Mulheres Desativadas
Marco Aurélio Baggio
“Ao sair dessa crise de horror em que me tornei
pastora evangélica, doei todo meu dinheiro para a igreja universal na explícita
esperança de que seria acolhida no redil dos fiéis e que, além disso, estava
fazendo um alto investimento nas coisas da casa de deus e, ele, portanto, me
entronizaria entre os seus eleitos. Dei com os burros de açúcar nágua. Quebrei
a cara. Me desproduzi. Virei uma louca tonta, delirante e incerta descrente.
Iludida e enganada. Você, sei lá como, me tirou dessa loucura. Te agradeço. Mas
te cobro. E agora? Quem sou eu? Uma banana, uma porcaria de esposa desativada,
de filha ingrata, de mãe desempregada e desnecessária, de ex-funcionária que
não deu certo ou que não teve continuidade em uma dúzia de atividades. Tudo era
pouco para mim. Sai pelo mundo buscando a grandeza, o êxito, em busca daquela
parte que eu supunha que me cabia e que estava à minha espera. Desencantada com
meu casamento e com minha cidade, sai para alçar novas conquistas. Tudo
redundou em falimento.
Voltar a ser esposa? Nem ele nem eu
queremos mais. Não há liga, não há atração. O amor e o tesão evolaram há muito
tempo. Meus filhos já não mais precisam de mim. O que ainda posso lhes
oferecer, eles recebem mal. Ou então recusam agressivamente. Trabalhar? Em que?
Quem vai querer dar serviço a uma mulher de 50 anos que não sabe rigorosamente
fazer coisa alguma? Voltar a fazer aquelas bobaginhas que eu chamava de arte,
de artesanato? Pra que? Voltar a me apaixonar por um bispo? Nem pensar: fui
seduzida e trapaceada da maneira mais torpe possível. São um bando de falsos,
de vendilhões de falsas promessas.
Cuidar do patrimônio da família? Não
sei administrar. Nem sei por onde começar. Melhor me acomodar e deixar como
está tudo, nas mãos de meu pai.
Assim, eu agora constato com
tristeza a dura realidade em que me encontro. Sou uma esposa desativada. Uma
mulher posta à margem do mercado erótico. Não sei paquerar, sair ai pela noite.
Ninguém me ama, ninguém me quer. Ninguém mais me chama de bonitinha, de
gostosa. Muito menos, de querida! Acabou, por decurso de prazo, minha função
como mãe. Também já não sou mais dona de casa. Não tenho vida própria.
Desmantelei meus cabedais. Acho que vim a este mundo por engano. Estou colocada
por fora da realidade que vigora ai fora.
E pior, não sei como penetrar dentro dessa realidade. A mim falta todo
tipo de interação social. Ao se desfazer a estrutura insatisfatória com que eu
vivia fiquei vazia, fiquei sem função. Para que eu sirvo? Para nada. O que
tentei, falhou, faliu. For ever living, herbalife, nature sunshine, amway,
avon, mary kay, butiqueira do Paraguai, tentei de tudo. Sou uma pessoa vazia,
sem chão e sem função. Aos 50 anos, sou uma mulher DC10: grandona, vistosa, que
já foi muito útil e muito querida mas hoje caminha para o cemitério dos aviões
anti econômicos, a serem desativados.”
- Você me faz lembrar uma música do
primeiro Chico Buarque: Lua cheia. De 1967.
Seu deus e seu ideal não vieram de
lugar algum.
Sua voz, sua viola chora queixas que
só eu consigo ouvir. Você quer abrir seu peito, sua vida, cantar e ser feliz.
Mas a vida não se integrou, não colaborou. Você ficou triste, pudera. Você
navegou mares tão diversos, tão dispersos. E assim você terminou sem versos, e
ficou em vão.
É lindo. É triste. Mas é adequado:
cabe perfeitamente.
Corre assim:
Mas você me
navegou/mares tão diversos
E eu fiquei
sem versos/ e eu fiquei em vão.
Entre 42 e 55 anos, as mulheres que foram esposas
amadas, donas de casa extremosas e mães dadivosas e que tentaram alguma
atividade artística, comercial ou estudantil diletantemente, se pegam falidas,
encostadas, desativadas, arremessadas na pilha de seres humanos marginalizados,
a caminho do enferrujamento pessoal, rumo ao desmantelamento futuro. Esta é uma
armadilha existencial que está montada em nosso tempo, em nossa sociedade.
E ninguém te alerta para esse agente roedor de carne
e de gentes, chamando projeto Brasil. Abre o olho, dona: viver é sem garantias.
Nobres funções humanísticas exercidas com tanto amor, empenho, carinho e
bondade tem prazo inexorável de duração. Esposa nem tanto, pode durar mais, mas
ser mãe e ser diletante tem sua obsolescência programada, tal qual os carros
fabricados pela General Motors.
Esse nosso mundo capitalista fascinante não foi feito
para as mulheres.
Pres´tenção minhas amigas queridas, todas vocês. Não
se iludam quando a mídia propala que, como “jardineiras”,
Não fique
triste que esse mundo é todo seu / tu és muito mais bonita que a camélia que
morreu.
Este mundo não é de ninguém. Menos ainda de vocês,
mulheres. Ele é duro e impérvio como casca de ovo que precisa ser bicada por
todos nós, homens e mulheres, quando é tempo de sair da comodidade simbiótica
do ovo da inocência e da ingenuidade diante da vida.
Bicar é preciso. Não dá para viver acomodada por 90
anos...
