha que me cabia e que estava à minha espera. Desencantada com meu casamento e com minha cidade, sai para alçar novas conquistas. Tudo redundou em falimento.

            Voltar a ser esposa? Nem ele nem eu queremos mais. Não há liga, não há atração. O amor e o tesão evolaram há muito tempo. Meus filhos já não mais precisam de mim. O que ainda posso lhes oferecer, eles recebem mal. Ou então recusam agressivamente. Trabalhar? Em que? Quem vai querer dar serviço a uma mulher de 50 anos que não sabe rigorosamente fazer coisa alguma? Voltar a fazer aquelas bobaginhas que eu chamava de arte, de artesanato? Pra que? Voltar a me apaixonar por um bispo? Nem pensar: fui seduzida e trapaceada da maneira mais torpe possível. São um bando de falsos, de vendilhões de falsas promessas.

            Cuidar do patrimônio da família? Não sei administrar. Nem sei por onde começar. Melhor me acomodar e deixar como está tudo, nas mãos de meu pai.

            Assim, eu agora constato com tristeza a dura realidade em que me encontro. Sou uma esposa desativada. Uma mulher posta à margem do mercado erótico. Não sei paquerar, sair ai pela noite. Ninguém me ama, ninguém me quer. Ninguém mais me chama de bonitinha, de gostosa. Muito menos, de querida! Acabou, por decurso de prazo, minha função como mãe. Também já não sou mais dona de casa. Não tenho vida própria. Desmantelei meus cabedais. Acho que vim a este mundo por engano. Estou colocada por fora da realidade que vigora ai fora.  E pior, não sei como penetrar dentro dessa realidade. A mim falta todo tipo de interação social. Ao se desfazer a estrutura insatisfatória com que eu vivia fiquei vazia, fiquei sem função. Para que eu sirvo? Para nada. O que tentei, falhou, faliu. For ever living, herbalife, nature sunshine, amway, avon, mary kay, butiqueira do Paraguai, tentei de tudo. Sou uma pessoa vazia, sem chão e sem função. Aos 50 anos, sou uma mulher DC10: grandona, vistosa, que já foi muito útil e muito querida mas hoje caminha para o cemitério dos aviões anti econômicos, a serem desativados.”

            - Você me faz lembrar uma música do primeiro Chico Buarque: Lua cheia. De 1967.

            Seu deus e seu ideal não vieram de lugar algum.

            Sua voz, sua viola chora queixas que só eu consigo ouvir. Você quer abrir seu peito, sua vida, cantar e ser feliz. Mas a vida não se integrou, não colaborou. Você ficou triste, pudera. Você navegou mares tão diversos, tão dispersos. E assim você terminou sem versos, e ficou em vão.

            É lindo. É triste. Mas é adequado: cabe perfeitamente.

Corre assim:

 

Mas você me navegou/mares tão diversos

E eu fiquei sem versos/ e eu fiquei em vão.

 

Entre 42 e 55 anos, as mulheres que foram esposas amadas, donas de casa extremosas e mães dadivosas e que tentaram alguma atividade artística, comercial ou estudantil diletantemente, se pegam falidas, encostadas, desativadas, arremessadas na pilha de seres humanos marginalizados, a caminho do enferrujamento pessoal, rumo ao desmantelamento futuro. Esta é uma armadilha existencial que está montada em nosso tempo, em nossa sociedade.

E ninguém te alerta para esse agente roedor de carne e de gentes, chamando projeto Brasil. Abre o olho, dona: viver é sem garantias. Nobres funções humanísticas exercidas com tanto amor, empenho, carinho e bondade tem prazo inexorável de duração. Esposa nem tanto, pode durar mais, mas ser mãe e ser diletante tem sua obsolescência programada, tal qual os carros fabricados pela General Motors.

Esse nosso mundo capitalista fascinante não foi feito para as mulheres.

Pres´tenção minhas amigas queridas, todas vocês. Não se iludam quando a mídia propala que, como “jardineiras”,

Não fique triste que esse mundo é todo seu / tu és muito mais bonita que a camélia que morreu.

Este mundo não é de ninguém. Menos ainda de vocês, mulheres. Ele é duro e impérvio como casca de ovo que precisa ser bicada por todos nós, homens e mulheres, quando é tempo de sair da comodidade simbiótica do ovo da inocência e da ingenuidade diante da vida.

Bicar é preciso. Não dá para viver acomodada por 90 anos...

Ser mãe é profissão, é nobre ocupação por 20, no máximo 25 anos. De repente, a mãe está desempregada. Beleza e formosura, turgor e fofura acabam ai pelos 50 anos. Depois, é muxiba pura. Isso se não engordar e virar uma obesa, uma avantajada matrona. 

A beleza feminina é outorgada pela natureza em leasing, um empréstimo com prazo de apenas duas ou três décadas de duração.

