CULPA OU VAIDADE?
Marco Aurélio Baggio
Freud descobriu e descreveu a pulsão sexual que se
transforma em desejo ao investir sobre o objeto em sua busca pelo prazer. O
princípio do prazer é o primeiro básico fiador que mantém o interesse do
indivíduo em querer cuidar de manter-se vivo.
Dadas as dificuldades, os protelamentos e os encolhos determinados pela
impertinência da realidade proveniente do entorno do sujeito, o inconsciente
passou a criar, a expandir e conceber um mundo psíquico colateral, compensatório,
alternativo: o simbólico. Nisso foi muito bem sucedido. Em grande parte, esse
deslocamento tem sido responsável pela
expansão da bolha de psiquização do sujeito. Também pode ser responsabilizado
pela criação da cultura e, no limite, pela civilização.
Assim, foi a impossibilidade de livre curso de o desejo
esvair-se em satisfação e prazer que gerou um diferencial positivo e valioso.
No entanto, nos dias de hoje, a interdição já não mais segura tanto o sujeito
e, por conseqüência, bem menos o estabelece. Num mundo afluente de bens e de
desfrutes, num capitalismo narcísico hegemônico e globalizado, o sujeito quer
desfrutar o gozo pleno, imediato, num presente tornado extenso. A pessoa
abomina a interdição o quanto possa, embora ainda precise dela. O que prevalece
é a psiquização de um eu inflado,
narcísico, arrogante, pretensioso e muito potente.
O simbólico vem perdendo sustentação e poder de
estruturação do psiquismo das pessoas, ultrapassado pela urgência e
imperiosidade da busca quase desvairada da satisfação imediata da pulsão.
Um novo modelo de sujeito psíquico está nascendo, para
além da interdição e do sentimento de culpa. Uma nova organização do vínculo
social tem-se salientado, movida a interesse social, instruída agora pelo
sentimento mais elevado da vaidade.
Uma nova Ética que norteie a conduta humana terá de ser
encontrada. Uma Ética que se baseie não mais no mero desejo, mas sim na noção
de Valor. Valor é tudo aquilo que, selecionado e escolhido, prova ser capaz de
facilitar o contato e a comunicação entre as pessoas. É o que acresce a
hominização dos seres humanos. Responde pelo conceito de eudaimonia, como
ensinava Aristóteles.
Sem dúvida, estaremos
criando uma Ética adequada aos modos futuros de estabelecer uma convivência
humana multivariegada, conveniente e fecunda.
Não mais tanta interdição, mas o que deve prevalecer é um
aproveitamento mais amplo da relação com os objetos. Não mais o sentimento
judaico-cristão de culpa, mas o usufruto do brilhante afeto da vaidade. Não
mais a protelação do prazer, deslocado sempre para um tempo futuro mais
favorável, mas sim o desfrute imediato e maciço dentro de um presente extenso,
pantanoso. Agora o que vale é aquilo que tem interesse em ampliar os modos
humanos favoráveis de convivência. Este é um novo paradigma que irá instruir a
prática social como motivador dos novos laços que unem os homens na sociedade.
Como principal fonte de conhecimento e de teorização
sobre a subjetividade humana, a psicanálise estará atenta a essa mudança de paradigma
que vem, rapidamente, prevalecendo nas relações e interações entre os homens.
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