quinta-feira, 21 de março de 2013

DOR HUMANA


DOR HUMANA

Marco Aurélio Baggio 

É bem mais fácil fazer carreira mortífera do que viver com dignidade.

Trauma no parto, circuncisão feita sem anestesia, machucados, nada trazem de bom. Lesões e sofrimentos repetitivos comprometem a capacidade de homeostase do organismo.

               

O sofrimento do trauma acarreta, inexoravelmente, o descarrilamento da continuidade de sentido da vida do acometido. Seu funcionamento físico e emocional fica  muito prejudicado.

        O pensamento fixado constantemente no infausto evento traumático está associado a expressivo prejuízo no funcionamento pessoal, com queda do desempenho social e empobrecimento da capacidade de realizar atividades cotidianas.

        O trauma e a maldade infligida e sofrida, fica incrustada na dimensão inconsciente do psiquismo da pessoa e reverbera por toda a endogeneidade do sujeito, rebaixando sua vitalidade.

               

O ser humano é um animal delicado, sensível e frágil. Detesta ser exposto ao desamparo, é sensível à rejeição, não tolera ser traído ou enganado. Injúrias e ataques à sua integridade física e desprezo para com a sua pessoa detonam sua autoestima.

                Sofrer não serve para nada. Tudo ao contrario do que, doloríficamente, pregam certas convicções. Sofrer cerceia  a eficiência pessoal de existir. É constatável que o sofrimento encontra-se inserido na natureza humana. Masoquistas adoram ver (e fazer) a própria caveira.

Mas sempre nutrimos a esperança de seu alívio e a esperança é um prazer.

        Ainda o melhor antídoto preventivo ao sofrimento é conseguir dar um sentido à própria vida.

       

        Viver dói. Viver machuca, envelhece e adoece.

Viver cansa: desgasta as reservas endógenas de vitalidade.

        Amar sem ser correspondido dói.

Ser abandonado por pessoa querida é doloroso.

Ser rejeitado dói por demais. Não ter seus méritos reconhecidos é lancinante. Adoecer é lesão de lesa-majestade ao narcisismo da pessoa.

Com o tempo, cartilagens, tendões, músculos, o corpo todo dói. Feridas e machucados aparentemente cicatrizados , voltam a doer. Traumas e microtraumas, as famosas descortesias sofridas no cotidiano, voltam a cobrar seu preço em sofrimento.

Existir por longo tempo, dói. A outra opção, que remédio!,  é desexistir...

        Paga-se um preço em dor pelo desespero doido doído de se ser quem se é. Igualmente, sofre-se a dor de não saber quem se é.

        Também, constatar ter ficado para trás, superado em tanta coisa, por essa avassaladora avalanche de novidades e de tecnologias, colocando o indivíduo como um inepto inútil old fashioned, ultrapassado, um animal em exclusão.

        O câncer dói. O infarto. O esmagamento nos carros nas estradas brasileiras. A artrite reumatóide, a fibromialgia dói demais e por tempo demais.

Por fim, o sofrimento assusta inutilmente o ser humano.

O que mais dói é meter-se na lama de não ser o que se quis...

Já que a dor da gente ( não ) sai nos jornais...

Do Sublime


Do Sublime
 
Marco Aurélio Baggio.
 