Sem companheiro constante, rolando pelas noites e madrugadas sombrias, com uma vida sexual parca e aleatória, acumulam-se sucessão de desencantos que, logo se condensam em amarguras. Seu discurso inclui sempre a vituperação ressentida sobre aquele ou aqueles que desistiram de partilhar com ela um projeto de vida em comum.

Tristemente caminhando para se tornar uma caricatura daquela moça que foi, percebe, secretamente, que sustenta em seu íntimo, as alcandoradas expectativas românticas de vir a ser descoberta e amada por um homem dotado de todas as qualidades que seu ideal sempre concebeu. Homem esse que jamais existiu no time corriqueiro dos machos da espécie masculina. O desacerto e a frustração relacional são quase inevitáveis, portanto.

A maioria das mulheres desativadas está desempregada. Seu sustento econômico-financeiro costuma ser precário, situando-se bem abaixo do desejável e do que um dia já foi. Os caminhos que encontram para se manter são: o uso abusivo da comida ou do álcool. Umas tantas caem na volúpia da renovação semanal de parceiros sexuais. Muitas apegam, caninamente, às superstições e às falsas práticas “alternativas”. Crédulas, tornam-se consulentes de cartomantes, de videntes, de pais de santo, e quejandos... Outras transformam-se em verdadeiras “bruxas” modernas. Uma grande parcela torna-se carolas fanáticas de igrejas evangélicas. Outras tantas, apegam, aferradamente, aos filhos como o último galardão de suas vidas.

Mulheres desativadas é o equivalente no gênero feminino ao homem desempregado, fracassado, posto à margem da vida, sem amparo ou guarida, infeliz ex-mantenedor de uma família.

Nosso sistema social, cristão, industrial, urbano, capitalista, midiático, ocidental, é pródigo em criar um exército de excluídos de sua mesa e de suas Bolsas principais. Os homens sempre souberam disso. As mulheres, para desgosto de todos nós, estão descobrindo isso agora.  

As mulheres estão aprendendo a duras penas, que tudo muda, nada tem perpétuas garantias e, portanto, é inadequado e contraproducente acomodar-se, deitada em berço esplêndido. Se durante anos ou durante uma ou duas décadas ela desfrutou do conforto de viver com custo zero e benefícios altíssimos, lá um dia, o marido cansa dela e da relação, que ambos vinham mantendo, a abandona e vai embora. Olha lá se deixa uma “pensão”. Se acaso ela não se construiu como pessoa autônoma, capaz de se autossustentar, afetiva e financeiramente, corre o risco de ver descair-se em plano inclinado sua existência. Não se pode esperar que o outro – amor, marido, amante, companheiro –, zele por sua segurança e assopre constantemente sua autoestima. Seu autorrespeito e sua autoconfiança deriva de seu poderio interno. Ou não. O outro será sempre seu zelador sem cuidado. Ele – qualquer outro elegido –, não é o fiador que dará respaldo perpétuo à sua existência. Não espere que sua segurança e sua autonomia estará nas mãos dos outros, por que assim sendo, você irá despencar. Sua força é interna, como sua beleza é explícita. Caia fora da armadilha de esperar que, morando, casando ou vivendo com fulano – o amor mor a fora da armadilha de esperar que morando casando ou vivendo com fulano - o descair em plano inclinado sua exist  de sua vida – você tem garantia de que será feliz. Não deixe que ele seja dono de sua vida. Saia da dependência psíquica. O amor e o viver com alguém só é bom, só é duradouro quando os dois convivem em uma melosa matriz na qual ambos são autônomos. Isso se mantém porque é agradável e prazeroso e aos dois convém. Lembre-se que o preço de estar e de desfrutar de sua gostosa pessoa é você quem põe. Contudo, viver é adquirir cabedais, desenvolver bons recursos pessoais. Para isso é preciso ralar, trabalhar, e pagar pontualmente os custos que a vida custa para os homens e para as mulheres ao longo dos anos.

É triste e é custoso extrair os memes, as epistemes, os objetos idealizados internalizados desde a juventude de que ser mulher é realizar nova versão da Branca de Neve ou da Bela Adormecida ou ainda postar-se como núbil Princesa a ser tocada pela vara fálica de um Príncipe Encantado.

Para as mulheres desativadas é duro cair na realidade do Real. Ou vice-versa.      

    Um tipo encontradiço de mulheres desativadas è dado por mulheres entre 35 e 55 anos, fortemente presas na armadilha de se empenharem em uma profissão absorvente ou estarem metidas em um empreendimento  pessoal   que suga toda sua vitalidade. Em poucos anos perdem a seiva de viver, tornam-se monomaníacas hiperativas, vivendo apenas para o trabalho. Sua sexualidade se esvai rapidamente: ficam desinteressadas do amor, evitam o intercurso sexual, chegando  a tornarem-se frígidas. No entanto, todas se declaram “ gostar demais de sexo.” O amor passa a ser um mero ideal a ser vivido lá longe, um dia, na remotidão, que se perde no fluir do tempo...  Aí, elas engordam...

Um comentário:

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