Ser mãe é profissão, é nobre ocupação por 20, no
máximo 25 anos. De repente, a mãe está desempregada. Beleza e formosura, turgor
e fofura acabam ai pelos 50 anos. Depois, é muxiba pura. Isso se não engordar e
virar uma obesa, uma avantajada matrona.
A beleza feminina é outorgada pela natureza em leasing, um empréstimo com prazo de
apenas duas ou três décadas de duração.
Sem companheiro constante, rolando pelas noites e
madrugadas sombrias, com uma vida sexual parca e aleatória, acumulam-se
sucessão de desencantos que, logo se condensam em amarguras. Seu discurso
inclui sempre a vituperação ressentida sobre aquele ou aqueles que desistiram
de partilhar com ela um projeto de vida em comum.
Tristemente caminhando para se tornar uma caricatura
daquela moça que foi, percebe, secretamente, que sustenta em seu íntimo, as
alcandoradas expectativas românticas de vir a ser descoberta e amada por um
homem dotado de todas as qualidades que seu ideal sempre concebeu. Homem esse
que jamais existiu no time corriqueiro dos machos da espécie masculina. O
desacerto e a frustração relacional são quase inevitáveis, portanto.
A maioria das mulheres desativadas está desempregada.
Seu sustento econômico-financeiro costuma ser precário, situando-se bem abaixo
do desejável e do que um dia já foi. Os caminhos que encontram para se manter
são: o uso abusivo da comida ou do álcool. Umas tantas caem na volúpia da
renovação semanal de parceiros sexuais. Muitas apegam, caninamente, às
superstições e às falsas práticas “alternativas”. Crédulas, tornam-se
consulentes de cartomantes, de videntes, de pais de santo, e quejandos...
Outras transformam-se em verdadeiras “bruxas” modernas. Uma grande parcela
torna-se carolas fanáticas de igrejas evangélicas. Outras tantas, apegam,
aferradamente, aos filhos como o último galardão de suas vidas.
Mulheres desativadas é o equivalente no gênero
feminino ao homem desempregado, fracassado, posto à margem da vida, sem amparo
ou guarida, infeliz ex-mantenedor de uma família.
Nosso sistema social, cristão, industrial, urbano,
capitalista, midiático, ocidental, é pródigo em criar um exército de excluídos
de sua mesa e de suas Bolsas principais. Os homens sempre souberam disso. As
mulheres, para desgosto de todos nós, estão descobrindo isso agora.
As mulheres estão aprendendo a duras penas, que tudo
muda, nada tem perpétuas garantias e, portanto, é inadequado e contraproducente
acomodar-se, deitada em berço esplêndido. Se durante anos ou durante uma ou
duas décadas ela desfrutou do conforto de viver com custo zero e benefícios
altíssimos, lá um dia, o marido cansa dela e da relação, que ambos vinham
mantendo, a abandona e vai embora. Olha lá se deixa uma “pensão”. Se acaso ela
não se construiu como pessoa autônoma, capaz de se autossustentar, afetiva e
financeiramente, corre o risco de ver descair-se em plano inclinado sua
existência. Não se pode esperar que o outro – amor, marido, amante, companheiro
–, zele por sua segurança e assopre constantemente sua autoestima. Seu
autorrespeito e sua autoconfiança deriva de seu poderio interno. Ou não. O
outro será sempre seu zelador sem cuidado. Ele – qualquer outro elegido –, não
é o fiador que dará respaldo perpétuo à sua existência. Não espere que sua
segurança e sua autonomia estará nas mãos dos outros, por que assim sendo, você
irá despencar. Sua força é interna, como sua beleza é explícita. Caia fora da
armadilha de esperar que, morando, casando ou vivendo com fulano – o amor de sua vida – você tem garantia de que será
feliz. Não deixe que ele seja dono de sua vida. Saia da dependência psíquica. O
amor e o viver com alguém só é bom, só é duradouro quando os dois convivem em
uma melosa matriz na qual ambos são autônomos. Isso se mantém porque é
agradável e prazeroso e aos dois convém. Lembre-se que o preço de estar e de
desfrutar de sua gostosa pessoa é você quem põe. Contudo, viver é adquirir
cabedais, desenvolver bons recursos pessoais. Para isso é preciso ralar,
trabalhar, e pagar pontualmente os custos que a vida custa para os homens e
para as mulheres ao longo dos anos.
É triste e é custoso extrair os memes, as epistemes,
os objetos idealizados internalizados desde a juventude de que ser mulher é
realizar nova versão da Branca de Neve ou da Bela Adormecida ou ainda postar-se
como núbil Princesa a ser tocada pela vara fálica de um Príncipe Encantado.
Para as mulheres desativadas é duro cair na realidade
do Real. Ou vice-versa.
Um tipo
encontradiço de mulheres desativadas è dado por mulheres entre 35 e 55 anos,
fortemente presas na armadilha de se empenharem em uma profissão absorvente ou
estarem metidas em um empreendimento
pessoal que suga toda sua
vitalidade. Em poucos anos perdem a seiva de viver, tornam-se monomaníacas
hiperativas, vivendo apenas para o trabalho. Sua sexualidade se esvai
rapidamente: ficam desinteressadas do amor, evitam o intercurso sexual,
chegando a tornarem-se frígidas. No entanto,
todas se declaram “ gostar demais de sexo.” O amor passa a ser um mero ideal a
ser vivido lá longe, um dia, na remotidão, que se perde no fluir do
tempo... Aí, elas engordam...
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