       Livro de ouro... que faz o elogio do salto ao risco. O gênio contém vigor, valor único, exigência de tensão, energia, determinação. Eis o que torna a obra sublime.
        Trata-se de um dom, de uma graça especial. O poeta é grande pela natureza e pela arte. Physis  e nómos: dom biológico, inato, acoplada à regra, à técnica, à norma.
        É necessário estimular nossos dons naturais para a grandeza. Precisamos de aguilhão para desenvolver nossos potenciais inatos e latentes. Também precisamos de freio, de contensão e de parâmetros para regular e conduzir nossa violência pulsional desembestada.
        A natureza dá leis a si mesma. Ela é autônomos.
        O método define as quantidades e as ordenações. O Káiros é a ocasião oportuna que nasce da visão clínica do artista por sobre o conjunto circunstante de oportunidades. Trata-se da diagnose, do discernimento. Inserir a quantidade na qualidade é um valor.
        15 – Sublime é o que agrada universalmente sempre a todos. Longino possui uma cultura, uma humanitas. Pensamentos elevados -> logos, ratio, nous.
Paixão violenta -> pathós.
        17 O sublime é o eco da grandeza da alma: megalophrosyne. Paradoxo da resposta em silêncio.
        Ennóia é o conceito, pensamento.
        Phrónema designa tanto pensamento quanto sentimento. Três grandes poetas: Homero, Demóstenes e atrás, Platão. Também Tucídides.
        21 O sublime ri das distinções e das categorias que artificialmente estabelecemos.
        22 Lucano descreve a guerra civil presente no mundo interno das pessoas, com todas as angustias humanas que não encontram guarida fora dela.
        Pela idéia da criação judia, deus é onipotente. Para os gregos, deus nada pode criar ex nihilo. Para eles, há coisas por natureza impossíveis. A natureza é autônomos, produz sua própria lei.
        Deve-se constranger o múltiplo disperso em união, em unidade. Articular os membros componentes distintos.
        O escritor cria para o futuro, à partir do enfrentamento desassombrado de seus concorrentes,.
26 O sublime torna-se sublime para todos os homens e para a eternidade.
        É necessário a amplificação (aúxesis) do tema. Sua imitação (mímesis) e sua aparição (phantasia): o imaginário.
        O sublime reside na elevação, na qualidade, na chegada do talento. Sem deuses, sem musas, sem fisiologia.
        É necessário uma exaltação violenta de espírito para rivalizar com os grandes antecessores.
        Pensar é ver, visualizar. Mesmo aquilo que a Phantasia não viu ainda.
        Metáfora possui clareza, concordância, adequação e leve estranheza. Phós: a luz.
        Paradoxo da luz é por em evidência, fazer aparecer, triunfando sobre a sombra que a acompanha.
33 O sublime visa o sobre-humano. Supõe o risco. Xenofonte descreve com acuidade o olho e o corpo humano. É craque em descrever a anatomia humana.
        Se prende à força, à vitalidade do escritor, questão de pnêuma, e de tonos.
        O sublime é a violência que desequilibra, a audácia de expressão que reside próxima ao transe, ao delírio, ao êxtase, e à paixão.
37 Plotino conceituava a arte como “estupor, choque suave, desejo, amor e terror acompanhado de prazer.” Freud manifestou terror ao postar-se diante da estátua de Moisés esculpida por Michelangelo.
O éthos é o caráter, a moralidade.
39 O páthos está para o sublime, assim como o éthos está para o prazeroso.
        O sublime de Longino é uma estética sem ilusão.
 
Do Sublime.
 
        43 O pequeno tratado de Cecílio sobre o sublime, meu caro Postúmio Terenciano apenas mostra o assunto. O sublime é alcançar o ponto mais alto, a eminência do discurso. É o que conduz ao êxtase, lançando ao redor do tempo a rede de sua glória.
        O sublime causa choque, o maravilhoso supera aquele que visa apenas persuadir e a agradar. É um raio que dispersa tudo e concentra a força do orador.
45 É necessário pastorear a grandeza. Precisa de aguilhão mas também de freio.
        Para Demóstenes, o maior bem é a sorte. O segundo, é deliberar bem.
São vícios: Evitar o inchaço; evitar a paixão vazia e fora de propósito ou parentirso. Frieza.
50 O que está na origem de nossos bens também está quase sempre na origem de nossos males.
51 Nenhuma coisa cujo desprezar tenha grandeza é grande, tal como riquezas, honras, distinções, tiranias. Sob o efeito do verdadeiro sublime, nossa alma se eleva e, atingindo soberbos cumes, enche-se de alegria e de exaltação, como se ela mesma tivesse gerado o que ouviu.
52 Grande é o inesquecível e o inapagável.
Sublime é o que agrada sempre e a todos.
52 Cinco fontes do sublime:
1- A aptidão e a adequação da palavra.
2- A paixão violenta criadora de entusiasmo.
3- A fabricação de figuras e de imagens.
4- A expressão da nobreza de idéias e de sentimentos.
5- A composição digna e elevada.
 
