quinta-feira, 21 de março de 2013

CULPA OU VAIDADE?


CULPA OU VAIDADE?

 

Marco Aurélio Baggio


 

            Freud descobriu e descreveu a pulsão sexual que se transforma em desejo ao investir sobre o objeto em sua busca pelo prazer. O princípio do prazer é o primeiro básico fiador que mantém o interesse do indivíduo em querer cuidar de manter-se vivo.  Dadas as dificuldades, os protelamentos e os encolhos determinados pela impertinência da realidade proveniente do entorno do sujeito, o inconsciente passou a criar, a expandir e conceber um mundo psíquico colateral, compensatório, alternativo: o simbólico. Nisso foi muito bem sucedido. Em grande parte, esse deslocamento  tem sido responsável pela expansão da bolha de psiquização do sujeito. Também pode ser responsabilizado pela criação da cultura e, no limite, pela civilização.

            Assim, foi a impossibilidade de livre curso de o desejo esvair-se em satisfação e prazer que gerou um diferencial positivo e valioso. No entanto, nos dias de hoje, a interdição já não mais segura tanto o sujeito e, por conseqüência, bem menos o estabelece. Num mundo afluente de bens e de desfrutes, num capitalismo narcísico hegemônico e globalizado, o sujeito quer desfrutar o gozo pleno, imediato, num presente tornado extenso. A pessoa abomina a interdição o quanto possa, embora ainda precise dela. O que prevalece é a psiquização de um eu inflado, narcísico, arrogante, pretensioso e muito potente.

            O simbólico vem perdendo sustentação e poder de estruturação do psiquismo das pessoas, ultrapassado pela urgência e imperiosidade da busca quase desvairada da satisfação imediata da pulsão.

            Um novo modelo de sujeito psíquico está nascendo, para além da interdição e do sentimento de culpa. Uma nova organização do vínculo social tem-se salientado, movida a interesse social, instruída agora pelo sentimento mais elevado da vaidade.

            Uma nova Ética que norteie a conduta humana terá de ser encontrada. Uma Ética que se baseie não mais no mero desejo, mas sim na noção de Valor. Valor é tudo aquilo que, selecionado e escolhido, prova ser capaz de facilitar o contato e a comunicação entre as pessoas. É o que acresce a hominização dos seres humanos. Responde pelo conceito de eudaimonia, como  ensinava  Aristóteles.

Sem dúvida, estaremos criando uma Ética adequada aos modos futuros de estabelecer uma convivência humana multivariegada, conveniente e fecunda.

            Não mais tanta interdição, mas o que deve prevalecer é um aproveitamento mais amplo da relação com os objetos. Não mais o sentimento judaico-cristão de culpa, mas o usufruto do brilhante afeto da vaidade. Não mais a protelação do prazer, deslocado sempre para um tempo futuro mais favorável, mas sim o desfrute imediato e maciço dentro de um presente extenso, pantanoso. Agora o que vale é aquilo que tem interesse em ampliar os modos humanos favoráveis de convivência. Este é um novo paradigma que irá instruir a prática social como motivador dos novos laços que unem os homens na sociedade.

            Como principal fonte de conhecimento e de teorização sobre a subjetividade humana, a psicanálise estará atenta a essa mudança de paradigma que vem, rapidamente, prevalecendo nas relações e interações entre os homens.

 

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