Evitar paixões baixas: lamentações, temores, sofrimentos, pensamentos ignóbeis.
O sublime é o eco da grandeza da alma.
Buscar a hipérbole da grandeza, o impulso para o grande salto rumo ao transcendente laico, não divinatório. Zoilo chama os homens de “porquinhos chorosos.”
59 Tornar o discurso sublime é atar as partes que coexistem com a matéria que as constitui, escolhendo sempre os elementos constitutivos essenciais, articulando-os uns com os outros, integrando-se por fim, num só corpo.
64 Platão na República: quando os homens são levados para baixo, ele se matam por causa de seu insaciável desejo.
65 Imitar os grandes escritores e poetas sobem os eflúvios, tornam-se capazes de profetizar grandezas.
        A fonte Homérica fez derivar para si milhares de riachos a partir de Platão.
        Homero é o primeiro, Rivalizar com ele é sadio. Buscar grandeza de expressão e elevação de pensamento. Colocar nosso discurso sob o julgamento de Homero, de Demóstenes, de Tucídides. Buscar a veemência.
68- Eurípedes busca representar na tragédia o delírio e o amor.
71 De duas coisas colocadas juntas, a mais forte atrai sempre a força da outra.
73 “Nenhum homem se alegrará de afligir meu coração.” Êupolis.
75 Interrogar e responder a si mesmo como a um outro torna mais digno de fé e mais sublime.
131 Assíndetos são ausência de ligações entre as palavras. Anáfora é repetição de uma palavra. Epanáfora. Quatro paixões estóicas fundamentais: dor, alegria, temor, desejo.
77 Ordem desordenada. A desordem contém em si, já, certa ordem.
78 Hiperbatos: ordem de pensamentos ou de sentimentos perturbados por paixões violentas. Sabe-se que as paixões são inumeráveis.
81 Assuntos que admitem a jactância, a abundância (Poros) ou a hipérbole ou a paixão. Pendurar sinos por toda parte é coisa de sofista.
85- Perífrase contribui como acessório acompanhamento para o sublime. “Fazeis do esforço o guia de uma vida feliz.” Xenofonte.
86- A escolha dos termos próprios e magníficos atrai e encanta os ouvintes. É a preocupação máxima do literato, pois proporciona grandeza, beleza, belo verniz, peso, força, vigor e um certo brilho aos discursos. Os belos nomes são a luz própria do pensamento.
        São a substancia e os substantivos do discurso.
        O que é familiar inspira já mais confiança.
        Aristóteles e Teofrasto ensinam maneiras de atenuar a ousadia das metáforas: “Por assim dizer”.
                                        “Se alguma forma”.
                                        “Se é preciso falar dessa maneira”.
“Se se deve falar com uma temeridade particularmente excessiva.”
89- Xenofonte pinta pomposamente a anatomia do corpo humano. O prazer dos humanos é a isca do mal e a língua a pedra de toque do gosto.
90- As metáforas são criadoras do sublime.
91- As naturezas superiores são as menos isentas de defeitos uma vez que cometem um pouco de negligência. A memória do erro subsiste sem se apagar, enquanto o belo desaparece rapidamente.
        Os grandes caem por causa de sua própria grandeza.
        Apolônio e Teócrito são perfeitos. Porém menores que Homero, mesmo quando Homero cochila.
94- A natureza não nos fez um ser vil e baixo. Somos contempladores de tudo que se passa e lutadores cheios de ambição; logo ela fez nascer em nosso psiquismo um amor invencível a tudo que é eternamente grande e mais sublime.
95- As intuições atravessam os limites do invólucro. O que se admira é sempre o inesperado.
95- Grandes homens estão longe de ser isentos de erros. No entanto, o sublime os eleva perto de grandeza. Compram seus erros com um único acerto perfeito do sublime.
99- Arranjar as palavras com harmonia para persuadir e agradar aos homens. A harmonia faz uníssono com o sublime.
100 A contribuição de numerosos elementos constitui a grandeza.
105- Não descer á sujeira, á cozinha, às coisas desprezíveis. A natureza escondeu o quanto pode nossas excreções. Xenofonte.
106- A liberdade é apta para nutrir os pensamentos dos grandes espíritos e para enchê-los de esperança. Também para derramar o desejo de rivalidade recípocra e de concorrência pelo primeiro lugar.
107- É próprio do homem censurar sempre o presente. Mas é a guerra (interna) que mantém nossos desejos em tormenta, o que destrói as grandes naturezas.
        Somos todos doentes por não podermos nos fartar.
        O amor ao prazer fazem-nos escravos. É a mais aviltante das doenças.
        A riqueza gera filhos como a cupidez, o orgulho, a luxúria e mais tarde, tiranos inexoráveis, como seja a violência, a ilegalidade e a impudência.
        O homem deve olhar para o alto, buscando renome na posteridade.
        Livres talvez nossas ambições queimariam o mundo inteiro com seus crimes. Por isso, tantos preferem ser comandados a ser livres.
113- Eunápio: Longino é uma biblioteca e uma universidade ambulante.
Hipócrates: a arte é longa, a vida, á curta, a ocasião é aguda.
O saliente é o que sobressai; a eminentia de Plínio.
123 – Mania e pneuma. Loucura e sopro. É o transe da Pitia, o Oráculo do templo de Delfos.
134- O Doríforo de Policleto é o Cânone: Livro e estátua. Contém: relação, proporção, uma vez que a medida áurea é o que é essencial.              

DISTIMIA


DISTIMIA

 

MARCO AURÉLIO BAGGIO

 

 

 

Distimia é distúrbio de humor caracterizado por curso clínico crônico. Trata-se de um transtorno de estado de ânimo medianamente rebaixado, entrecortado por rajadas de irritabilidade e mau humor. Possui uma escolta de sinais e de sintomas: Postura caidaça; fadiga ligeira, crônica; pessimismo; autoestima rebaixada; capacidade de trabalho diminuída; perspectiva cerrada e ensombrecida sobre o futuro; sentimentos de culpa excessivos; sentimento de desvalor; prejuízo grave de suas atividades; aumento da propensão para doenças físicas por comorbidade. Vigora no distímico uma sensação apremiante de inadequação pessoal.

       Sua prevalência situa-se em torno de 5 a 6% na população, inserida que está em um universo populacional de 50 por cento de pessoas deprimidas.

       Como típica depressão menor, a distimia pode se manifestar de diferentes formas sindrômicas, a saber:

 

Distimia ansiosa, na qual a baixa de humor é escoltada por  aflição e uma inquietude persistente, além de hipersensibilidade e sentimento de rejeição pessoal.

 

Distimia anérgica, na qual predomina a letargia e a inibição para não tomar iniciativas, além de cansaço fácil e incapacidade de extrair prazer nas coisas corriqueiras da vida ( anedonia).

 

Distimia irritada, quadro mais freqüente, no qual o sujeito mostra-se ranzinza, implicante, intolerante, rabugento, até birrento e impertinente. A ranzinzice é o coroamento desse estado distímico.

      

       Entre as causas, a predisposição genética prevalece. A constituição da personalidade, retraída, embutida, timorata, onde encontramos o isolamento social em uma pessoa passiva e dependente.

       Sertralina mais psicoterapia interpessoal de viés psicanalítico, escoltada por alguma atividade física e bons encontros, dão bons resultados terapêuticos.

       O tratamento psiquiátrico objetiva elevar o patamar do ânimo e do humor para nível de eutímia. Com a psicoterapia, corrigem-se os desacertos e os desencontros na vida de relação do cliente, inserindo-o em uma cadeia produtiva de avanços e de bons achados e de boas conquistas.

Dinheiro


Dinheiro

 

Marco Aurélio Baggio


 

            O dinheiro é a maior invenção da humanidade. É o viabilizador geral das relações entre os homens.

            No mundo capitalista, tudo faz passagem pelo dinheiro. Tudo se mede por uma quantia em dinheiro.

            A vida entre humanos se dá mediante trocas.  A pecúnia é o fiador geral dos intercâmbios entre os seres humanos.

            A moeda, com seu valor de face acreditado pelos atores em uma sociedade, é a insígnia de valor que flui e possibilita o comércio dos produtos, das mercadorias e dos bens que enriquecem as pessoas e as sociedades.

             Se 2 ou 3 bilhões de habitantes do planeta ainda vivem com 1 dólar de renda diária, dá pena vê-los viver uma vida tão pobre. Para esses miseráveis, nem tudo é o dinheiro. Tudo é a falta do dinheiro. A miserabilidade da escassez da água, a alimentação desnutrida, a falta de esgotos e as habitações paupérrimas são inexoráveis decorrências.

 

            Como diz amiga minha:

        Já fui pobre, já fui rica. Ser rica é melhor...

 

            Tradicionalmente, o trabalho bem executado e bem remunerado é a mais importante fonte de criação de riqueza.

            Assim, o trabalho contratado por alguém ou por algum órgão ou empresa dele necessitado gera um estipêndio, uma contrapartida, sob a forma de remuneração ou salário.

            Salários acumulados constituem a renda que permite fartura, abundância de aquisições e de consumo. Renda sustentada ao longo de meses ou de anos gera afluência, isto é, acesso à variedade de bens de consumo variados e suntuários.

            Excesso de dinheiro desperta a ganância, essa má virtude que implica o acúmulo obsessivo, descomedido, de dinheiro sobre dinheiro.

            O homem rico habitualmente torna-se uma pessoa ávida em acumular mais cabedais. 

            Há uma regra: quem é muito rico tende a acumular mais e mais fortuna.

            Por isso, há uma lei no capitalismo a indicar que o dinheiro tende a se acumular na posse de quem tem mais e mais dinheiro.

            O trabalho de bilhões de indivíduos gera riquezas que fazem passagem pelo dinheiro.

            O sistema do capital criou um agente esperto, altamente eficaz e operativo: o lucro. Toda atividade econômica deve ultrapassar seu custo de produção e gerar um excedente, um surplus, um algo mais, um busílis, um objeto a, chamado lucro.

            É o lucro que compensa e compassa a trabalheira, o desgaste, o emprego das horas de vida despendidas na tarefa. É o lucro que coroa com satisfação afetiva e realização pessoal o empreendimento efetivado. O lucro é o brilho decorrente do trabalho bem feito.

            Mais que a posse da terra, o butim de guerra extorquido, mais que os princípios de honra ou de preconceitos, o dinheiro, uma vez acumulado sob a forma de capital, pode ser emprestado de um possuidor a outro, tomador de empréstimo, para fecundar seu empreendimento. Desde a aurora dos tempos, o rico possuidor empresta seu dinheiro ao necessitado tomador, mediante a imposição de uma taxa a mais de restituição.

            Esse menino moleque, solerte e artiloso, chama-se juros. A taxa de juros obriga o tomador a ser diligente e muito produtivo para com o capital que lhe foi emprestado. Ao fim do prazo contratado, terá de devolver o capital, acrescido dos juros combinados e, dessa operação, tratará de apurar o seu próprio lucro, o que, eventualmente, permitir-lhe-á acumular seu próprio capital. Haja diligência, esforço e confiança em si mesmo!...

            Por fim, é bom lembrar que dinheiro não é elástico, não estica. Dinheiro só se gasta uma vez.

            Endividar-se é contaminar-se, inoculando um câncer em seu psiquismo.

            Sobretudo, é imprescindível cautela no trato com o dinheiro, uma vez que não admite desaforo.

            Já as relações que implicam dinheiro à vista, na hora, esplande qualquer pessoa.

 

            Sabe-se, com certeza, que não há nada como o dinheiro para estimular as boas inclinações das pessoas. Os talentos quase só afloram sob o influxo generoso do mecenato.

            Foi a posse de quantias suficientes e sustentadas por décadas que permitiu surgisse a classe média. Esta que, desde o século XIX, postou-se entre a aristocracia, a burguesia e os plutocratas, em cima, na pirâmide social, com os operários, os pequenos assalariados e os miseráveis excluídos, colocados nos estratos inferiores da pirâmide social. A enorme classe média, como detentora do dinheiro bastante para o consumo, permitiu o aparecimento da sociedade moderna ocidental em todos os países que tiveram a felicidade de constituí-la. Sabe-se que é a extensa classe média que sustenta a maior e a mais pujante parcela da economia de um país  em prosperidade.

DICIONÁRIO MINEIRO


Dicionário Mineiro



Marco Aurélio  Baggio

 

 

Cuié – colher.

Porvilhio – polvilho.

Lidileite – litro de leite.

Mastumate - massa de tomate.

Dendapia – dentro da pia.

Kidicarne – kilo de carne.

Trádaporta – atrás da porta.

Badacama – embaixo da cama.

Quedê – cadê.

Picumel – pinga do mel.

Iscodidente – escova de dente.

Nossinhora – nossa senhora.

Perrengue—adoentado, depletado de ânimo.

Pondiõins – ponto de ônibus.

Denduforno - dentro do forno.

Secopassado – século passado.

Doidimais – doido demais.

Tidiguerra – tiro de guerra.

Dentifrisso – dentifrício.

Ansdionti – antes de ontem.

Sessetembro – sete de setembro.

Sapassado – sábado passado.

Óiuchêro – olha o cheiro.

Pradaliberdade – praça da liberade.

Vidperfume – vidro de perfume.

Óipcevê – olha para você ver.

Tissdaí – tira isso daí.

Rugoiáis – rua Goiás.

Onquié – onde é que é.

Pronvocô – para onde que eu vou.

Oncotô – onde é que eu estou.

casopô – caixa de isopor.

Quainahora – quase na hora.

Quinunvô – que não vou.

Prõsnóstãmuínu – para onde estamos indo.

Fedazunha.

Fedaputa. Filho da puta.

Póparacomisso. Pode parar com isso.

Trabiceiro. Travesseiro.

Sambambaia. Samambaia.

Cuméquié? Como é que é?

Pópôpó? Pô? Pode por pó? porra?

Némemo? Não é mesmo?

Entrerti – Enterti.

Cekisabe – Você  é que sabe.

Cafundó- lugar muito longe e ruim.

Candonga—Intriga, mentira, malidicência.

Istrudia – Outro dia.

Popatapatáio – Pó prá tapar talho.

Quastodia – quase todo dia.

Quarquerum – qualquer um.

Fidumaégua – filho de uma égua.

Purcaisdiquê – por causa de quê.

Vaparanaí – vai parando aí.

Éissoaisô – é isso ai sô.

Augusdilima- Augusto de Lima.

Trabiçero- travesseiro.

Abobra- abóbora.

Cafuné—caricia no couro cabeludo pré nego acalmar.

Me inclui fora dessa...

Estrupício_ trapalhão, inconveniente.

Ladino_ esperto, safado.

Imbondo—Confusão, patranha, furrupa.

Cuité_ cabaça, pequena vasilha.

Capenga—manco, coxo, fazendo balance.

Sangue pisoado—Sangue pisado, maltratado.

Banzé—desordem, fuzuê,barulho.

Cafifa-- maldição, azar. Feitiço, falta de sorte.

Cubu— mulher horrorosa.

Muamba— trapaça,feitiço, coisa enrrolada, levemente desonesta.

Marafo—cachaça, pinga, aguardente  de baixa qualidade.

Cambono—cavalo: aquele que recebe entidade no terreiro de macumba ou no candomblé.

Mocó—Lugar afastado, esconderijo.

Malungo—companheiro, camarada, apegado.

Xereta—intrometido, delator, aborrecente.

Mironga—coisa oculta,segredo, mistério.

 

 E lembre-se: Em Minas, gente fina é a mesma coisa...

CULPA OU VAIDADE?


CULPA OU VAIDADE?

 

Marco Aurélio Baggio


 

            Freud descobriu e descreveu a pulsão sexual que se transforma em desejo ao investir sobre o objeto em sua busca pelo prazer. O princípio do prazer é o primeiro básico fiador que mantém o interesse do indivíduo em querer cuidar de manter-se vivo.  Dadas as dificuldades, os protelamentos e os encolhos determinados pela impertinência da realidade proveniente do entorno do sujeito, o inconsciente passou a criar, a expandir e conceber um mundo psíquico colateral, compensatório, alternativo: o simbólico. Nisso foi muito bem sucedido. Em grande parte, esse deslocamento  tem sido responsável pela expansão da bolha de psiquização do sujeito. Também pode ser responsabilizado pela criação da cultura e, no limite, pela civilização.

            Assim, foi a impossibilidade de livre curso de o desejo esvair-se em satisfação e prazer que gerou um diferencial positivo e valioso. No entanto, nos dias de hoje, a interdição já não mais segura tanto o sujeito e, por conseqüência, bem menos o estabelece. Num mundo afluente de bens e de desfrutes, num capitalismo narcísico hegemônico e globalizado, o sujeito quer desfrutar o gozo pleno, imediato, num presente tornado extenso. A pessoa abomina a interdição o quanto possa, embora ainda precise dela. O que prevalece é a psiquização de um eu inflado, narcísico, arrogante, pretensioso e muito potente.

            O simbólico vem perdendo sustentação e poder de estruturação do psiquismo das pessoas, ultrapassado pela urgência e imperiosidade da busca quase desvairada da satisfação imediata da pulsão.

            Um novo modelo de sujeito psíquico está nascendo, para além da interdição e do sentimento de culpa. Uma nova organização do vínculo social tem-se salientado, movida a interesse social, instruída agora pelo sentimento mais elevado da vaidade.

            Uma nova Ética que norteie a conduta humana terá de ser encontrada. Uma Ética que se baseie não mais no mero desejo, mas sim na noção de Valor. Valor é tudo aquilo que, selecionado e escolhido, prova ser capaz de facilitar o contato e a comunicação entre as pessoas. É o que acresce a hominização dos seres humanos. Responde pelo conceito de eudaimonia, como  ensinava  Aristóteles.

Sem dúvida, estaremos criando uma Ética adequada aos modos futuros de estabelecer uma convivência humana multivariegada, conveniente e fecunda.

            Não mais tanta interdição, mas o que deve prevalecer é um aproveitamento mais amplo da relação com os objetos. Não mais o sentimento judaico-cristão de culpa, mas o usufruto do brilhante afeto da vaidade. Não mais a protelação do prazer, deslocado sempre para um tempo futuro mais favorável, mas sim o desfrute imediato e maciço dentro de um presente extenso, pantanoso. Agora o que vale é aquilo que tem interesse em ampliar os modos humanos favoráveis de convivência. Este é um novo paradigma que irá instruir a prática social como motivador dos novos laços que unem os homens na sociedade.

            Como principal fonte de conhecimento e de teorização sobre a subjetividade humana, a psicanálise estará atenta a essa mudança de paradigma que vem, rapidamente, prevalecendo nas relações e interações entre os homens.

 

Coragem


Coragem

Florilégio sapiencial

Marco Aurélio Baggio

 

  Pois a coragem cresce com a ocasião.

 Shakespeare. Rei João: ato II       

 A coragem é a filha da prudência, não da temeridade. Calderón de La Barca. 1600-1681.

As grandes coisas são obtidas à custa de grandes perigos.   Heródoto.

  Nos perigos graves, atropela-se toda razão.  Cervantes.

  Corajoso diante dos perigos e pusilânime diante dos aborrecimentos.   Baroja e Messi.

  Desse modo a consciência faz de todos nós covardes.

 Shakespeare - Hamlet. 

  Corajoso é quem suporta sabiamente o que de pior a boca humana exala.   Timão de Atenas.

  A valentia sem um ideal que a enobreça degrada-se em ferocidade  . Coelho Neto.

 

Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas. 19ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005..

 

Que comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.   570.

  Mas se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta.   302.

          Confesso. Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é, coragem em mim era variável.  38.

  Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. 79.

  Carece de ter coragem.  83.

  Vau do mundo é a coragem.  232.

  Tenho medo? Não. Estou dando batalha.  237.

  Correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.   24.

   A vida é para esse sarro de medo se destruir; jagunço sabe. Outros contam de outra maneira.  278.

Ei retenteia! Coragem faz coragem.  284.

O maior direito que é meu – o que quero e sobre quero -  é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim...

         

Viver – não é? É muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é o que é o viver, mesmo.  601.

                Para principiar qualquer tarefa, quase que eu sozinho nunca tive coragem.  99.

                Mas, que coragem inteirada em peça era aquela, a dele?  125.

        Diadorim: O único homem que a coragem dele nunca piscava.   444.

        Coragem, alegria, facção, realização, resultado fecundo, satisfação, são os ingredientes para a travessia da vida.

 

 Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque o aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente da boca...   601.

        É com coragem que há de se afastar o medo e a tristeza que constrangem e coarctam as livres disponibilidades do ser em transcurso.

-         Ai foi o que eu pensei o inferno feio deste mundo: que nele não se pode ver a força carregado nas costas a justiça e o alto poder existindo só  para os braços da maior bondade.   406.

-          Mas o nosso bom São Marcos Vaqueiro, viajeiro, ajudou; primeiro mandou forte desalento; depois, então, a coragem. “Vida ensinada”.   204.

 
        O que (mais) se vê hoje é a força reinando bruta e dissociada da pálida justiça, que raramente chega aos destituídos. E o poder, exercido apenas para maior glória e melhor desfrute dos poderosos e de seus apaniguados.